Negros ainda são exceção nas salas de aula

A quantidade de pessoas negras ocupando profissões prestigiadas no mercado de trabalho ainda é baixa no Brasil. É difícil encontrar um médico, um advogado ou engenheiro negro. Entretanto, o motivo dessa deficiência é mais a falta de oportunidades do que de interesse. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), das pessoas negras de 15 anos ou mais, 9,3% eram analfabetas em 2017, enquanto a taxa de brancos analfabetos nesta faixa etária era de 4%.

Os números da mesma pesquisa mostram que entre as pessoas de cor preta ou parda, 47,4% não completaram nem a primeira etapa do ensino básico, contra 33,6% da população branca. O percentual de pessoas de cor preta ou parda com o ensino superior completo passou de 8,8% em 2016 para 9,3% em 2017. Apesar do aumento de 0,5%, o número ainda é baixo, uma vez que as pessoas brancas com superior completo somavam 22,9% em 2017, uma diferença de 13,6%.

Antes de passar no vestibular e entrar na Faculdade de Direito, a estudante e coordenadora de políticas para as mulheres negras na Secretaria da Mulher de Caruaru, Tamyres Cardoso, 29 anos, teve um caminho de oportunidades e adversidades. Quando era criança, a mãe e a avó foram até um colégio particular do bairro das Rendeiras, em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, para procurar saber o valor da mensalidade. Porém, acharam o custo alto e acabaram desistindo de matriculá-la. Pouco tempo depois, a diretora da escola foi até a casa de Tamyres, dizendo que havia alcançado uma graça junto a Nossa Senhora Aparecida e resolveu chamar a menina de pele preta igual à da santa para estudar de forma gratuita durante todo o período escolar. A instituição de ensino ia do maternal até a oitava série (atual nono ano).

Depois de terminar o ensino fundamental, ela concluiu o ensino médio em uma escola estadual. Nos últimos anos do colégio, Tamyres engravidou e além do racismo passou a enfrentar outros tipos de preconceito e ouvia frases como "Lá vem a neguinha grávida". Além das dificuldades comuns ao período de gestação na adolescência, ela passou pelo abandono por parte do pai da criança.

Na sala de Tamyres Cardoso, 29, na faculdade, só ela é negra

Ainda no ensino médio, Tamyres ouviu de um professor que não poderia ser jornalista, como queria, porque não teria a aparência supostamente necessária para a profissão. A vontade de cursar Direito surgiu após uma atividade em sala em que ela ganhou uma simulação de júri na qual defendia a Segunda Guerra Mundial. "Se eu defendi uma guerra, eu posso defender qualquer pessoa", refletiu. Depois que concluiu o ensino médio, Tamyres passava a semana trabalhando para sustentar a filha e fazia cursinho popular aos fins de semana. Feliz por ingressar em uma faculdade, financiada através do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), ela se surpreende com a baixa quantidade de alunos negros na sala de aula. No turno da noite, de 70 estudantes, ela é a única. Depois que concluir a faculdade, em julho deste ano, vai focar no sonho de ser juíza.

O já advogado Bruno Martins, 41 anos, que é especialista em direito público e eleitoral e foi procurador jurídico da Câmara Municipal de Caruaru, encontrou no direito formas de combater o racismo sofrido desde a infância. Nascido no bairro Vassoural, filho de um vigilante aposentado e de uma merendeira, ele tem cinco irmãos e é o único da família que se formou em uma instituição superior de ensino.

Advogado Bruno Martins, 41, foi jardineiro, vendedor e fretista antes de conseguir se formar

Estudante de escolas públicas e formado pela Faculdade do Vale do Ipojuca (Favip), também financiada através do Fies, há 10 anos, Bruno trabalhou como jardineiro, vendedor de picolé e fretista na Feira da Sulanca antes de conseguir ser advogado. Hoje, defende alguns dos patrões e acredita na educação como forma de combate ao racismo, e sempre procura dar o melhor de si para que a cor de pele não seja o mais importante. "Nada resiste ao conhecimento, o conhecimento expulsa isso [o racismo] de forma educada", argumentou.

Entre casos de discriminação racial pelos quais passou, Bruno cita que já foi comprar um carro de valor alto e em vez do vendedor da concessionária, foi "recepcionado" pelo segurança do estabelecimento. Além disto, em locais que frequentou, já foi confundido com um segurança e com um motorista, mesmo vestido de terno, vestimenta igual à dos advogados brancos, que não passaram pela "confusão". "[Para um negro], a cor da pele é passaporte para a violação de direitos. As pessoas negras são colocadas às margens da sociedade; a cor da pele e a pobreza são quase sentença de morte", pontou.

Para um negro, a cor da pele é passaporte para a violação de direitos. A cor da pele e a pobreza são quase sentença de morte - Bruno Martins

Quando vai a congressos de Urologia pelo País, o médico José Ronaldo, 41 anos, também fica intrigado com a baixa quantidade de negros nos eventos. Dos cerca de 4 mil urologistas do Brasil, de 10 a 20 são negros. Natural de Belém de Maria, na Zona da Mata Sul pernambucana, ele era visto como piada pelos conterrâneos quando dizia que queria ser médico. Para alguém de baixa renda de uma cidade de cerca de 12 mil habitantes do interior do Estado, a profissão era um verdadeiro sonho. "Não olhava para os desafios, e sim para o alvo", revelou.

José Ronaldo passou por universidades no Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso do Sul e hoje é especializado em cirurgia urológica e membro da Associação Brasileira de Urologia. Durante a carreira, passou por várias situações de racismo no exercício da profissão. Quando fazia atendimentos no Hospital Universitário de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 2014, um paciente ficou exaltado após a solicitação de exames por parte do médico, o chamou de "macaco" e "preto nojento". O caso foi parar na delegacia, onde o paciente pagou fiança e foi liberado para cumprir serviços à comunidade.

Médico José Ronaldo, 41, foi chamado de "preto nojento" e "macaco" em um hospital

Outro caso foi sofrido em um hospital conceituado de São Paulo, quando o médico disse à mãe de uma criança que ela precisaria ser operada. "Você vai chamar o cirurgião?", questionou a mulher. Depois de dizer que era o cirurgião, José Ronaldo viu espanto no rosto dela. "As pessoas medem a capacidade pela cor da pele. Então o negro tem que mostrar que está sempre acima. Acordar mais cedo, estudar mais, para ser reconhecido", avaliou o médico.

Racismo: começa com ofensa e termina com Justiça

Assim como o médico José Ronaldo fez, as pessoas que sofrem os crimes de racismo e injúria racial podem procurar as autoridades para que os autores sejam responsabilizados. A injúria racial está contida no artigo 140 do Código Penal, parágrafo 3º, e prevê reclusão de um a três anos e multa. Já o racismo consta na lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, e a pena depende do ato discriminatório cometido. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

De acordo com o advogado Anderson Carvalho, servidor do Ministério Público que já integrou o GT Racismo, que trata de medidas para combater este tipo de crime, racismo é negar ou dificultar a entrada em estabelecimentos ou edifícios públicos, por exemplo. O racismo é descrito como uma conduta discriminatória dirigida a um determinado grupo ou à coletividade. Já injúria racial consiste em utilizar palavras depreciativas referentes à raça ou a cor para ofender a honra da vítima, como chamar uma pessoa negra de "macaco(a)".

Servidor do MPPE, advogado Anderson Carvalho realiza ações de combate ao racismo

O advogado reforça que os negros que sofreram este tipo de ofensa devem procurar os órgãos públicos, como a Polícia Civil e o Ministério Público, para que os agressores sejam responsabilizados criminalmente. "Não há um negro que possa dizer que não passou por uma discriminação racial", afirmou.

Entre as orientações do MPPE para quem sofreu racismo estão: procurar a delegacia de Polícia Civil o mais rápido possível; contar a história com o máximo de detalhes e fornecer contatos de testemunhas e pedir ao policial que o agressor seja processado (para que seja instaurado inquérito). Após a conclusão do inquérito, o caso será encaminhado ao Ministério Público, que tomará as providências para a abertura do processo criminal.


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