Algemas invisíveis e a ilusão da abolição

A lei nº 3.353, conhecida como Lei Áurea, declarou extinta a escravidão no Brasil no dia 13 de maio de 1888. Assinada pela princesa Isabel, que respondia pela Coroa Brasileira na época, a lei representou a libertação apenas no sentido legislativo, não no social. Para os especialistas, a marginalização do negro nos dias de hoje é uma consequência direta da exclusão no período da república.

Mesmo livres no sentido literal da palavra, os ex-escravos não tinham sustento independente nem bens. Alguns continuaram fazendo serviços para os senhores de engenho em troca de alimentação e moradia. Outros acabavam se submetendo a empregos que pagavam pouco. Sem perspectivas de subir na pirâmide social, os africanos e seus descendentes continuaram em situação de marginalidade e vulnerabilidade.

A escravidão no Brasil foi abolida há quase 131 anos, mas começou em meados de 1530, 30 anos após o “descobrimento”. Não é preciso nenhum cálculo complexo para perceber que, no País, foram quase 490 anos de escravidão e apenas 131 de liberdade para os negros. Já dizia o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco, em 1900: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil". Quase como uma profecia, os resquícios do período escravocrata continuam como uma sombra das pessoas negras na atualidade.

Escravos sofriam castigos físicos caso desobedecessem ordens ou tentassem fugir (Imagem: Fundaj)

"Não houve preocupação de como os negros iam ficar depois da abolição", ressalta a pedagoga Teresa Raquel Silva, pesquisadora do tema. A pedagoga lamenta que a versão contada nas aulas de história seja a do colonizador, não a do colonizado. O trabalho escravo era considerado um negócio para a Coroa Portuguesa. Vindos de regiões diferentes da África, eles eram comercializados no Brasil.

Homens e mulheres, velhos ou jovens, eram analisados como animais, pela estatura física e até pelos dentes. "Eles eram arrancados de forma brutal da terra deles para ajudar na colonização de outros países. Nos navios negreiros, alguns morriam, outros eram assassinados no meio do caminho. No Brasil, eram submetidos a trabalhos forçados, sem remuneração e sem condições", explica Teresa Raquel.

Pernambuco foi um dos estados palco da escravidão no período colonial. A maior parte do território do Estado fazia parte da capitania hereditária na época batizada de Pernambuco, uma das duas que foi bem sucedida, por causa do cultivo da cana-de-açúcar. Até hoje alguns engenhos funcionam, seja para a produção de açúcar, seja para propósitos educacionais.

Localizado em Condado, na Zona da Mata Norte, Engenho Uruaé mantém características do século XVIII

Um destes é o Engenho Uruaé, localizado em Condado, na Zona da Mata Norte. Construído em 1737, o espaço passou por algumas reformas ao longo do tempo, mas continua com a estrutura base da época. Pertencente à família do primeiro ministro do 2º Império, João Alfredo, o engenho tem a Casa Grande, onde ficavam o senhor e a sinhá, donos da estrutura, a senzala, onde os negros dormiam, a igreja, forte símbolo da época, a casa de máquinas, entre outros.

Se identificar como negro é difícil numa sociedade racista - Aristóteles Veloso

O engenho preserva os elementos que demonstram o poder aquisitivo dos senhores da época: pinhais na decoração, eira e beira nos detalhes das construções, entre outros. Vestida de sinhá para recepcionar os visitantes, a administradora do engenho, Eleanor Rabelo, lembra que os escravos não podiam entrar na igreja Nossa Senhora da Piedade: ficavam do lado de fora esperando os senhores saírem. Já os senhores e sinhás não frequentavam as senzalas.

Os espaços abrigavam cerca de 190 escravos; portanto, os oito cômodos pequenos, escuros, e sem janelas ficavam com uma média de 20 escravos de uma mesma família. Alguns trabalhavam no plantio da cana-de-açúcar, outros, na Casa Grande. Quem descumprisse ordens ou desagradasse os senhores era submetido a castigos físicos, que incluiam agressões e tortura, com o uso de chicotes, gargalheiras, correntes. O escravo era preso em um tronco e as agressões começavam. Os que tentavam fugir eram recapturados pelo capitão do mato e também sofriam as retaliações.

A administradora do Engenho Uruaé, Eleanor Rabelo, recebe os visitantes vestida de sinhá

Cidades de outras regiões de Pernambuco também tiveram registro de escravidão, como Caruaru, no Agreste. De descendência europeia, o fundador do município, José Rodrigues de Jesus, chegou com dezenas de escravos à fazenda concedida à família. De acordo com a pedagoga Teresa Raquel, provavelmente foi a mão-de-obra escrava que ergueu casas e igrejas quando a fazenda Caruru começou a se transformar em cidade. Em uma das principais ruas do centro comercial de Caruaru, a Avenida Rio Branco (Rua da Matriz), havia um espaço chamado Angolinha, em que os escravos residentes na fazenda eram sepultados. Atualmente, o Palácio Episcopal está erguido no local.

O imaginário da época sobre os escravos perdurou para as pessoas negras de uma forma geral. O doutourando em Sociologia Aristóteles Veloso avalia que a representação dada ao negro no período escravocrata ainda se mantém em determinadas atitudes. "Se identificar enquanto negro é difícil numa sociedade racista. O homem negro é visto como feio, catingoso, ladrão, burro. A mulher, como preguiçosa, que tem o apetite sexual diferenciado [hiperssexualizada]. As pessoas buscam se afastar para não se identificar com os esteriótipos criados", explicou o professor.

Engenho Uruaé era da família de João Alfredo, primeiro ministro do 2º Império
Eira e beira nos detalhes das construções eram sinal de alto poder aquisitivo
Oito cômodos minúsculos abrigavam, cada um, cerca de 20 escravos da mesma família
Correntes, gargalheiras, chicotes e outros objetos eram usados para espancar e torturar os escravos
Senzala era escura e não tinha janelas, apenas uma porta voltada para o engenho e a outra, para a mata
Escravos não podiam entrar na igreja Nossa Senhora da Piedade

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