Ser preto e pobre é ser taxado de bandido

Três em cada quatro pessoas pobres no Brasil são negras. O número é de uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relativa a uma década inteira (2005 a 2015). Considerando que mais da metade da população (54%) é de pretos ou pardos, o dado é preocupante, pois comprova que a raça tem relação direta com a vulnerabilidade social. São de maioria negra as pessoas vendendo produtos no sinal de trânsito ou no transporte público, pedindo esmola nas ruas ou em empregos cujos salários são desvalorizados.

Um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2009 e publicado em 2011 mostrou que 66,2% dos domicílios em favelas era chefiado por pessoas negras, enquanto 33,8% era chefiado por pessoas brancas. Portanto, pessoas pardas e pretas têm mais probabilidade de viver em lares com condições precárias, sem acesso a água, esgoto e coleta de lixo, em relação à população branca.

Para o doutourando em Sociologia Aristóteles Veloso, a vida das pessoas negras atualmente ainda tem relação com a escravidão. "A condição do negro de desigualdade social do período escravocrata foi reconfigurado para que as pessoas se mantivessem na mesma posição", explicou. Segundo ele, até hoje as representações de negros são em forma de inferioridade. No mercado de trabalho, as pessoas negras acabam ocupando vagas consideradas de "segunda categoria" como empregadas domésticas, cortadores de cana e outros trabalhos braçais.

Aristóteles Veloso diz que a vida das pessoas negras hoje tem relação com a escravidão

Não por coincidência, os números refletem também na violência. Dados do Altas da Violência 2018, documento desenvolvido por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Ipea, revelaram que a desigualdade das mortes violentas por raça/cor aumentou nos últimos 10 anos. De acordo com os números, enquanto a taxa de homicídios de não negros diminuiu 6,8%, a quantidade de assassinatos contra negros subiu 23,1%. Os dados mostram ainda que 71,5% das pessoas assassinadas a cada ano no Brasil são pretas ou pardas. Além disto, a taxa de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras.

Também por causa destes dados, os negros são os que mais sofrem com abordagens policiais. O enfermeiro Evanderson Quirino, 26 anos, foi abordado quatro vezes dentro de dois meses em Caruaru, no Agreste de Pernambuco. Em uma das abordagens, ele chegou a ser agredido por um grupo de policiais, quando estava se divertindo com amigos na Rua Silvino Macêdo, conhecida pelos bares e vida noturna.

"Jogaram spray de pimenta, me bateram, fizeram fila [para bater]. Nenhum cidadão merece ser tratado pela polícia dessa forma. Quando eu vejo a polícia vindo, já coloco as mãos na cabeça", contou. Evan revela sentir mais medo da polícia do que de sofrer assaltos: "A gente sente medo de quem deveria estar protegendo a sociedade". A Polícia Militar informou à reportagem que o comando do 4º Batalhão da PM "desconhece e não tolera qualquer ato de afronta aos direitos humanos do cidadão, ao ponto que orienta pessoas queixosas a procurarem o batalhão".

Evanderson Quirino, 26, foi abordado e agredido por policiais militares

Evan mora em uma viela no bairro Nossa Senhora das Dores, próximo à margem do Rio Ipojuca, na área central de Caruaru. Estudou por toda a vida em escolas públicas. Formou-se em enfermagem pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e recentemente passou na única vaga de uma seleção para especialização em saúde mental na Universidade Federal da Bahia (UFBA), que começa a cursar este ano. Ao mesmo tempo em que conta que os policiais o respeitam após ele apresentar o registro do Conselho Regional de Enfermagem (Coren), lamenta que eles e a população em geral pressuponham que um negro seja um bandido: "É como se uma pessoa negra na rua não tivesse capacidade".

Quando eu vejo a polícia vindo, já coloco as mãos na cabeça" - Evanderson Quirino

Outro dado é do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (ano base 2015), que demonstrou que o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior do que o de um jovem branco. "Em relação à violência letal, é como se negros e não negros vivessem em países completamente distintos", diz o documento. Os negros são ainda as principais vítimas da ação letal das polícias e o perfil predominante da população prisional do País.

Pretos e pardos não sofrem violência só nas ruas, mas também estão mais vulneráveis a sofrer outros tipos de agressões, como a doméstica e a obstétrica, para as mulheres. Foi o que aconteceu com a empregada doméstica Gorete Gomes, 32 anos, que mora no Residencial Luiz Bezerra I, parte do programa do Governo Federal Minha Casa Minha Vida. Ela relembra com tristeza do dia 14 de julho de 2015: o nascimento da primeira filha, Geovana, deveria ser um momento especial, mas acabou tornando-se um trauma.

Vítima de violência obstétrica no Hospital Jesus Nazareno (Fusam), maternidade pública estadual; Gorete relata que ouviu de uma profissional da saúde que estava muito gorda para estar grávida. De acordo com ela, a equipe médica induziu o parto normal mesmo sem a dilatação necessária do colo do útero, realizou a episiotomia (ampliação do canal de parto) para a saída da bebê e até a Manobra de Kristeller (pressão da parte superior do útero para acelerar a saída do bebê) para que Geovana nascesse.

Gorete Gomes, 32, sofreu violência obstétrica quando dava à luz a primeira filha

A criança nasceu sem os sinais vitais e precisou ser reanimada. Ela passou nove dias no Centro de Terapia Intensiva (CTI) e outros 10 internada. Gorete contou que passou horas sem ver a filha depois do parto. Ela também ficou internada por um período e mesmo após a saída do hospital, continuava a sentir dores. Depois de procurar uma ginecologista, descobriu que estava com sequelas do parto e precisou passar por um procedimento para reconstruir o canal vaginal.

Por causa destes problemas, Gorete chegou a passar 11 meses sem praticar relações sexuais. "Não me sinto uma mulher como antes", lamentou. Ela atribui a violência sofrida ao fato de ser parda, pobre e gorda. "O preconceito é a causa maior, que faz as mulheres sofrerem mais. Você tem que ficar calada e abaixar a cabeça", desabafou.

Gorete procurou uma advogada e acionou o Ministério Público e a Câmara Técnica de Enfrentamento à Violência Obstétrica de Caruaru (CTEVO). Ela foi encaminhada para um médico e um psicólogo e passou por terapia corporal. Porém, alguns meses depois, recebeu a resposta de que o caso havia sido arquivado. Por meio de nota, a direção da Fusam informou que prestou as informações necessárias aos órgãos de controle, como o Conselho Regional de Medicina (Cremepe) e MPPE e continua à disposição das autoridades para auxiliar no caso. O hospital informou ainda que tem como missão "prestar um atendimento humanizado para as gestantes e bebês acolhidos no serviço, referência para o Agreste pernambucano".


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