Arte e cultura contra intolerância

Desde o período da escravidão, os costumes dos negros vindos da África para o Brasil eram reprimidos de formas distintas pelos senhores de engenho e pelos governantes da época. Até hoje, alguns dos rituais e crenças de matrizes africanas são vistos de forma preconceituosa. Termos como "macumba" ainda são utilizados de maneira pejorativa para descrever o candomblé e a umbanda, duas das mais tradicionais religiões de origem africana existentes no País. No início do século XIX, as manifestações culturais e rituais africanos não eram aceitos, pois eram vistos como atrasados comparados à herança europeia. Outros costumes e invenções dos escravos foram adaptados integralmente à cultura brasileira e reconhecidos internacionalmente, como o samba, na música, e a feijoada, na gastronomia.

Atualmente com os títulos de Patrimônio Cultural do Brasil e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a capoeira começou como uma forma de defesa para os escravos negros, ensinada e repassada pelos fugitivos recapturados aos outros escravos que estavam nos engenhos. Ao mesmo tempo em que é considerada uma luta e uma dança, a capoeira pode ser interpretada como um esporte ou uma arte.

Os capoeiristas formam uma roda e dois deles lutam - ou dançam - no centro. As pessoas que estão ao redor do círculo cantam, batem palmas e tocam instrumentos de percussão, como o berimbau. A capoeira, que era treinada nos engenhos, chegou a ser proibida por décadas no Brasil entre 1890 e 1937, até ser reconhecida pelo governo do então presidente Getúlio Vargas como esporte nacional. Antes, o código penal em vigência na época previa prisão e até deportação como pena para quem praticasse a capoeira.

A arte é um mecanismo contra a intolerância e o preconceito - Chris Mendes

Na música, a cultura negra está presente principalmente no samba, atualmente uma das grandes marcas do Carnaval. Cantora e pedagoga, Chris Mendes, 48, tem como objetivo tornar a cultura do povo negro conhecida. Recentemente, fundou o Instituto de Cultura Afro Brasileira em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, para realizar e receber eventos e grupos interessados em aprender sobre capoeira, candomblé, gastronomia, entre outras manifestações. O espaço é decorado com bonecas Abayomi (que quer dizer "encontro precioso"), confeccionadas com retalhos pelas escravas para as filhas, e outros elementos da cultura negra.

Junto com amigos, Chris Mendes interpreta lamentos de capoeira, como "Quando eu venho de Luanda" e "Canto das Três Raças", samba de Clara Nunes, acompanhada por berimbau (instrumento de percussão com apenas uma corda), pandeiro, tambor, entre outros. Frequentemente ela se apresenta em polos alternativos do período carnavalesco e junino de Caruaru. "Eu uso a arte para que as crianças que passaram por dificuldades [como eu] conheçam o que a ancestralidade deixou. É um mecanismo contra a intolerância e o preconceito", revelou.

Na época da escravidão, os negros eram obrigados a seguir o catolicismo. Apesar disto, as religiões de origem africana continuaram a ser praticadas secretamente. Separados das famílias e tradições diversas de cada região do país, os escravos africanos partilharam entre si cultos e conhecimentos, dando origem a religiões com raízes na África, como o Candomblé, no Nordeste, e a Umbanda, no Rio de Janeiro.

Cantora Chris Mendes fundou o Instituto de Cultura Afro Brasileira em Caruaru
Chris tem como objetivo tornar a cultura do povo negro conhecida
Espaço é decorado com bonecas Abayomi, que antigamente eram confeccionadas com retalhos pelas escravas
Gastronomia da cultura negra também é apresentada no instituto

O rap, que surgiu na Jamaica e difundiu-se pelos Estados Unidos, também foi incorporado pela população negra brasileira, principalmente a parte - a maioria - que vive em periferias em várias partes do País. Uma das principais características do estilo é associar protesto à música. Artistas como os Racionais MCs, que fizeram sucesso nos anos 90, e Emicida e Criolo, parte da cena atual, são algumas das referências para os principiantes.

Conhecido por "Fumaça" pelas pessoas do bairro em que vive na periferia de Caruaru, Kézio Almeida Gomes, 20, é adepto do hip hop e promove "batalhas" de rap no Marco Zero da cidade e na Praça Nova Euterpe, frequentada por skatistas. As letras das músicas presentes nos eventos falam sobre a desigualdade social como forma de protesto e expressão cultural. "A gente luta contra qualquer tipo de preconceito para mostrar que a rua tem voz também", detalhou.

Morador do bairro Severino Afonso, na periferia de Caruaru, Kézio Almeida, ou "Fumaça", organiza batalhas de rap

Morador do Severino Afonso, Kézio tem tatuagens por todo o corpo, inclusive no rosto, e diz que já sofreu pré-julgamentos por causa da aparência. Aos 14 anos, ele entrou em contato com as drogas e começou a traficar. Foi depois de perder nove amigos em três meses para a luta territorial pelo tráfico na cidade que ele percebeu que, caso continuasse, poderia ser o próximo. Neste meio tempo, conheceu uma batalha de ritmos realizada na Estação Ferroviária. Depois de passar um período em Salvador, na Bahia, e voltar para Pernambuco, ele se identificou ainda mais com a batalha de rap e assumiu a manifestação em Caruaru. Na primeira batalha que promoveu, conseguiu reunir cerca de 15 pessoas. No início deste ano, o grupo já somava quase 80.

Nascido em Belo Jardim e radicado em Caruaru, o ator Rosbergg Alexsander, 23 anos, passou por racismo por causa da cor e do cabelo durante toda a vida. Para ele, o teatro é visto como uma forma de denúncia, de expressar mágoas, e foi com este pensamento que desenvolveu, junto aos amigos Vanderson Santos e Pedro Henrique, o "Poeta Preto", espetáculo instimista que tem como objetivo chamar a atenção para o preconceito enfrentado pelas pessoas negras.

O poeta, único personagem do espetáculo, tem um "alter ego" racista, e parece convulsionar entre o negro que sofre com as diversas formas de racismo e o racista, que o critica e incentiva a fazer procedimentos de "branqueamento". Ao final da peça, o personagem pinta o rosto de branco, o que cala a voz do Poeta Preto, encerrando o espetáculo de crítica social. Segundo Rosbergg, o enredo reflete pensamentos da própria família e de outras pessoas que cruzaram o caminho dele, que pediam para ele cortar o cabelo, por exemplo, em vez de assumir os fios crespos em um "black power". "É um espelho do nosso próprio reflexo", avaliou.

Já com relação à gastronomia, pratos como acarajé, mungunzá, feijoada e cocada são algumas das receitas inventadas a partir da cultura africana. A feijoada, por exemplo, foi desenvolvida nas senzalas e era preparada com as sobras de carnes das famílias dos senhores de engenhos. As melhores partes da carne dos porcos ficavam para os donos dos engenhos; já as orelhas, os pés e outras partes dos animais eram entregues aos escravos, que decidiram misturá-las ao feijão preto e cozinhá-las em um caldeirão.


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