Até quando a cor da pele vai ser determinante?

"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar". A frase da autobiografia do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, um dos líderes da luta contra a segregação racial, ilustra a necessidade da educação para construir o respeito às pessoas e à cultura negras. E é na infância que o racismo começa.

Grávida de oito meses, a psicóloga Liza Souza, 32 anos, já tem preocupações quando pensa que o filho Aquiles pode nascer negro, caso tenha as características dela. Nascida na cidade de Caetité, no interior da Bahia, Liza mudou-se para Caruaru, no Agreste de Pernambuco, em 2007 para fazer faculdade, após ser aprovada através da cota racial do Programa Universidade Para Todos (ProUni).

Liza Souza, 32, passou a gravidez refletindo sobre o racismo, caso o filho nasça negro

Por muitos anos, Liza alisava o cabelo, assim como todas as mulheres negras da cidade natal, mas depois de conhecer pessoas do movimento negro, se reconheceu como negra e percebeu que estava fazendo este tipo de procedimento para se encaixar em um padrão. Depois de assumir o cabelo crespo, surpreendeu os familiares. Há um ano, ela sofreu o preconceito enquanto fazia compras em uma loja, o que a fez refletir ainda mais sobre o racismo.

Enquanto escolhia roupas para provar, foi observada e abordada por um vendedor, que pediu para guardar a bolsa dela. Porém, ao olhar ao redor, percebeu que havia outras clientes - brancas - escolhando roupas com a bolsa a tiracolo, e ele só havia pedido a dela. Até hoje ela lamenta por não ter reagido. "Tenho receio, mas muita consciência de que vou bater de frente se meu filho sofrer algum caso de racismo. Passei a gestação me munindo de informações para enfrentar vários tipos de situação, tanto se meu filho nascer negro, como se ele nascer branco", relatou.

Apesar da pouca idade, as irmãs Isadora Carvalho, 6, e Maria Emília, 9, já sabem o que é o racismo. A mais velha sofreu bullying na escola por causa do cabelo; a mais nova, no hotelzinho. No colégio, Emília percebe que alguns colegas não querem ficar perto dela por causa da cor e do cabelo. Ela fica triste, mas conta com o apoio da família para superar as marcas do preconceito. As duas tem no tio/padrinho, um advogado negro, um espelho para enfrentar o racismo. "Ele me incentiva, me ajuda a perceber que eu sou bonita com o meu cabelo [natural] e que eu não preciso ficar com vergonha", diz Emília. Um colega do hotelzinho de Isadora, da mesma faixa etária, disse que o cabelo dela era feio. "Você gostaria que falassem isso com você?", respondeu a criança.

Maria Emília, de 9 anos, e a irmã, Isadora, de 6, já foram vítimas de racismo, mesmo com pouca idade

A dona de casa Josélia Liandro, 64, conhecida como Dona Zezé, lutou desde cedo pelo respeito aos três filhos. Quando frequentava a escola, não sofria muitos preconceitos em sala de aula, já que estudava em escola pública, em que a maioria dos estudantes são negros como ela. Já os filhos foram matriculados em uma escola particular, onde a diferença é mais evidente.

Entre lágrimas, Dona Zezé relembra um episódio de racismo sofrido pelo filho. Quando criança, ele ficaria na frente no desfile no Sete de Setembro da escola, com a bandeira do Brasil. Porém, no dia do evento, uma professora pediu para que ele desfilasse atrás e colocou outro aluno para levar a bandeira. "É muito triste a gente ter que brigar por isso. Sempre fui muito autoritária quando se tratava dos meus filhos. Eu gostaria de ter estudado, feito faculdade, mas não consegui. Sempre quis o melhor para eles", relembrou.

Atualmente formado em educação física e gastronomia, um dos filhos dela, o empresário Jonathan Liandro, 32 anos, é dono do Negro Brownie, doceria especializada em brownies localizada no bairro Maurício de Nassau, um dos mais nobres de Caruaru. Por várias vezes, já foi confundido como funcionário do estabelecimento, em vez do proprietário. Segundo ele, mesmo com o nome da doceria, as pessoas sempre acham que o dono é um empregado do estabelecimento, branco.

Jonathan Liandro, 32, tem na mãe, Dona Zezé, 64, um símbolo de luta pelo respeito

Assim como a mãe, o pai de Jonathan também luta para que os filhos sejam respeitados. Certa vez, uma colega ligou para o telefone fixo da residência e quem atendeu foi o pai. "O Negão está?", perguntou a interlocutora. Do outro lado da linha, o pai retrucou: "Não batizei nenhum filho de Negão". A partir deste momento, Jonathan começou a perceber que não deveria aceitar o apelido e insistiu para que os amigos o chamassem pelo nome.

Não batizei nenhum filho de Negão - pai de Jonathan Liandro

A advogada Lucimary Passos, 62, já foi professora da rede pública e privada e sempre incluiu a temática e a discussão sobre o racismo para educar os alunos contra a discriminação racial. Tudo isto para evitar que as pessoas sofressem o que ela sofreu. Em uma história parecida com a do filho de Dona Zezé, ela contou que quando criança foi impedida por uma professora de se candidatar a Rainha do Milho durante as festividades de São João. O "cargo" foi ocupado por uma das melhores amigas dela, branca. Mesmo feliz pela amiga, na época Lucimary tinha um sentimento de decepção: "por que não eu?".

Trabalhando como advogada, Lucimary esteve em penitenciárias e viu que a realidade se traduzia nos números: a maioria dos detentos eram jovens negros. Para ela, a falta de acesso à Justiça leva a outras perdas de direitos, como a saúde, a educação. Lucimary acredita ainda que os movimentos sociais em prol das pessoas negras são uma forma de resistência. "A esperança não pode morrer, tem que ser alimentada todos os dias", afirmou.

Lucimary Passos, 62, é referência no combate à violência contra negros em Caruaru

Racismo se combate com educação

Para tentar combater o racismo nas escolas, foi criada a lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que prevê como obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. De acordo com a legislação, o conteúdo programático deve incluir o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

Além disto, a lei diz que os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira deverão ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e História Brasileiras. O documento inclui ainda o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, no calendário escolar.

Em Pernambuco, a Gerência de Educação Inclusiva e Direitos Humanos, vinculada à Secretaria de Educação e Esportes, é responsável por ministrar oficinas e formações periodicamente para professores, gestores e educadores de apoio sobre a temática africana. De acordo com a pasta, as formações, realizadas mensalmente, são aplicadas de forma recorrente em todas as escolas da rede estadual em formato de atividades pedagógicas, como aulas, projetos, feiras de conhecimento, mostras culturais, seminários, entre outros.

Segundo a Secretaria de Educação de Caruaru, a lei nº 10.639 é aplicada dentro das salas de aula através de disciplinas como História, Língua Portuguesa, Artes, entre outras. De acordo com a secretaria, durante o ano letivo a história e cultura afro-brasileira são destacadas, inclusive quando se fala de cultura de paz dentro do ambiente escolar, visto que existe a possibilidade de algum estudante sofrer bullying por causa do racismo. Além disto, o Dia da Consciência Negra é comemorado nas escolas, geralmente durante uma semana.

COMPARTILHE