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Mobilidade urbana

Ciclistas se unem para democratizar o trânsito
na cidade

Ciclistas pedem pela democratização do espaço urbano

Alana Lima

Do NE10

SJCC | Rio + 20

Ainda crianças, muitas pessoas aprendem a andar de bicicleta. Essa é uma das primeiras lições que realizam de forma consciente no processo de aprendizado. Tanto é que a transição entre andar amparado por quatro e por duas rodas marca muitas infâncias. As bicicletas estão presentes na pouca idade sobretudo como forma de lazer e, com o passar do tempo, geralmente ficam abandonadas junto com demais brinquedos e tombos. Acontece que para uma parcela significativa da população brasileira, as "magrelas" estão longe de ser apenas uma lembrança da infância. De acordo com dados do "Caderno de referência para elaboração de plano de mobilidade por bicicleta nas cidades", publicado pelo Ministério das Cidades em 2007, a bicicleta é o veículo individual mais utilizado em cidades com menos de 50 mil habitantes - o que representa mais de 90% do total das cidades brasileiras.

Desde 2009, ciclistas se encontram na última sexta-feira do mês, na praça do Derby, e de lá saem pelas ruas do Recife

Qual meio de transporte você mais usa para se  locomover em sua cidade? 

Sílvio Monte usa a bicicleta todos os dias para ir ao trabalho

A novidade é que diante do atual cenário de mobilidade - ou de imobilidade - urbana dos grandes centros do Brasil, as bikes têm, cada vez mais, tentado ganhar espaço entre os muitos carros e ônibus parados nos congestionamentos. O engenheiro de 28 anos, Daniel Valença, vendeu o carro em outubro de 2011 depois de, em setembro, ter o primeiro contato com a ação Bicicletada. "É muito despendioso e eu não via mais necessidade de ter carro. Todo mundo tem direito de ter o que quiser e eu vi que, para mim, era desperdício manter um automóvel". Desde então, Daniel começou a se locomover só de bicicleta. Mora no bairro do Parnamirim, trabalha por perto e vai caminhando, mas se desloca ao Centro do Recife constamente e sempre de bicicleta. Apesar do pouco tráfego, o engenheiro acha perigoso pedalar à noite: "Os carros andam com muita velocidade e não respeitam as sinalizações". O diretor de inovação, Sílvio Monte, com também 28 anos, mora no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife, e, todos os dias faz o percurso casa-trabalho de bicicleta: segue até o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP), localizado na Zona Oeste da cidade e percorre cerca de 12 km. Ele, de bicicleta, o pai - que mora na mesma casa -, de carro. As pedaladas de Sílvio são impulsionadas por prazer e acompanhadas de infraestrutura: ele toma banho ao chegar no trabalho, troca de roupa e tem um lugar seguro para deixar seu meio de transporte.

Nem todos, no entanto, podem gozar dessas condições. A falta de bicicletários - estacionamentos para as bicicletas - é apenas um dos problemas enfrentados pelos ciclistas da Região Metropolitana do Recife, mas, o maior deles, parece ser a falta da convivência pacífica no trânsito. "Muita gente fala que o maior desejo do ciclista é ter ciclovia, mas acho que uma das maiores vontades é que exista educação no trânsito", acredita o ciclista Daniel Valença. Pouca gente sabe, por exemplo, que, de acordo com o artigo 201 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os veículos automotores – sejam carros, motocicletas, caminhões ou ônibus – devem guardar um metro e meio de distância ao ultrapassar um ciclista. Se a determinação recomendada fosse seguida, muitos acidentes poderiam ser evitados e muitos ciclistas deixariam de se assustar com os "finos" dos carros. "Andar de bicicleta no Recife é ir do céu ao inferno em 30 segundos. É você estar sentindo prazer e, de repente, perceber que poderia ter morrido por causa do carro que acabou de passar", lamenta Sílvio Monte.

Daniel Valença vendeu o carro e hoje seu meio de transporte é a bicicleta

MAIS AMOR, MENOS MOTOR Toda última sexta-feira dos meses, grupos se reúnem em diversas cidades do mundo para promover a cultura das bicicletas. No Recife, o ponto de encontro é na praça do Derby, Zona Central da cidade, às 18h30. A bicicletada se faz na hora e é uma ação horizontal - sem líderes - onde qualquer pessoa pode aparecer: o único pré-requisito é estar disposto a pedalar - ou até pegar uma carona de bicicleta - pela cidade. O percurso é decidido na hora, pelas pessoas que irão fazer o passeio e, diante da pluralidade de participantes, se manifesta uma também pluralidade de objetivos. Um dos principais é divulgar a bicicleta como um meio de transporte para que sejam criadas condições favoráveis de uso deste veículo. É como se, em massa, gritassem - e gritam - para a população: "Veem? Estamos aqui!". Ou, como diz um dos lemas da Massa Crítica, que surgiu nos anos 90, na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, e que inspira a bicicletada: "Nós somos o tráfego".

A bicicletada acontece no Recife desde 2009, mas, de acordo com Israel Costa, que participa da ação desde a época, 2012 tem sido um ano de crescimento dos participantes: "Antigamente não passávamos de 30 pessoas, hoje, dificilmente saímos com menos de 100". Antes de começarem a pedalar, os presentes dialogam sobre como será a bicicletada e discutem questões como o fechamento das ruas: "As ruas que são mais estreitas fechamos, não tem jeito, mas o fato é que os carros fecham as ruas todos os dias, o tempo todo, e ficamos sempre com a sobra do acostamento", explica Israel.

De 2009 para cá, Israel acredita que pouco foi feito na melhora de infraestrutura para os ciclistas, porém, vê uma mudança de postura nas pessoas: "Particularmente sempre ando com uma plaquinha na minha bike 'O carro é seu, a rua é de todos' e quase sempre recebo um 'legal' de alguém na rua, até mesmo de motoristas". "Quando você cria um novo ciclista, você cria uma rede", acredita Daniel Valença. Desde que começou a pedalar, já reapresentou a bicicleta para seis pessoas próximas e ajudou na mudança de percepção de outras: "Na minha casa mesmo, meus pais hoje respeitam a distância de 1,5m do ciclista".

MOBILIDADE URBANA Em 2001, foi aprovada a Lei 10.257 conhecida como o Estatuto da Cidade que deu origem à proposições a respeito da mobilidade urbana. O Estatuto defende a democratização do espaço: um acesso democrático à cidade, o que pressupõe a valorização dos deslocamentos de ciclistas. De acordo com o Plano Diretor de Transporte e da Mobilidade – PlanMob -, deve ser garantida a diversidade das modalidades de transporte, priorizando o transporte coletivo e os modos não motorizados e valorizando o pedestre.

Com o lema: "Um carro a menos", um dos pontos de combate da bicicletada, diz respeito à valorização dos automóveis: "Somos educados a querer carros, seja por status, segurança, praticidade. As pessoas são estimuladas a viver de forma individualista, quando na verdade a cidade é um espaço coletivo", explica Israel Costa. Individualmente, Israel acredita na função social do carro, assim como Daniel Valença: "Antigamente eu pensava que ninguém devia usar carro, hoje já começo a achar que cada um deve ter o direito de ter o que quiser". A questão é ter condições para exercer essa vontade. Os ciclistas reclamam, por exemplo, de viadutos que são construídos até mesmo sem calçadas - o que dificulta ciclistas que poderiam caminhar com as bicicletas nestes trechos de subida e os próprios pedestres.

A Bicicletada não se intitula como parte de um grupo, é um acontecimento, um flasmob que só existe na última sexta-feira de cada mês. Muitos participantes, no entanto, acabam se sentindo, involuntariamente, como grupo. A bicicleta criou amigos e relacionamentos. Além de ser um meio de transporte rápido, limpo, silencioso, saudável e econômico, ocasiona uma nova maneira de se relacionar com a cidade e com o outro: "Eu saí da bolha", entendeu Daniel Valença ao perceber que o mundo não se restringe ao universo que fica dentro de vidros fechados embalado pelo som ligado do carro.

Ciclista por um dia 

Jornalista (capacete vermelho) dividiu espaço com carros no trecho de Boa Viagem onde não há ciclovia

"Comecei a andar de bicicleta quando eu morava no subúrbio, percebi que ela podia me levar mais rápido para os lugares que eu queria e, no fim das contas, ela me levou a conhecer muitas pessoas". É por causa da bike que Renato Fernando, 26 anos, conheceu Luís Filipe Melo, 15, e Arnóbio Lima, 14. Renato e Filipe são praticamente vizinhos e começaram a fazer passeios juntos. Filipe levou Arnóbio e toda uma rede de relações foi se formando inclusive com o pessoal que costuma frequentar a bicicletada.

Arnóbio, apesar da pouca idade, já tem a bicicleta como meio de transporte diário: vai da escola para casa de bike todos os dias se locomovendo pelo bairro de Boa Viagem. Os pais ficam receosos, mas, se o destino é diferente da escola, o menino nunca vai sozinho. Luis Filipe também não anda só, mas faz um percurso grande: vai de casa - em Boa Viagem, para a escola no bairro do Pina. Da escola pra casa, de casa pro trabalho, no bairro de São José e do trabalho pra casa todos os dias. Fora isso, junto com Renato e outras pessoas costuma realizar passeios para fora da cidade. Hoje, Renato não tem medo de enfrentar o trânsito, mas acredita que isso ainda é problema para muitos: "Muita gente deixa de ir a lugares de bicicleta porque não há espaço para o ciclista".

Foi para que eu tivesse uma ideia de como é ser ciclista no Recife, que Renato, Luís Filipe e Arnóbio me acompanharam em uma volta de bicicleta pela Zona Sul do Recife no último dia 7. Saímos por volta das 18h da ciclovia de Boa Viagem na altura da praça da região. Seguimos os quatro e Renato filmou todo o percurso [veja vídeo]. A ciclovia tem cheiro de mar, gosto de esportes. Muita natureza ao redor, muita gente caminhando no calçadão, alguns poucos caminhando na ciclovia e dificultando o fluxo, algumas poças de água, uns trechos escuros e muitas, muitas curvas.

A ciclovia é interrompida no bairro do Pina. De lá, é necessário enfrentar os carros e entrar no bairro de Brasília Teimosa para poder ter acesso novamente à continuação da via. Neste trecho, ela é pintada de vermelho, no mesmo nível da Avenida Brasília Formosa e separada por faixas brancas e sinalizadores. A área é um pouco escura.

Depois de andar por uma das poucas áreas da cidade onde as bicicletas gozam de um lugar específico para a circulação, fomos enfrentar o trânsito na Rua dos Navegantes e na Avenida Domingos Ferreira. Nessa hora, as bicicletas competem com carros imensos, pesados e que não respeitam os ciclistas. A distância de 1,5m é igorada e nós, em grupo, nos ajudávamos andando em fileira, cuidando dos cruzamentos e sinalizando com as mãos o percurso a ser feito.

O "fino" dos automóveis a gente sente com o vento forte que sopra quando um carro passa veloz e a tendência natural é se imprensar, cada vez mais, perto do meio fio dando passagem à quem impõe passagem. Uma hora tive medo, desci, empurrei a bicicleta e depois subi de novo. A cidade toda tem pressa, buzina, passa, esmaga e nunca vê o outro que precisa aprender a se fazer ser visto.

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