Foto: Igo Bione/JC Imagem


Dentro dos presídios e colônias penais da Região Metropolitana do Recife, parte das histórias dos homens e mulheres está impressa na própria pele. Elas nos falam sobre crimes cometidos, crueldade, algum terror. Também informam sobre afetos nunca experimentados, perdas e saudade. De pais, filhos, avós, irmãos e amigos que estão lá fora – ou que se foram para sempre. De hoje até quarta, o JC traz essas narrativas, todas elas contadas através das tatuagens vistas nos detentos dos presídios de Igarassu e Agente Marcelo Francisco de Araújo (Complexo do Curado, antigo Aníbal Bruno), e nas colônias penais femininas de Abreu e Lima e do Recife. A reportagem é de Fabiana Moraes, com fotos de Igo Bione


Narrativas de amor e morte


O corpo de Marcelo Andrade Silva, 30 anos, é afeto: tem uma espécie de papiro tatuado no braço direito, onde lemos, em letras grandes, Ariel. Depois, no antebraço, há um enorme Talita. São duas provas de amor: uma para o filho, outra para a mulher. O corpo de Marcelo Andrade Silva, preso há quatro anos, é espanto: quando tira a camiseta amarela, nos mostra que sua ternura tem limite. Em suas costas, está tatuado o rosto hollywoodiano de Jack Sparrow, personagem do filme Piratas do Caribe. Ele segura um revólver de onde surgem, saindo do cano, vários fantasmas. Ao seu redor, foram desenhados sepulturas, cruzes, um 666, ossos, caveiras, velas e um poço sobre onde aparece, amarrada a uma corda, a cabeça de um homem. Referem-se aos homens que ele matou. "Talita acha legal."

Marcelo está no Presídio de Igarassu desde 2009, ano em que assassinou, quase sequencialmente, três pessoas e tentou matar mais duas. Ali, convive com cerca de 2.700 presos em um espaço construído para abrigar 426. Centenas deles, trazem, como o rapaz, o corpo tatuado. Mas enquanto as imagens impressas no ex-bailarino de banda de forró eletrônico (“conheci muita gente da alta sociedade, senhora”), escancaram quase totalmente os motivos de sua estada no presídio, várias outras são compreendidas apenas por um grupo mais restrito, aquele que compartilha o dia a dia das prisões. Palhaços, carpas, sereias, caveiras, cruzes, magos e dragões, entre outros, significam bem mais do que está representado, são instrumentos para informar, separar e dividir, sugerem quem pode ser seu parceiro, sugerem quem pode lhe atacar pelas costas. Elas surgem ao lado de outras tatuagens, estas mais íntimas. São nomes de mulheres, filhos, pais, irmãos. Simbolizam apenas uma coisa: saudade.

Em meio ao cemitério que Marcelo tatuou, há uma cruz desenhada exatamente no meio das costas: nos mapeamentos realizados para identificar os significados das tatuagens nos presídios (veja arte nesta página), a cruz desenhada nesse local identifica o indivíduo que tem o corpo fechado ou aquele vai até as ultimas consequências em seus atos. É o caso de Marcelo. Em 2009, um amigo seu, Fábio Bagaço, foi assassinado. Marcelo diz que gostava muito dele (“era amigo, meu parceiro”) e, durante o enterro, prometeu dar cabo de todos os envolvidos. Foi bem-sucedido, embora sua missão, acredita, tenha sido incompleta. “Matei três elementos que não serviam para nada, senhora. Queria matar mais dois, mas só deixei eles fora de combate.” O primeiro, Marcelo Justino da Silva, foi morto um dia após o sepultamento de Fábio, em 10 de junho de 2009, em um terreno baldio na Rua 103, bairro de Caetés III. No dia 12, às 18h, Marcelo atirou e matou Leandro Rocha do Nascimento. No dia 13, também na via pública, às 16h, ele tentou matar Jonas Rodrigo dos Santos, que sobreviveu aos disparos. No dia 22 de julho, matou Lucas Fábio Pereira da Silva, de apenas 16 anos. Fechou o corpo: usou um colete à prova de balas nas investidas. Não levou nenhum tiro. Nesse momento, Marcelo já respondia a um processo por homicídio, outro por tentativa. Seu primeiro filho, Ariel, tinha só 4 anos quando o pai decidiu vingar Fábio. Há um ano, Talita, a segunda esposa, teve Aquiles Miguel. O menino pouco conhece o pai. Também ainda não está tatuado no corpo dele.

Marcelo foi preso e encaminhado primeiramente ao Complexo Prisional do Curado (antigo Aníbal Bruno). Ali pediu para outro detento tatuar a história de sua vingança contra o grupo que matou Fábio. O dia da tatuagem: “Eu estava inconsciente, drogado. Pedi para o cara fazer o que eu desenhei na minha imaginação”. O motivo das sepulturas: “Teve uns caras lá [em Abreu e Lima] que eu tive que matar e enterrar. Um conhecido me deu uma fazenda pra eu tomar conta, aí eu fiz lá um cemitério clandestino. Matei um bocado de gente, senhora. Enterrei o cara mais perigoso que tinha lá onde eu morava, o Besta Fera, matou mais de 50. Por isso, tem 666 na sepultura”. Sobre a cabeça decapitada, é mais sintético: “Tinha uma cacimba lá na fazenda. Era onde a gente jogava o corpo das pessoas.” Nos vários processos consultados, nenhum relaciona o ex-bailarino e a existência de um cemitério clandestino. Levando seu espantoso cemitério no corpo, o pai de Ariel e Aquiles saiu do Curado e instalou-se na superlotação de Igarassu.

Edeivson Adriano Rodrigues dos Santos, 30, também estava preso no antigo Aníbal quando Marcelo tatuou sua narrativa de sangue em tinta preta. Vindo do bairro de Santo Amaro, ele passou 9 anos no presídio, sendo transferido depois para o semiaberto da Penitenciária Agroindustrial São João, em Itamaracá. Em 2010, fugiu. Foi capturado em setembro de 2011 e levado para Igarassu. Tem quatro tatuagens: uma no braço direito trazendo o nome da avó, Zilda; os nomes dos filhos, Richele e Lucas, na mão direita; um papiro com o nome da ex-esposa, Éricka, nas costas; finalmente, uma mulher nua na panturrilha direita. O desenho, que em um primeiro momento sugere erotismo, identifica indivíduos que usam drogas injetáveis.

Edeivson era um dos comandantes do tráfico no Campo do 11, Santo Amaro, posto conseguido graças ao uso contínuo de seu revólver. “Como estava matando o povo na favela, o negócio terminou na minha mão e na de quem estava do meu lado. Mas do jeito que o diabo dá, ele toma.” O “povo da favela” era basicamente outro grupo (Demônios da Ilha, cuja sigla, DI, é tatuagem constante nos presídios locais) que queria o controle das drogas. Os integrantes foram sendo aos poucos abatidos por Edeivson, que carregava a acusação de 12 homicídios quando foi preso já na primeira vez.

A mulher nua, segundo ele, nasceu de maneira banal: feita em 2002, no Aníbal Bruno, foi sua primeira tattoo. “Tirei o desenho de uma revista”, conta, afastando assim a figura de seu significado nas prisões brasileiras – não é de bom tom entre os presos dizer o que elas simbolizam. No mesmo momento, também tatuou o nome dos filhos, que até então não entendiam o que acontecia com o pai. Em seu corpo, a inscrição mais significativa é o nome em letras garrafais da avó, cujo marido, avô de Edeivson, foi assassinado há décadas. A de Éricka, a ex-mulher, será, diz ele, substituída. A de Zilda, nunca. “Minha mãe me teve com 14, 15 anos. Quem sempre cuidou de mim foi ela mesmo.” Zilda, que está quase cega, chorou quando visitou o neto, que chama de Dedéu, em sua primeira queda. Chorou outras vezes seguidas, quando levou as crianças (Richele tem 9 anos, Lucas tem 10) para visitar o pai. No processo 001.2000.023464-9, no qual ele é acusado de ser o dono da arma que feriu, em uma tentativa de assalto, a vítima Luziane Falcão, Zilda aparece como testemunha de defesa. Não conseguiu livrar o neto da cadeia, e, naquele momento, já estava acostumada ao dia a dia violento de Dedéu, que cometeu seu primeiro latrocínio (assalto seguido de morte) aos 16 anos. Em 2004, soube que ele também estava envolvido na morte da estudante Mariana de Figueiredo Soares, 19, novamente uma tentativa de assalto. Foi apontado como o dono da arma. Em 17 de agosto de 2010 (processo nº 2002.0184.01184), soube que o neto dificilmente retornaria ao lar: o juiz Gildenor Eudócio Pires Júnior assinou a reunificação de cinco penas, todas relativas a infrações do artigo 10 da lei 9.437 (porte ilegal de arma) e do artigo 157 do Código Penal (parágrafo 3, roubo seguido de lesão corporal grave ou morte). Total: quarenta anos, dois meses e sete dias em regime fechado. Há semanas, em uma das visitas, Richele chamou Edeivson em um canto. “Ô papai, o senhor vai passar a sua vida toda na cadeia, é? Não vai se soltar mais não?” Ele decidiu que a menina não deveria mais ir até a prisão. Nunca gostou que ela passasse pela revista. “Quem fez por onde estar aqui fui eu.” Diz que mata a saudade por foto, às vezes por telefone. Ou simplesmente olha para a mão, onde, no dedo mindinho, há um anel dourado em forma de coração.




Fonte: Wilma Melo; Cezinando Paredes (A influência e o significado das tatuagens nos presos no interior das penitenciárias); detentos do presídio de Igarassu e Complexo do Curado

Saudade tatuada é algo comum nos presídios: Aderilson Luiz de Pontes, 44, outro detento do Presídio de Igarassu, pediu para desenhar no seu braço direito, em linhas fininhas, a imagem do irmão, Amaro. No outro braço, uma enorme carpa verde aparece entre rosas e sobre desenhos que remetem a água. Enquanto a primeira tatuagem sugere um coração partido, a segunda, uma das mais encontradas no País dentro ou fora das prisões, sugere coragem, superação e determinação de acordo com a cultura oriental. Mas no Brasil, principalmente dentro das penitenciárias do Sul e Sudeste, ela adquiriu outro significado: marcar aqueles que fazem parte do Primeiro Comando da Capital (PCC). A dispersão do grupo pelo País provocou a popularização da carpa em unidades prisionais de diversas cidades, sendo ela usada tanto por quem mantém relações com o comando quanto por quem, para adquirir algum status, quer parecer que tem.

Condenado a 27 anos de prisão, apenas quatro deles cumpridos, Aderilson diz que o peixe colorido foi parar em seu braço por questões meramente estéticas: suas conexões com a ilegalidade foram fomentadas e estruturadas unicamente em Pernambuco. Na Justiça, está ligado a dois homicídios, um deles correndo em segredo (processo de n° 202-20.2010, Comarca de Olinda). Respondia em liberdade quando foi detido por porte ilegal de arma em 27 de fevereiro de 2006 (revólver da marca Rossi, calibre 38, nº de série 69832, quatro projéteis). Preso em flagrante, foi condenado: era tecnicamente primário, mas a acusação anterior de homicídio levou o juiz a declarar que Aderilson revelava “uma propensão ao cometimento de ilícito”. Quatro anos depois, foi novamente condenado, agora por dois crimes: o homicídio de um adolescente e a tentativa de homicídio de outro. Assim como Aderilson e Amaro, que também foi relacionado ao crime, Otoniel (morto) e Oséias Ferreira da Silva (vivo) eram irmãos. Em 2004, Amaro foi julgado e absolvido. Três anos depois, aos 35 anos, foi assassinado. Aderilson estava preso quando soube da morte do irmão. Desesperou-se: pediu para ir para casa, para ver a mãe, dona Cacilda, para ir ao enterro. Não foi liberado. Até hoje não se conforma: chora, na frente de vários colegas de cadeia, assim que começa a falar sobre a tatuagem. Diz que a mãe também se emocionou quando viu pela primeira vez o filho morto descansando impresso na pele do irmão. Cacilda chorou muito: talvez sentisse ali a mesma dor já experimentada pela mãe de Otoniel.