Foto: Igo Bione/JC Imagem


Jéssica está presa com a mãe, Elisângela, nome tatuado na mão da jovem. Juntas, participaram de um assalto que terminou em morte. Thamyris só conseguiu reunir a família após desenhar as iniciais da mãe e dos irmãos no próprio corpo. Cacau tem nomes de namoradas e salmos para protegê-la do próprio meio, o tráfico. Sofia mata a saudade da filha com uma tatuagem e um casaquinho guardado no dia de sua prisão. Piedad registrou na pele o neto que ainda vai nascer. A reportagem é de Fabiana Moraes, com fotos de Igo Bione


Em nome da mãe


Jéssica, 20 anos, foi a sexta mulher a sentar no sofá onde aconteciam as entrevistas com as detentas tatuadas na Colônia Penal Feminina de Abreu e Lima, a 16 quilômetros do Recife. Sua história destaca-se duas vezes: uma pela característica do crime no qual ela se envolveu, outra por causa da violência familiar da qual foi vítima (embora ela não se perceba como uma). É uma moça morena, alta, magra e traz tatuado na mão direita, em letra tremida, “Elisângela”. Elisângela é a mãe de Jéssica e, como a filha, está presa em Abreu e Lima. Pegou 26 anos de cadeia, cumpriu cinco, foi condenada por latrocínio. A mulher tatuada em letra tremida era uma das mentoras da quadrilha que, em 24 de abril de 2009, invadiu a casa do fazendeiro Paulo de Andrade Santos, em Altinho, Agreste do Estado. Com ela, mais três homens armados, entre eles um adolescente portando uma espingarda.

Acordaram o fazendeiro, que morava só, e passaram a ameaçá-lo. Queriam o dinheiro que estava no cofre. Sabiam da existência dele: no mês anterior, Jéssica, então com 16 anos, havia trabalhado como doméstica para Paulo Santos. Agia em nome da mãe e da companheira dela, Ângela Maria. Mapeou a casa. Mapeou as dinâmicas. Ganhou confiança. Levou outra mulher, também da quadrilha, para trabalhar na residência. Foi esta mulher, Maria de Fátima Bezerra, que abriu a porta para os assaltantes entrarem. O fazendeiro, 74 anos, não resistiu ao bando armado que o ameaçava: sofreu um infarto e morreu no local. Dele, levaram quase R$ 6 mil, um aparelho de som, um de DVD, um revólver e um celular. Jéssica estava no Fiat Uno que o bando usou para fugir. Em troca da morte de Paulo, ela e sua mãe, presa dias após o crime, ficaram com o DVD.

A mais velha de três irmãs, Jéssica ia visitar Elisângela na prisão constantemente. Mudou-se de Altinho para Olinda. Com a mãe, dividia o dinheiro do crack que começou a vender. Voltava de uma das visitas quando a polícia abordou o grupo no qual ela se encontrava: com Jéssica, encontraram sete pedras de crack e um saquinho de pó virado (crack com ácido bórico). Voltou, agora na condição de presa, e não de visitante, para a colônia penal. No início, dividiu a cela com a mãe. Resolveu ali prestar uma homenagem àquela mulher que é responsável por sua presença no mundo e por sua presença na prisão. Tatuou Elisângela. “Ela achou bonito.” Ali, Jéssica também encontrou outros amores, todos agora inscritos com tinta na sua pele: Giselle, Luana, “Rochele, amor eterno”. A primeira tatuou “Jéssica” em seu corpo e assim provou de volta sua amizade. A do meio é namorada de Jéssica há sete meses, vive com ela na prisão. Já o amor eterno por Rochele acabou. Existe somente na pele.

Jéssica não responsabiliza nem a mãe nem o pai (que não vê há 13 anos) por sua condição atual: acredita que sua presença naquele local quente, onde uma das táticas para driblar o tédio é desenhar o corpo usando uma máquina caseira de tatuagem, foi sua escolha. Divide essa perspectiva com colegas como Thamyris Samario Leão, 23, cujo pai e dois irmãos também estão presos, ambos acusados de homicídio. Tinha só 16 anos quando começou a assaltar (foi detida pela primeira vez com essa idade). Roubava, ao lado de Anderson, um dos três irmãos, carros e postos de gasolina. Com a família partida entre a rua e os presídios, diz que era a maneira possível de se sustentar. “O que eu fazia com o dinheiro? Eu comprava comida, água, pagava aluguel.” Foi presa há quase três anos. No processo, consta que ela, o irmão, mais dois rapazes praticaram roleta russa durante assalto a um posto em Parnamirim, no dia 25 de julho de 2009. Uma funcionária nunca mais conseguiu voltar a trabalhar. Foi na cadeia que a jovem reuniu, a sua maneira, quase toda a família: nas costas, tatuou, ao redor de uma coelhinha cor-de-rosa (personagem dos Tiny Toons), um G (de Generalda, tia, falecida); um S (de Socorro, a mãe); um A (de Anderson); e um K (Kell, apelido de um dos irmãos). “Pinha”, o outro irmão que está preso, ainda vai ganhar sua letra no corpo da irmã.

Socorro decepcionou-se: acreditou que Thamyris, a única mulher que pariu, ficaria ao lado dela, afinal era menina, elas geralmente são mais calmas, ficam mais em casa, ainda que a casa seja construída na pobreza da comunidade de Roda de Fogo, nos Torrões. “Ela só fazia chorar quando foi me visitar”, conta a moça, os olhos cheios d’água contrastando com a dureza sugerida pelos piercings e o bermudão de surfe. O câncer levou um seio de Socorro, depois outro. Está bastante doente. “Ficam botando na minha cabeça que ela vai morrer.” Kell, homem, solto, está cuidando dela. “Ele é o único que não é errado.” Thamyris tem um bálsamo, Amanda, o maior nome tatuado em seu corpo. A adolescente tinha apenas 13 anos quando começou a namorar a presidiária. Moraram juntas até Thamyris ser recolhida em Abreu e Lima. Se encontraram novamente há algumas semanas, quando a detenta entrou para o semiaberto e, usando uma tornozeleira que acusava qualquer possibilidade de fuga, passou uma semana em um “quartinho” com a namorada. Amanda conta os dias para a nova vida. Diz que sua mãe, que não aprova a relação, só dá atenção a ela quando Thamyris está solta. Fazem planos: a presidiária aprendeu a costurar na colônia penal e quer seguir em frente com o ofício. A existência de uma perspectiva é a tática cotidiana para dar conta do dia a dia na prisão. “A pior coisa daqui? Não existe a pior. Tudo aqui é pior.”






Ana Cláudia Martins da Silva, Cacau, tem apenas 20 anos e está presa pela quinta vez desde novembro de 2010. Na primeira, aos 15 anos, foram 45 dias encarcerada; na segunda, um ano e dois meses; na terceira, duas semanas; na quarta, 21 dias. Agora, já se vão dois anos e seis meses. Foi o tempo para fazer 12 tatuagens, tanto na rua quanto na prisão: tem duas carpas, um Jesus, tem “mãe, amor eterno”, tem “Vaval”, “Lane” e “Jéssica”, uma fênix na barriga, um pergaminho, duas passagens bíblicas (“Tudo posso naquele que me fortalece”, Filipenses 4:13, e “Mil cairão ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido”, Salmo 91). Ao contrário de Thamyris, atenta a tudo o que se passa ao seu redor, Cacau, a quinta detenta a ser entrevistada na antessala da direção, parece estar alheia ao mundo que a cerca. Sua relação com o crack é íntima e a levou quatro vezes ao confinamento até associá-la – este é o motivo de sua última prisão – a acusação de homicídio. “Eu já tinha fama onde eu morava e aí mataram esse menino”, conta.

O menino era Paulo Henrique de Almeida Silva, morto com três tiros aos 18 anos, em julho de 2010, em Caruaru. Ela afirma que não sabe quem é, nunca viu o rapaz. Apesar disso, seu nome aparece associado ao de Kleiton da Silva Oliveira no processo nº 8463.15.2011.8.17.0480, onde os dois são acusados do crime. Ainda espera a sentença. “Por tráfico, não fui condenada.” Homenageada em uma das maiores tatuagens, Maria Aparecida Martins da Silva, mãe de Cacau, ganhou, como as mães das presas anteriores, maior importância após a filha ter sido encarcerada. “Ela ficou triste, né?”, diz a jovem, que buscou alegrar a mãe com a tatuagem, sem muito sucesso. Maria queria que a filha tivesse sido como as outras (duas casaram, outra estuda), mas, depois da primeira prisão de Cacau, depois de tantas outras idas até a delegacia, se resignou. Sabia que agora dividia a filha com o o crack, dividia também com as amigas/ namoradas/parceiras, com Vaval, uma ex que estava presa também em Abreu e Lima mas foi transferida, com Lane e Jéssica. Ao redor delas, gravitam os outros desenhos, feitos para decorar ou proteger o corpo. “Eu botei Jesus porque tenho fé em Deus, né?” As passagens bíblicas aparecem cumprindo a mesma função: na disputa pela venda das drogas em Caruaru, onde, nos quatro primeiros dias deste mês, seis pessoas foram assassinadas, é preciso apelar para algo divino.

Sofia Lopes (nome fictício), 26, também integrou, ainda que por pouco tempo, a exuberante indústria do tráfico de Caruaru: está presa há um ano e quatro meses. Estava há apenas três na “operação”, como é conhecida sua função na venda a varejo de drogas, quando foi presa junto a mais 18 pessoas. Atendia telefonemas, passava os nomes dos compradores, valores em dinheiro etc. Chegou a receber R$ 5 mil em um dia, um valor bem superior aos máximos R$ 1.500 que conseguia trabalhando como atendente em loja. O dinheiro conseguido com o tráfico até hoje serve para cuidar de Ludymilla, de 3 anos, sua primeira e única filha. “Com o que recebia, reformei a casa, dei a ela tudo o que sempre quis.” A menina está com a mãe de Sofia. Na primeira visita, não quis falar com a mãe – acreditava ter sido abandonada. Sofia tenta amansar a saudade com a tatuagem desenhada no antebraço direito. Está sempre exposta, mesmo quando ela usa a bata da empresa de embalagem, onde trabalha. Também colou, no teto da cela, fotos da menina. Mas o maior bem material guardado é uma calça vermelha, que puxou do corpo da filha quando, às 4h, a polícia chegou a sua casa. “Ela tava no meu braço. Quando pegaram ela, tentei segurar e fiquei com a roupa. Guardei também um casaquinho bege, com uma abelhinha vermelha.” Colega de presídio de Sofia, Piedad Naranjo Torres, 53, tem mais dificuldades para amenizar a saudade. A distância é a maior responsável por sua situação. Foi presa no aeroporto do Recife com pasta-base de cocaína, vinha de São Paulo e seguiria para a Espanha, onde vive. Os netos e os filhos estão em Madri, esperando por ela – os netos e os filhos também estão espalhados, em forma de letras, por seu corpo em uma série de tatuagens feitas ali mesmo na colônia penal. Fala com Miguel Arcanjo (33) e Aranzazu (36) por carta. Recebe deles as fotos de Diego e Sergio, 7 e 4 anos. Eles estão representados também nas estrelas que ela mandou fazer no ombro. São três. “Fiz mais uma para o neto que ainda vai chegar. Meu filho Diego prometeu: espera que eu volte para ser pai.”