Foto: Igo Bione/JC Imagem


Flávio, uma Nossa Senhora no braço, foi preso logo após sair do enterro da mãe - tem a inicial dela nas costas, perto da cabeça, onde repousa um projétil. José Adriano tem o corpo repleto de tatuagens, uma delas com as iniciais JB (João de Barros), marcando a distinção entre sua gangue e a de Santo Amaro (SA), inimigas. Rafael tem várias inscrições, entre elas um palhaço, que tanto identifica assaltantes quanto aqueles que já mataram policiais. A reportagem é de Fabiana Moraes, com fotos de Igo Bione


Com a mãe de Jesus e uma bala na cabeça


Mas pra que vocês vão fazer matéria sobre tatuagem de bandido?”, espanta-se um dos agentes do setor de disciplina, o terceiro a abordar a equipe de repórteres que aguardava a liberação para entrar no presídio Agente Marcelo Francisco de Araújo (Pamfa), no bairro do Sancho. Ao lado das unidades Juiz Antônio Luiz Lins de Barros e Frei Damião de Bozzano, o Pamfa forma o Complexo Prisional do Curado, antigo Aníbal Bruno, onde, em 2011, foi encontrado um significativo porrete com a inscrição “direitos humanos” (justamente na sala da disciplina).

A entrada, previamente agendada com a administração do Pamfa, só foi autorizada após a chegada do gerente do presídio, Artur Henrique de Oliveira, que escolheu ele próprio os três entrevistados desta matéria. Ele ainda solicitou que as conversas acontecessem em sua própria sala – e acompanhou todas. Das quatro unidades prisionais visitadas (Presídio de Igarassu, visto na matéria de ontem e colônias penais femininas de Recife e Abreu e Lima, vistas amanhã e quarta), o Pamfa foi a única a contar com próprio gerente acompanhando as entrevistas com os detentos.

Na sala decorada com uma grande foto do governador Eduardo Campos, quadros de ideogramas japoneses (os mesmos vistos mais tarde tatuados na perna de um detento) e livros como Vigiar e punir, clássico nos estudos sobre sistemas prisionais, escrito pelo francês Michel Foucault, entram os detentos Rafael Pereira Guimarães (21 anos, sete tatuagens, preso por tráfico), Flávio dos Santos Alves (25 anos, quatro tatuagens, preso por tráfico, formação de quadrilha e homicídio) e José Adriano Felix (27 anos, dezenas de tatuagens, preso por furto).

Pouco acostumados a espaços refrigerados e janelas com películas protetoras - uma delas traz um leão dourado acima da frase “o homem é maior que seu erro” -, os três vivem em uma unidade que abriga 1.525 presos em um espaço pensado para 450. O ambiente distintivo, e ainda contando com a presença da autoridade máxima do local, dispara uma espécie de automático na fala dos três, que iniciam ou finalizam a maioria das frases com “doutor” ou “doutora”, os olhos frequentemente desviando para o lado. Flávio é o mais à vontade, talvez por ser o único entre os três a trabalhar naquela unidade, e, portanto, a conviver mais de perto com o poder local. Faz parte dos 120 presos que têm ocupação formal no Pamfa: três dias trabalhados equivalem a menos um dia encarcerado. Saía do enterro da mãe, Maria Rosilene, em junho do ano passado, quando foi preso pela segunda vez. Já era acusado de cometer um homicídio em 2011 e de tentar matar duas pessoas em 2010. No momento da segunda prisão, tinha tatuadas nas costas as iniciais M. F. R, letras que fazem referência às três mulheres mais presentes em sua vida: a primeira é dedicada justamente a Maria, enterrada em Pesqueira; a segunda evoca Fabíola, irmã; a terceira, Roberta, sua esposa, que reclamou do desenho - queria não uma inicial, mas o nome completo.

Essa honra coube somente a Flávio Júnior, de seis anos, que vai aos domingos, acompanhado de Fabíola e Roberta, visitar o pai. O nome do garoto está entre as omoplatas do detento, “um dos líderes do tráfico de drogas da favela do Detran”, segundo a imprensa no momento de sua segunda prisão. Logo abaixo, em letras bíblicas, “Não tenho tudo que amo, mais tenho tudo que tenho” (sic). A frase assume: hoje, tudo o que Flávio tem é aquela família inscrita em letra preta no seu corpo. Foi por causa deles que não tentou fugir do cerco policial após o sepultamento da mãe. Na entrevista que concedeu à TV, ainda na delegacia, uma camisa na cabeça, ele afirmou: “Eu estava bem equipado, dava pra escapar. Mas não ia colocar em risco a vida do meu filho, de minha família, só por causa de mim.” O sentimento sai do corpo e também decora a prisão: mandou imprimir um banner com a imagem do filho, da esposa e da irmã e pendurou na cela. Olha diariamente para eles assim como para a Nossa Senhora grande e colorida tatuada no braço esquerdo (fez na cadeia, há um ano e meio, custou R$ 300, a tinta ele mesmo comprou). Segundo Flávio, há uma conexão entre a Mãe de Jesus e as outras tatuagens: “mandei fazer ela porque minha mãe era evangélica.” É uma explicação que agrada a boa disciplina - existem, porém, outras leituras para a santa que ele leva no corpo: a figura está associada ao preso que ou cometeu latrocínio (assalto seguido de roubo) ou está arrependido pelo crime praticado. Flávio, que tem uma bala encravada na cabeça (“passa a mão aqui, dá pra sentir”), diz que não fez nada de errado. Que é inocente. Que nem o tiro na cabeça, nem o tiro na boca, nem o tiro na perna, foram disparados pela polícia (“se um policial tivesse atirado, ele não estava falando aí”, interrompe, de seu birô, o até então silencioso gerente da prisão). Assim como as tatuagens, as marcas das balas também funcionam como espécies de troféus que denotam a coragem e a macheza dos presos – assim que Flávio mostra as cicatrizes, Adriano e Rafael deixam a timidez de lado e vêm exibir as suas.

O primeiro tem três marcas de tiros, todas nas pernas, desferidas quando tentou escapar da polícia após um assalto mal sucedido. Conta que, fugindo, pulou na maré nas imediações do Pina, onde foi capturado. Confessou o crime, mas nega ter atirado nos policiais, como consta no processo pelo qual foi sentenciado a oito anos e 20 dias de prisão. Pesou o fato de ter sido preso anteriormente: foi considerado dono de “uma personalidade voltada à prática de crimes”. Pesou também ter sido acusado de portar uma arma, que teria sido jogada na água. “Me botaram na maré com um cinto cheio de chumbo para procurar o revólver”, conta, falando muito baixo. Estava respondendo em liberdade quando foi pego novamente: escalava prédios e furtava objetos, principalmente joias de ouro, que vendia por R$ 35 cada grama. Há oito meses está cativo. Da primeira vez, foram três anos e seis meses. Responde por assalto, porte de arma, reação a prisão e quebra de condicional.

Adriano, que não tem nome de pai e mãe em nenhum dos processos, tem o corpo extremamente decorado: um Jesus e um coração no ombro esquerdo, o braço direito tomado por ideogramas, um cachorro bravo, tribais, a marca Seaway, uma carpa, um escorpião, o número 13. Tem uma caveira nas costas, outra na perna, o nome de uma as torcidas do Santa Cruz, Inferno Coral. Na outra perna, um Jesus crucificado. Na mão direita, uma mais discreta: as iniciais J.B., identificando-o como vindo do grupo da João de Barros, onde estão os inimigos daqueles que têm tatuado um S.A., localizando os oriundos de Santo Amaro (outros presos trazem as letras D.I., dos integrantes do grupo Demônios da Ilha). São iniciais comuns no ambiente prisional da Região Metropolitana de Recife e guardam, todas elas, uma curiosidade: se lá fora servem para apartar bandos, lá dentro, nos pavilhões e celas, perdem parte de sua força. “Aqui tá todo mundo preso, tudo na mesma situação”, diz Adriano. A cela, no fim, unifica.

Todas as tatuagens do presidiário foram feitas com máquina caseira, durante o tempo de detenção. A primeira foi o Jesus, que aparece com certa cara de espanto, sobre um coração todo cravejado por facas (“Vixe Maria”, exclama Flávio quando o colega mostra o desenho). Os ideogramas japoneses, bastante comuns nas penitenciárias, significam, segundo Adriano, “paz, Deus, esperança, vitória”. “Dizem o mesmo que aqueles ali, ó”, fala, apontando para os quadros com inscrições japonesas presentes na sala do gerente do Pamfa. O Jesus Cristo, que pode ser visto como uma imagem apaziguadora, é também símbolo para presos homicidas e assaltantes. A caveira (a de Adriano sorri) é vista como um símbolo de periculosidade e serve para dotar o preso de mais “moral” no ambiente prisional, enquanto o escorpião pode ser associado aos integrantes do PCC. “Mas esta eu fiz pra lembrar de tirar o meu veneno”, comenta Adriano, que resigna-se: sabia que ia terminar sendo preso. “Quem entra nisso sabe que não vai só ganhar. Tem que perder também.”



MATAR POLÍCIA – Nenhuma das sete tatuagens de Rafael, tem quem o chame de Galego, foi feita na prisão: costuma visitar o tatuador que fez, coincidentemente, o nome do filho de Flávio Alves. “Ele é conhecido ali pela Caxangá.” Havia começado mais um desenho, o de um mago, quando foi preso pela segunda vez, em 19 de novembro do ano passado. Vendia maconha e crack: estava com 520 gramas quando foi atuado. De acordo com o texto do seu processo, vendia cada papelote por R$ 3. Em dezembro do ano passado, o juiz Evanildo Coelho Filho negou o pedido de liberdade provisória do rapaz, alegando “um alto grau de nocividade a saúde da população, bem como a paz social”. Assim, “ajudado” por uma política nacional de criminalização que não resolve efetivamente a questão do tráfico (ao contrário, se beneficia com ela), Rafael foi encorpar as já superlotadas prisões do País. “Não tenho a conta do número de gente que tem na minha cela.”

Nas duas mãos, escreveu, há quase dois anos, “Jesus Cristo”. Foi para demarcar um momento específico, quando tentou ser evangélico e se afastar do tráfico. Não durou muito tempo. “Saí porque queria vender o negócio de novo, estava sem dinheiro”. Entre o braço e o tórax, tem um enorme dragão. Há ainda uma serpente e uma carpa, esta a primeira a ser tatuada, em 2010. Mas a tatuagem que mais grita ali dentro da prisão é o palhaço visto no braço esquerdo, colorido, segurando um revólver e uma arma nas mãos. Dentro das prisões, a figura extrapola questões regionais: está ligada a assaltantes (no Nordeste) e, em todo País, identifica matadores de policiais. “A polícia não gosta muito dessa aí não”, diz Rafael, evitando olhar para o gerente que continua a acompanhar a entrevista. “Mas foi sem maldade, diga”, brinca Flávio. De fato, nenhum processo liga Rafael a homicídios, o que leva a pensar que aquele palhaço serve principalmente para adquirir mais respeito no presídio. Ao mesmo tempo, o expõe: foi por causa dele que foi encontrado no bairro de Dois Irmãos, enquanto bebia uma cerveja com os amigos. Agora, espera ser julgado, espera voltar para casa e ver Silvana, sua mãe. “Aqui, fico fazendo de tudo para ser normal.” Na saída do o presídio, os repórteres passam por outro preso. Entre as várias tatuagens no braço, destaca-se um palhaço sorridente. É interpelado. Na rápida conversa, ouve: “Você chegou a matar algum policial?”. Sorri e diz baixinho: “Ainda não tive essa essa sorte.”