Foto: Igo Bione/JC Imagem


Dentro das celas, aprendeu a tatuar


"Já tatuei nome de gente que nunca veio aqui visitar o preso que pediu a tatuagem. Fica ele com o nome gravado da pessoa que o abandonou. Ou gente que até veio, mas nunca mais voltou.” Anderson Manoel da Silva, 25, que aguarda há um ano e dois meses o julgamento por uma acusação de assalto, é um dos tatuadores mais procurados do Presídio de Igarassu. Apesar do relativo pouco tempo ali, conhece bem parte da extensa população local: já realizou cerca de 500 tatuagens, novo ofício que aprendeu tanto para ganhar algum dinheiro quanto para passar o tempo entre o pátio e a cela.

Terminou gostando. Escuta as mais variadas histórias: já tatuou uma lágrima no rosto de um rapaz que perdeu um irmão. Tatuou cemitérios parecidos com o de Marcelo. Também teias de aranha, que, na literatura policial, simbolizam integrantes de quadrilhas ou puxadores de carro. Anderson foi detido e encaminhado para a prisão ao lado de seu irmão gêmeo, Alessandro, cativo por conta da mesma acusação. Dizem que não houve nenhum assalto: uma inimizade com um vizinho, policial civil, os levou até ali. “Foi tudo armado. A gente aprontava muito, mas nunca roubou. Ele não gostava de gente e arrumou um jeito de nos prender”, diz Alessandro. Enquanto aguardam, tatuam e são tatuados. O trabalho de Anderson chama atenção: vai contra a tradicional imagem da tatuagem precária, tosca, relacionada aos presídios: carpas, flores, santos, salmos e nomes de times, exemplos dos desenhos mais procurados, são desenhados com cuidado, quase não se diferenciando de trabalhos vistos em estúdios, com máquina profissional. Ele, no entanto, usa a típica máquina feita no interior das prisões: foi montada com um motor de DVD (também serve de rádio de pilha), uma caneta, um bico de isqueiro, arame de caderno e de prendedor de roupa, fita isolante. A tinta é nanquim, mais barata que as usadas profissionalmente. “A gente pede pra trazer de fora.” Escrever um nome custa R$ 30. Se for pequenininho, no pulso, ele faz por R$ 10. As maiores custam R$ 150, as médias, R$ 50. Já chegou a fazer 11 tatuagens em um único dia. No momento da entrevista, o gêmeo Alessandro carregava dois grandes desenhos realizados ali mesmo no presídio, ainda não finalizados: uma carpa em uma perna, rosas na outra. “Sou a cobaia dele”, diz o rapaz, que, como o irmão, trabalha no Atendimento Psicossocial. Anderson, por sua vez, traz tatuado o apelido da filha, Manu, em uma das pernas. O da mãe da garota, Paula, ele não exibe. A relação terminou e agora ele quer apagar o desenho. Ou transformá-lo em outra coisa. Talento para isso, tem – e sabe que tem: quer continuar a ser tatuador depois que conseguir a liberdade. “Vou abrir um negócio para mim. É melhor. Você sabe, ninguém quer empregar ex-presidiário.”

Tatuador há 21 anos, Freddy Albuquerque, 36, dono de um estúdio na Gervásio Pires, Centro do Recife, diz que já recebeu várias pessoas desejando tatuar elementos que são ligados a práticas criminosas, como palhaços (matador de policial ou ladrão), o boneco Chuck (elemento de alta periculosidade), Nossa Senhora (assassino). “Informo que há outras leituras para aquela tatuagem, dou conselhos. Mas o fato é que há uma mudança na simbologia de muitos desenhos. Antes de Hitler, a suástica tinha outro significado, é um símbolo milenar, oriental. É como com a carpa, que, apesar de ser ligada também ao PCC, tem um significado muito bonito”, observa. Para ele, a crescente qualidade das tatuagens feitas nas penitenciárias está relacionada ao maior acesso aos kits (máquina, agulha, biqueira e tinta, custam entre R$ 300 e R$ 400), relativamente comuns nas celas. “Apesar de as tatuagens das prisões apresentarem hoje mais qualidade, há diferenças entre as feitas lá dentro e as feitas lá fora. Para quem é profissional, são mais evidentes.” (F.M.)