Foto: Hélia Scheppa/JC Imagem


Corpo como meio de contestação


Há mais de trinta anos convivendo com o dia a dia da população carcerária pernambucana, Wilma Waldomiro de Melo, fundadora do Serviço Ecumênico de Militância nas Prisões (Sempri), tem mapeadas na própria memória milhares de tatuagens vistas nos detentos: sabe o que elas sugerem, o que berram e o que silenciam. O olhar desprovido de preconceito em relação àqueles que vivem hoje institucionalmente privados de liberdade, ela entende como poucos a dinâmica dos desenhos, observando que as tatuagens ligadas à criminalidade dividem fortemente o espaço no corpo com as inscrições feitas para evocar aqueles que estão lá fora: mães, pais, esposas, filhos, avós. “A representação da família é muito forte, há um reconhecimento da importância da figura materna no pós-prisão. Passa-se a valorizar a mãe, que ultrapassa barreiras para chegar até ali.”

A princípio preocupada com a pauta desta reportagem (temia que a abordagem estigmatizasse ainda mais o presos), Wilma observa que, apesar de ter se popularizado, a tatuagem ainda carrega uma carga negativa, está ligada ao não-civilizado. Nas penitenciárias, essa característica se torna mais forte. “Na prisão, a tatuagem ganha outra relevância, é uma forma de contestação. O detento está encarcerado, não pode sair dali, mas o corpo continua sendo dele”.

Ela também observa o aumento, entre os presos, de tatuagens mais elaboradas, sofisticadas, em detrimento das mais rústicas. “Daqui a algum tempo, elas não vão existir mais. Não há mais espaço para a tatuagem tosca, muito associada ao bandido.” Wilma tem razão: em todas as penitenciárias e colônias visitadas, as inscrições precárias deram lugar a traços mais precisos, sendo quase impossível diferenciar o que era feito dentro das prisões ou nos estúdios profissionais.

“Hoje a relação estética é mais forte, parecida com a nossa, que estamos aqui fora. Todo dia a prisão é reciclada pela sociedade aberta, ela se atualiza diariamente pelos novos custodiados que vão chegando”. O significado das tatuagens também não é único: está relacionado a grupos e tem forte influência regional. A carpa, por exemplo, pode ter inúmeras leituras aqui. “Não temos facções organizadas em nossas prisões, por isso é mais difícil encontrar o peixe realmente relacionado ao PCC. A carpa termina servindo assim mais como desejo de demarcar espaço lá dentro. Em várias regiões, o palhaço é matador de policial, mas aqui ele também é ligado a assalto, furto. Em Pernambuco, o desenho do coringa é que está mais ligado a esse crime.” Estupradores, antes comumente tatuados com uma sereia na perna ou uma pinta no rosto, hoje são marcados com cigarro. “É mais para provocar a dor”, explica Wilma.

Uma tatuagem em especial até hoje marca a coordenadora do Sempri: a imagem do Chuck (do filme O boneco assassino), encontrada com certa facilidade nos presídios. Aqueles que a usam são identificados como assassinos violentos – significado parecido com o “vida loka”, também uma tatuagem comum. “Para mim, o impacto é a pessoa se assumir como assassino. Ao mesmo tempo, às vezes, pior é o preso que não tem nenhuma tatuagem e não se sabe quem ele é.”