Foto: Igo Bione/JC Imagem


Cléo dedicou parte de suas tatuagens a um único homem, que agora duvida amar. Lucinha tem as iniciais de um que há anos não vê, mas que sabe ainda gostar. Alcione tem os filhos e pais tatuados - não quis ofertar sua pele a mais ninguém. A reportagem é de Fabiana Moraes, com fotos de Igo Bione


Amor que às vezes se apaga




"Amar você como te amo jamais ninguém amará. Sem você não tem sentido nenhum pois tu és simplesmente meu tudo! Obrigada por existir e me fazer feliz. Wagner Mariano, eu amo você”. Cléo Silva (nome fictício escolhido pela própria personagem), 23 anos, tem oito tatuagens, três delas dedicadas a um só homem. O texto acima aspeado toma conta de todo seu quadril direito. Wagner também aparece como W nas iniciais do casal, envoltas em dois minúsculos corações vermelhos. Depois, tem seu nome composto novamente impresso, perto de uma borboleta, no tornozelo de Cléo. Wagner é casado com outra mulher e também foi preso no momento em que Cléo foi algemada e encaminhada para a Colônia Penal Feminina do Recife. Foi a primeira vez de ambos. Ao lado deles, Dario Antônio de Oliveira foi igualmente detido. A história animou a pauta dos programas policiais televisivos: uma jovem bonita, dois homens, um homicídio. Logo surgiram termos como “triângulo amoroso”, “loira sensual”, comuns na busca por audiência. “Minha mãe soube pela TV que fui presa.”

Os três foram acusados de matar o taxista José Arimatéia da Silva, que vinha cobrando R$ 2,4 mil a Cléo por conta de um trabalho encomendado por ela. Segundo a polícia, ela acusou José de tê-la estuprado e o atraiu até Cruz de Rebouças, em Igarassu, Grande Recife, onde Wagner e Dario, convencidos de que ela havia sido molestada, esperavam para matá-lo. Cléo é considerada a mentora do crime. Defende-se: diz que José passou um dia por ela e ameaçou: “Faz um plano funerário pra tu e pra tua filha”. Ela é mãe de uma garota de 5 anos e um menino de 8, nenhum dos dois tatuados no seu corpo. No momento da entrevista, as crianças ainda não conheciam o novo e não gentil ambiente onde hoje mora Cléo. “Aqui eu sofro, mas não sofro tanto.” A morte do taxista provocou, já no primeiro mês da prisão, uma reviravolta no coração da detenta: todo o amor impresso no seu corpo começou a ser questionado. “Eu achava que morreria se não estivesse ao lado de Wagner. Aí passou um dia, dois, três. Passou uma semana, passou um mês. E eu estou aqui, viva.” Chamado de “marido” por Cléo, Wagner manda recados, diz que vai procurar um advogado melhor, que vão se livrar da acusação. Enquanto isso, um antigo amor, pai de seus filhos, soube que ela estava presa. Foi visitá-la e se declarou. Ela percebe que ele é uma chance de reencaminhar a vida, de aproximar-se dos filhos (um mora com sua mãe, outro com a mãe do ex). “Mas o problema é que com ele falta alguma coisa.”

A ausência de amor foi algo que ajudou Alcione Verçosa, 38, a se libertar, até certo ponto, de uma antiga relação. Presa enquanto prestava depoimento na Delegacia de Vitória de Santo Antão, um dia antes de seu aniversário, ela passou a gerenciar o comércio de drogas que era mantido por seu companheiro até ele ser confinado no presídio de Limoeiro. “Não vou dizer que sou santa, depois que vi o dinheiro entrando, gostei. Pensava: é só dessa vez. Eu vendia roupas, ganhava só R$ 1 mil por mês. Quando ele caiu, pediu para continuar com o negócio. Eu visitava ele e seguia suas instruções, dava tudo certo. Pude dar a meus filhos o que eles queriam”, conta. Tem seis tatuagens, uma delas no pulso, em forma de coração, com os apelidos de Franciele (20) e Felipe (18). Também tem as iniciais dos pais impressas no corpo (José Carlos e Giselda Maria, ambos mortos). Mas nunca tatuou nome de namorado ou marido nenhum. Deixou de gostar de Antônio, o ex companheiro, mas continuou a levar para ele quase todo o dinheiro da droga que se arriscava vendendo (cerca de R$ 4 mil por semana). Quando disse que ia parar, ele a ameaçou. Fecharam um acordo: terminavam a relação, mas ela ainda precisava mandava dinheiro. Tempos depois, conheceu outro homem e se apaixonou. Pensou em tatuar o nome dele. Antes disso, um homem que vendia droga para seu ex foi assassinado e logo Alcione foi relacionada ao caso. É por isso que está presa, acusada de tráfico e participação no homicídio. Pegou 16 anos de prisão. Diz que foi o ex que a incriminou.

Alcione “tirou espera” (primeiros dias na colônia penal) no mesmo momento de Lúcia Lima, 25, presa por tráfico e assalto (sentença de sete anos e seis meses). No seu corpo, todos os nomes tatuados remetem a grandes amores. O maior, na perna direita, é o da filha Rebeca Lohany, que aparece seguido por um “eu te amo”. A menina tem 5 anos, e há três não convive com a mãe (“a tatuagem me ajuda a lembrar”). O pai de Rebeca foi assassinado quando a menina tinha 1 ano e três meses. Lucinha também tatuou na mão o nome do pai, João, seu maior confidente. É ele quem leva a neta nos dias de visita. Lucinha justifica: “Minha mãe fica muito nervosa.” É filha única, mas não chegou a estabelecer com ela a intimidade que possui com o pai. Foi para ele que falou de Nené, antigo namorado ainda hoje tatuado no braço. Ele aparece ao lado de “Lo”, seu apelido, seguido por estrelinhas. Foi sua primeira tatuagem, desenhada quando tinha só 15 anos, namorava o rapaz, estava em Porto de Galinhas, eram tempos melhores, onde não era possível a ideia de uma cadeia. Há anos não o vê. Não quer tirar a tatuagem. “Eu ainda gosto dele.”