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SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - Há 70 anos tinha início a mais sangrenta das batalhas do conflito, crucial para a derrota dos nazistas








Elias Roma Neto

eroma@jc.com.br


Foi na Batalha de Stalingrado, na Rússia, que o resultado da Segunda Guerra Mundial, como o conhecemos, começou a ser desenhado. Na cidade, milhões de pessoas perderam a vida em um dos embates mais sangrentos da história. O sacrifício das tropas e dos civis soviéticos garantiu a mais decisiva derrota do Eixo, em um confronto que teve início em 17 de julho de 1942. Um revés que pôs fim ao mito da invencibilidade alemã e trouxe a confiança necessária para o triunfo final das forças aliadas (Estados Unidos, União Soviética, França e Reino Unido) em 1945. A batalha vencida pelo Exército Vermelho completa 70 anos na próxima terça-feira.

Ao longo dos anos, pesquisadores tiveram dificuldade em estabelecer a quantidade de baixas em Stalingrado (que hoje se chama Volgogrado, no sul da Rússia) - a URSS evitou contagens para evitar cifras assustadoras. Ainda assim, aproximadamente 1,2 milhão de soviéticos e cerca de 800 mil integrantes do Eixo (entre alemães, italianos, romenos e húngaros) pereceram ou foram dados como desaparecidos durante sete meses de combate.

Antes da batalha, os nazistas lançaram uma ofensiva arrasadora dentro da Rússia, na Operação Barbarossa. Seus alvos principais eram Leningrado e Stalingrado (economicamente) e a capital Moscou (politicamente). "Eles tinham o 6o Exército, agrupamento militar mais bem treinado e equipado do mundo. Havia também o 1o e o 4o Exércitos de tanques Panzer. Era uma força extraordinária, que fez um grande estrago na invasão", afirma Luís Manuel Domingues, professor de história contemporânea da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Apesar das vitórias, os alemães não subjugaram a resistencia de Moscou. "Pensaram que poderiam dobrar os ex-aliados. Sem Leningrado e Moscou, voltaram as forças para Stalingrado", diz o historiador Estevão de Rezende Martins, da Universidade de Brasília (UnB).

Liderado pelos fortes bombardeios dos aviões da Luftwaffe e dos Panzers, os alemães invadiram a cidade na Operação Azul. O líder soviético Josef Stalin ordenou que os civis não saíssem de Stalingrado e que seus comandantes não recuassem. O lema era: "Nenhum passo para trás". Depois de resistir a custa de milhares de mortes, o Exército Vermelho lançou uma contraofensiva chamada Operação Uranus, em novembro.

Tres fatores contribuíram para a derrota alemã em Stalingrado: o inverno russo, os erros estratégicos de Hitler em sua insistencia cega de conquistar a cidade e a perseverança russa. Em termos militares, os soviéticos usaram tudo isso para consolidar a vitória em fevereiro de 1943. Depois, a frente oriental soviética e o ataque da força aliada liderado pelos Estados Unidos, a partir da Normandia, levaram a reconquista da Europa e a derrota alemã em maio de 1945.

"Foi a primeira vez que eles sofreram uma derrota estrondosa. O mito que estava sendo difundido caiu por terra, quebrando o moral dos alemães", declara Martins. "Ali houve a principal virada na guerra. Foi um choque contra a Alemanha, repercutindo no mundo inteiro", acrescentou Domingues.

CONQUISTA DA CIDADE VALIA MAIS DO QUE A HONRA - É comum escutar que a conquista de Stalingrado era uma questão de honra por parte de Hitler e Stalin. Um dos motivos seria o nome da cidade, em homenagem ao líder soviético. Apesar de isso ter sido usado como propaganda de guerra para incentivar os combatentes, os comandantes sabiam o verdadeiro valor estratégico da cidade, caminho para chegar ao Cáucaso - região da Europa oriental e da Ásia ocidental, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, rica em petróleo.


Documentário Stalingrado: a cidade que desafiou Hitler, produzido pela Combar filmes.

"Stalingrado ficava no caminho para chegar a região petrolífera do Cáucaso. Para entrar nessa região estratégica, era preciso passar pela cidade, entrando para a parte asiática da Rússia. Este era um dos pontos principais. Além disso, a cidade se destacava industrialmente, com fábricas para a produção de tanques e equipamentos bélicos", destaca Suzana Cavani Rosas, professora de história contemporânea da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O professor Luís Manuel, da Unicap, concorda. "Existia uma vasta área de recursos minerais e agrícolas, não só na Ucrânia, mas na região do Cáucaso, rica em petróleo. Controlar o Rio Volga (que corta a Rússia) era importante, porque dava acesso aos campos de magnésio, alumínio e estanho, além das vias de acesso de ferrovias e estradas."

Segundo ele, a passagem por Stalingrado garantiria recursos importantes para a Alemanha manter-se forte do decorrer da Segunda Guerra Mundial. "O Eixo era carente de recursos energéticos e minerais. Era vital que a Alemanha pudesse ter um prolongamento da guerra. Para a Rússia, valia manter o domínio e a conquista da região", diz Luís Manuel.

A vitória em Stalingrado e a consequente virada soviética - culminando com a invasão de Berlim em 1945 - fortaleceu internamente a União Soviética, principalmente as ideias marxistas de socialismo e comunismo. No entanto, a nação vermelha só se restabeleceria economicamente cerca de 30 anos depois.

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