O Santa quase virou caldo

Por Wladmir Paulino
Do NE10

Bem antes de Antônio Luís Neto encontrar o clube à beira de um precipício em 2011, o Santa Cruz já correu um sério risco de fechar as portas. Curiosamente, isso aconteceu no mesmo 1914 que viu a agremiação nascer sob as cores preta e branca no pátio da Igreja de Santa Cruz, por volta das 19h do dia 3 de fevereiro, no bairro da Boa Vista, região central do Recife. Na época, as máquinas elétricas de caldo de cana eram sucesso na Rua da Aurora e, numa das reuniões de diretoria, um dos fundadores, que a história felizmente não eternizou, queria usar os parcos recursos do caixa para adquirir a tal engenhoca. Alexandre Carvalho, o mesmo que profetizou a eternidade do Santa, deu um murro na mesa e vetou a negociação. Se essa pancada não tivesse ressoado na sala, provavelmente o Mais Querido teria virado caldo...

O dinheiro nesse dia contava apenas seis mil réis. Para se ter uma ideia, era um valor abaixo dos 8.500 pagos pelos meninos, na época com idades entre 14 e 16 anos, para comprar a primeira e única bola. Além do pouco dinheiro, os garotos chocaram uma sociedade que ainda respirava fortes ares do ranço ruralista e escravocrata, ao alinhar em seu grupo um negro. E mais do que qualquer um, esse rapaz, batizado Teófilo Batista de Carvalho e popularizado Lacraia, cravou para sempre seu nome na história.

Foto: Blog #onordestemerece

Lacraia foi o primeiro negro a atuar por um clube pernambucano. Chegou a ser capitão e técnico do Santa Cruz ao mesmo tempo. Depois desenhou o escudo do clube e sua sugestão pelas cores preta e branca foi plenamente aceita. Essa união simbolizava a pluralidade que o clube simbolizaria. Estava aberto a ricos e pobres, negros e brancos, católicos e protestantes, diferente dos 'mais velhos' América, Náutico e Sport, cujos núcelos eram formados por integrantes de uma classe mais abastada.

Essa popularidade também derivava do carisma dos fundadores. Como o nome Santa Cruz Foot-Ball Club - na época, a grafia inglesa predominava no futebol - ainda não pegara, as pessoas se mobilizavam para ver o 'Time dos Meninos', uma referência aos rostos ainda imberbes. Claro que os resultados também ajudavam. O primeiro jogo, por exemplo, foi diante do Rio Negro, também do Recife, ainda em 1914. Apesar de jogar apenas nas ruas de chão batido, os atletas não estranharam a campina do Derby e sapecaram um 7x0. Waldemar Monteiro; Abelardo Costa e Humberto Barreto; Raimundo Diniz, Osvaldo Ramos e José Bonfim; Quintino Miranda, Sílvio Machado, José Vieira, Augusto Ramos e Osvaldo Ferreira foi a primeira escalação. Coube a Sílvio Machado a honra de marcar o primeiro gol do clube recém-nascido.

Igreja de Santa Cruz na Boa Vista - Foto: Geraldo Guimarães (04-07-94)

Indignado com a derrota, o Rio Negro pediu revanche, mas em novo local. A partida seria na Rua São Borja, sua casa. E ainda houve outra exigência: o já citado Sílvio Machado não poderia jogar. É que, além do primeiro gol, ele anotara outros quatro no primeiro confronto. As condições foram aceitas e Carlindo jogou no lugar de Machado. Ao fim do segundo encontro, o adversário teve que arrumar uma sacola maior: Santa Cruz 9x0. O mais irônico é que o goleador foi Carlindo, tendo marcado seis vezes.

Quando o então alvinegro contava com apenas um ano de vida, foi organizado o primeiro Campeonato Pernambucano de Futebol. Lá estavam os garotos dando trabalho aos mais velhos. A primeira fase terminaria com três times empatados no primeiro lugar: Flamengo, Torre e, claro, o Santa. Um triangular foi organizado para definir o campeão e deu Flamengo, deixando o Santa em segundo.

Bairro da Boa Vista - Largo do Santa Cruz -Foto: Alex Regis (19-09-2001)

Esse mesma agremiação voltaria a derrotar o Santa Cruz em 1917, mas num sorteio. A Liga Sportiva Pernambucana, avó da atual Federação Pernambucana de Futebol, vetou a participação de dois times com as mesmas cores. Deu Flamengo, que ficou com o perto e o branco. O Santa acrescentou o vermelho, cor que daria a definitiva 'cara' ao clube e sob essa tríade não veria mais o Flamengo levar vantagem. O primeiro campeão pernambucano nunca mais repetiria o feito e disputaria seu último estadual em 1949.

Já o Santa... aguardem o que vem a partir do próximo parágrafo.

Com as três cores, o Santa Cruz ganhou um escudo. O onipresente Lacraia utilizou-se de uma âncora, adicionou novos contornos, acomodou as letras SCFC e chegou ao modelo que sofreu algumas alterações ao longo do tempo, mas cuja ideia original está lá cravada. As três cores também foram associada à cobra coral, réptil adotado como mascote. Com jogadores formados na terra, o agora tricolor mostrava que suas glórias estariam ligadas às divisões de base, embora isso nem existisse na época.

BATENDO O BOTAFOGO - O clube não tinha grandes condições financeiras, sustentado pelo esforço de seus simpatizantes. Muitas vezes seus jogadores amadores deparavam-se com adversários já profissionalizados, embora esse profissionalismo ainda não fosse reconhecido no papel e tampouco tolerado pela Liga Pernambucana. Mas alguns feitos formaram um trailer do que se veria poucos anos depois e se prolongaria por mais nove décadas. No Pernambucano de 1917, o time perdia para o América por 5x1. Em 15 minutos, marcou seis gols, cravando a mais fantástica virada do futebol estadual. Apenas dois anos depois, tornou-se o primeiro time local a vencer um grande do Rio de Janeiro. O Botafogo veio a Pernambuco para uma série de amistosos e caiu diante do Santa por 3x2 no dia 31 de janeiro. Outra lenda do clube se formava: o atacante Tiano, apelido do médico e ex-senador Mariano Fernandes.

Foto: Arquivo

Foram 15 anos pelejando, tendo batido na trave com sete vices-campeonatos. Até que chegou o 13 de dezembro de 1931. Walfrido e Estevam marcaram os gols da vitória por 2x0 sobre o Torre e estava declarado o fim do jejum. E de forma categórica: o Santa Cruz ganhou com uma rodada de antecipação e uma campanha quase perfeita. Foram dez jogos com oito vitórias, um empate e uma mísera derrota - essa na última rodada, para o Náutico, quando as favas já estavam contadas. O time marcou 41 gols, média de 4,1 por jogo e tomou apenas nove. O time base: Dada, Sherlock e Fernando, Zezé Fernandes, Julinho Fernandes e Doía, Walfrido, Aloysio, Tará, Lauro e Estevam. O gosto foi tão bom que a dose seria repetida nos dois anos seguintes e em 1935.

A década de 1940 não arrefeceu o fogo dos tricolores e, logo no primeiro ano foi campeão, repetindo o feito estadual em 1946 e 1947. Depois, amargaria mais um incômodo jejum, que chegaria a dez anos e, com requintes de sofrimento, só estaria definitivamente encerrado no ano seguinte. O Pernambucano de 1957 começou em julho e a disputa seria em três turnos. O primeiro teve como vencedor o Santa. O Náutico venceu o segundo e o Sport, o terceiro. Um quarto turno ou supercampeonato com o trio de de ferro decidiria o campeão. Na primeira rodada, alvirrubros e rubro-negros ficaram no 1x1. O Santa venceu os timbus por 3x1 e foi decidir o título na Ilha do Retiro - local escolhido através de sorteio. Os visitantes abriram 3x0. A reação dos donos da casa veio mas não foi suficiente para impedir a vitória por 3x2 e a confirmação do primeiro super tricolor.




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