ROBÔS E INDÚSTRIA EM PERNAMBUCO

Estado vive expectativa de despontar na robótica assim como o Porto Digital fez com a T.I. Mas ainda há muito a ser feito

Nos últimos dez anos, Pernambuco surpreendeu com um crescimento em Tecnologia da Informação (TI) que colocou o Estado no mapa internacional da inovação em tecnologia. Voltemos um pouco ao passado para imaginar a cidade ainda sem um polo tecnológico, o Porto Digital. Era final dos anos 1990 e o Bairro do Recife ainda vivia um momento de degradação que contrastava com o período de riqueza e cosmopolitismo daquela região portuária, famosa pelos armazéns, mas também pela chegada de embarcações europeias que faziam a ponta das tendências vindas do exterior. Foi graças à união da Academia, Governo e empresários que foi possível a re-significação do lugar, passando a abrigar hoje mais de 200 empresas que faturaram no ano passado mais de R$ 1 bilhão.

O setor de robótica, que cresce em todo o Brasil, vive um momento particularmente promissor no Recife, com a chegada de investimentos no complexo industrial de Suape, no litoral Sul, e também em Goiana, ao Norte do Recife. Nos centros de pesquisa, o Estado vem revelando soluções, que servem aos polos médico e energético, entre outros setores. A expectativa é de que o crescimento seja tão promissor quanto foi o Porto Digital, mas em um espaço menor de tempo.

O Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) tem uma história que se confunde com o crescimento da TI no Estado. E o mesmo instituto, que faz parte do Porto Digital, também está envolvido na ascensão da robótica em Pernambuco. Criado em 1996, o Cesar desenvolve soluções para empresas de diversos setores, como telecomunicações, eletroeletrônicos, automação comercial, energia, saúde e agronegócios. Em sua sede no Recife Antigo, mantém laboratórios de onde são pensados desde softwares até uma célula de energia limpa. “Pernambuco está muito bem em relação ao Brasil”, diz o engenheiro de sistemas do Centro e um dos responsáveis pela área de robótica, Henrique Foresti. “Temos estudos de robótica dentro da engenharia mecânica na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mecatrônica na Universidade de Pernambuco (UPE), além do Senai, que forma diversos profissionais para a indústria”, explicou.

Projeto e Construção da fábrica da Fiat em Goiana-PE | Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Natural de Varginha, em Minas Gerais, Foresti ainda faz parte do RoboLivre, uma plataforma colaborativa criada em 2005 para mostrar que a robótica está disponível para qualquer pessoa. No Cesar, ele está envolvido em diversos projetos, além de cuidar das bem sucedidas iniciativas já feitas para diversos clientes, tanto do Governo do Estado quanto da iniciativa privada.

Um dos mais recentes é um veículo aéreo não-tripulado criado para a Chesf, feito em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). O objetivo é auxiliar na tarefa de inspeção de uma maneira mais segura e precisa com o uso de um sistema embarcado, controlado remotamente e com autonomia de voo. O objeto - um Vant (Veículo Aéreo Não-Tripulado ) - está em fase de pós-desenvolvimento e deve seguir para a chamada “cabeça de série”, que é quando se produz uma pequena escala do protótipo antes de iniciar uma montagem em massa. Ainda serão necessárias melhorias no sistema de estabilização e controle. Para produzir o veículo, foram usados sistemas disponíveis no mercado, como o norte-americano Rotomotion, que foi adaptado aos hardware e software feitos localmente. O Cesar também esteve envolvido em um projeto em parceria com o polo médico pernambucano, criando uma cama cirúrgica que usa um robô para posicionar uma câmera de raio-X de maneira automática.


» É PRECISO ROBÔS MAIORES

Pernambuco cresce no desenvolvimento de projetos em robótica, mas ainda está distante de dominar tecnologias mais avançadas na área. E isso é um problema nacional, como explica Foresti, mas o Estado tem a oportunidade ideal para explorar algo mais audacioso por causa da chegada de investimentos em grandes complexos industriais. “Os robozões, que trabalham na linha de montagens, estão em fábricas como a Comal, Chespro, mas todas desenvolvem esses robôs. Elas não têm polo de desenvolvimento aqui e fazem todo a pesquisa e desenvolvimento fora do País”, explica o engenheiro. Só a Comal, que faz parte do Grupo Fiat, vai instalar em Goiana 900 robôs topo de linha. “Estamos atrasados nisso. Precisamos desenvolver com precisão e sofisticação maior”.

O mais comum hoje no Brasil é o desenvolvimento de protótipos voltados para a inspeção, mas existem diversos projetos que apontam para um avanço. A Universidade de São Paulo está criando um centro de robótica em São Carlos, no Interior do Estado, o primeiro do País, que deverá ficar pronto em dois anos. Entre as pesquisas, estão a rehabilitação de membros superiores e inferiores para portadores de deficiência e a produção do Carina, o carro autônomo que já começou os testes nas ruas. O centro também deverá contribuir para gerar os robôs que subsitituirão os importados presentes hoje nas fábricas.

O setor ainda vive entraves burocráticos para obtenção de recursos, como notou o professor Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) João Paulo Cerquinho Cajueiro. Segundo ele, o caso específico de Pernambuco tem mais a ver com a criação de mão de obra especializada, mentes criativas que deverão comandar o Estado em um possível destaque no cenário nacional. “Falta volume de trabalhos, mas estamos caminhando bem”, disse durante a Campus Party deste ano, que deu atenção especial ao desenvolvimento da robótica no Brasil. O secretário de Educação do Estado, Ricardo Dantas Oliveira, afirmou que a esfera pública já percebeu essa demanda do mercado e está trabalhando para incentivar alunos a seguir carreiras na área. “Hoje a robótica é estratégica para Pernambuco. Nossa intenção é incluir o assunto nas disciplinas de matemática e física em 100% da rede até 2017”, reforçou Dantas.

Campus Party - Robótica. (Fotos: MundoBit / Do NE10)


» PARQTEL VIVE BOM MOMENTO

O Parque Tecnológico de Eletroeletrônico de Pernambuco (ParqTel) localiza-se no Curado, Zona Oeste do Recife. Sempre foi tido como essencial para o desenvolvimento do Estado desde sua criação em 1999, no final do segundo governo de Miguel Arraes. Nos últimos anos, apesar do bom desempenho das empresas integrantes, estava escanteado em relação ao complexo industrial-portuário de Suape e ao Porto Digital. Agora parece que irá deslanchar dentro de um panorama do crescimento da robótica em Pernambuco.

Ainda em maio do ano passado, o governador Eduardo Campos inaugurou a nova sede do parque, com laboratórios de design, eletroeletrônica, salas de reunião, auditório e novos equipamentos. O investimento foi de R$ 12,9 milhões, com recursos da Secretaria Estadual dde Ciência e Tecnologia (Sectec) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Apesar do alarde, o espaço ainda hoje não está em seu pleno funcionamento, como anunciado. Um exemplo é a incubadora de empresas, prometida por Campos, mas ainda não inaugurada. Em resumo, o espaço seria usado para melhorar a relação entre academia e setores da cadeia produtiva.

Em dezembro deste ano, o Estado conseguiu captar mais R$ 14,9 milhões junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O valor será investido no Parqtel e no Porto Digital. O montante do Parqtel foi de R$ 3,7 milhões, para a consolidação definitiva do parque, que segue como promessa da área de hardware há quase 15 anos. O investimento, segundo o governo, permitirá a instalação da incubadora, um laboratório de microfabricação e nanoeletrônica, além de eventos técnico-científicos. Há ainda a expectativa da construção da primeira fábrica de semicondutores de Pernambuco, que irá fabricar equipamentos usados na extração de petróleo da camada pré-sal.

Parqtel | Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Na visita ao Parqtel, o espaço está longe da efervescência de um polo tecnológico. A área abriga grandes empresas de muros altos e difícil acesso. Muitas das ruas estão sem calçamento, o que dificulta o tráfego, sobretudo em tempos de chuva. É um ambiente bem diferente do Porto Digital, localizado em Santo Amaro e no Bairro do Recife, cuja estrutura acabou ajudando na valorização do Recife Antigo nos últimos anos. Atualmente, o Parqtel possui sete empresas em atividade, com um movimento de cerca de R$ 160 milhões. Segundo a direção do lugar, a meta é chegar a R$ 200 milhões até 2015. “O Porto já tem o setor de software altamente qualificado. Queremos que isso também aconteça com o Parqtel. Estamos apostando no crescimento e esperamos chegar ao final deste ano com um ótimo balanço de atividades. Além disso, queremos expandir para a área de biotecnologia também”, disse o secretário de Ciência e Tecnologia, Marcelino Granja.

O País tem hoje 74 parques tecnológicos, sendo 25 em operação. Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Amprotec), esses parques abrigam 520 empresas que movimentaram em 2012 R$ 1,68 bilhão em negócios e exportaram R$ 116 milhões.

ROBÔS DO CURADO

O Segundo o presidente do Parqtel, Sergio Fonseca, o crescimento do local passa pela inovação em robótica. “Para que a gente consiga produzir em larga escala, temos que ter aplicação de robótica, seja na embalagem, nos testes, enfim, em todo o processo produtivo”. Fonseca é dono da Tron, a primeira empresa a se instalar no parque. “Um dos nossos problemas é que a maior parte dos equipamentos necessários para essa automação ainda é produzida fora do País”, explica.

Agora, com os investimentos alcançados, Fonseca acredita que os próximos anos serão mais produtivos para a área de automação industrial em Pernambuco. “Não deixamos nada a desejar em relação ao panorama brasileiro. O governador vem investindo em inovação, o que deverá nos dar competitividade no mercado nacional e internacional”. O principal desafio do Parqtel atualmente é atrair mais empresas e organizar eventos para que estudantes de robótica tenham conhecimento da produção do polo. Entre as inovações que saíram de lá, estão as bicicletas usadas em sistemas de aluguel em cidades como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, criadas pela Serttel e os mini PCs da Elcoma, entre outros. Se hoje as promessas se tornaram um dos principais ativos, o polo tem agora a chance de se tornar, enfim, protagonista da própria história.