OS ROBÔS NA ESCOLA

Mais do que render prêmios inéditos para a educação de Pernambuco, a robótica forma futuros profissionais para uma área estratégica do desenvolvimento do Estado

Nunca se falou tanto em robôs em Pernambuco quanto nos últimos cinco anos. E os maiores responsáveis por isso são crianças entre 8 e 15 do ensino fundamental que impulsionaram o interesse na área com as frequentes vitórias em campeonatos nacionais e internacionais de robótica.

Em maio deste ano, um robô pernambucano desbancou 33 outros de 53 países e venceu o Campeonato Internacional de Robótica, realizado em Paderbord, Alemanha. Os estudantes são da equipe Apoiobot, formada por alunos do ensino fundamental do Colégio Apoio, localizado em Casa Amarela, Zona Norte do Recife. O tema este ano - Senior Solutions - teve como objetivo utilizar o conhecimento de automação e robótica para proporcionar mais qualidade de vida à população de idosos. A equipe foi avaliada em três categorias - projeto de pesquisa, core values e desafio do robô - e conquistou o primeiro lugar em todas.

No projeto, os dez alunos precisaram apresentar uma base teórica muito bem fundamentada. Na segunda categoria, demonstraram os valores, como união da equipe, respeito aos outros competidores e interesse genuíno no bem-estar dos mais velhos, que é maior do que a gana em apenas levar o troféu para casa. Por fim, no desafio, o robô executou todos os movimentos previstos no menor tempo que os demais concorrentes.

Colégio Apoio | Foto: Divulgação

Foi no meio da tarde de uma dia de semana quando os alunos do Colégio Apoio apresentaram à reportagem a mesma performance mostrada na Alemanha - ou perto disso. Acompanhados da professora e coordenadora de robótica da escola, Vanuska Almeida, os meninos e meninas mostraram alguns feitos do robô Sucrilho. Montado com peças Lego, ele realiza ações que podem ajudar os idosos, como desligar a boca do fogão esquecida ligada, levantar uma cadeira, entre outras coisas do dia a dia. “Foi um desafio apresentar nosso robô para uma plateia com pessoas de vários países, mas ficamos tranquilos porque treinamos e estudamos muito”, disse Nilo Fam, 12 anos.

Sucrilho é o orgulho da turma. Ao chegar à escola, os alunos o tiraram da inércia para mais um show de demonstração de suas habilidades. Montado pelos alunos com ajuda dos professores, o robô tem cerca de 30 centímetros de altura, corpo de plástico e cores branca, azul e vermelho. Lembra um brinquedo high-tech, mas com aquele jeitão austero de robôs trabalhadores clássicos.

A equipe também levou à Alemanha outro robô, o Lampião. Apresentado no desafio do projeto de pesquisa, ele é um robô verde, de cerca de 1 metro de altura, com um tablet no peito. Lampião conta com um aplicativo para Android criado pelos alunos chamado Virgulino, no qual é possível controlar os horários dos remédios, levar comida na mesa e até orientar a prática de exercícios. Depois da Alemanha, Lampião foi levado para um lar de repouso em Casa Forte, no Recife, onde virou atração entre os moradores de lá. Hoje ele passa por reforma para poder participar de outros eventos.


» PESQUISA AINDA NO ENSINO BÁSICO

O Colégio Apoio se destaca desde 2006 em campeonatos regionais e internacionais. Para seguir com os bons resultados, passou a contar com uma consultoria nos últimos anos visando a impulsionar a área entre alunos de quinta a oitava série do ensino fundamental. Conseguiu bolsas do CNPq que, em geral, são voltadas para as pesquisas acadêmicas e já prestou consultoria para ações do Governo Pernambucano na área.

“O maior prêmio para nós é incentivar nos alunos o desejo pela pesquisa”, diz Terezinha Cysneiros, diretora do colégio, cercada de quadros com certificado de vitórias em premiações. “Investimos bastante em tecnologia, não só na robótica, mas em todas as disciplinas. Quebramos há dez anos a ideia de que os alunos não podem trazer smartphones e eletrônicos para a sala de aula. Incentivamos os aparelhos e orientamos o seu melhor uso”, afirma.

Outra escola que vem se destacando em Pernambuco fica em Olinda, na Região Metropolitana do Recife. O colégio Santa Emília, no bairro de Jardim Atlântico, conquistou dois títulos no Mundial de Futebol de Robôs, a Robocup, que aconteceu em Eindhoven, na Holanda, em julho deste ano. A equipe Positronics foi campeã na categoria “Dance” e “Soccer”, nessa última com o melhor trabalho em equipe. O robô do grupo tem cerca de meio metro de altura e é um magrão bom de bola. A reportagem o conheceu no laboratório da escola, ainda sem os apetrechos que fazem parte de seu corpo e parcialmente desmontado. Assim como Lampião, ele também passa por um período de folga para encarar novos desafios.

O Robocup reuniu mais de cinco mil estudantes de diversos países. O intuito do evento é incentivar a robótica, a inteligência artificial e também o desenvolvimento de robôs cada vez mais desenvoltos, já que eles precisam, literalmente, dançar e realizar atividades como atravessar obstáculos.

Em 2012, a mesma equipe olindense venceu a 1ª Olimpíada Brasileira de Robótica, em Fortaleza (CE), com um robô de resgate. “Quando terminamos um desses campeonatos, já nos preparamos para uma nova etapa, desmontando e montando novamente os robôs”, explica o professor Paulo Marcelo Pontes, coordenador da equipe de robótica do Santa Emília.

O colégio criou um bem equipado laboratório para treinamento e pesquisa. Possui até mesmo uma réplica do tablado padrão usado nos eventos, com as rampas e trajetos. O investimento não é barato. “Todas as peças que compramos são importadas, como os chips para criação do robô e outros periféricos”.

A equipe do Santa Emília está sempre se renovando, explica Paulo Marcelo. “O número de jovens que fazem parte varia bastante. Estamos sempre incentivando que novos alunos façam parte. Com as competições, o interesse vem aumentando.” No último campeonato brasileiro, a delegação enviada foi de 13 alunos.

Colégio Santa Emilia | Foto: Divulgação


» O ROBÔ QUE EU SONHO

Um dia antes de nossa visita, crianças e adolescentes de até 16 anos competiram na etapa pernambucana da Olímpiada Brasileira de Robótica deste ano, que aconteceu na Secretaria de Educação de Pernambuco, na Várzea, Zona Oeste do Recife. Sessenta e cinco equipes de escolas públicas e privadas de todo o Estado estiveram presentes. Getepe, Colégio Santa Emília, Colégio Santa Maria e Escola Escritor José de Alencar foram os vencedores. Mas outras se destacaram, como a Escola de Referência de Ensino Médio Doutor Anthenor Guimarães, de Barreiros, Zona da Mata Sul, a 102 km do Recife. A instituição foi destruída nas enchentes que afetaram a região em 2010 e até hoje ainda não foi totalmente reconstruída. Os alunos tiveram que improvisar um laboratório para construir os robôs para a disputa, e a biblioteca da escola se encheu de aparelhos e equipamentos eletrônicos em meio aos livros.

Além dos desejos que permeiam toda competição, os alunos também são motivados por algo além da competitividade. No caso dos meninos de Anthenor Guimarães, robôs poderiam ser desenvolvidos para resgatar vítimas de enchentes no Estado. No Colégio Apoio, há mesmo um interesse em trazer mais dignidade para a vida dos idosos. “O maior mérito desses eventos é incentivar um interesse científico nos alunos. Muitos deles terão vantagem competitiva caso decidam seguir carreiras como engenharias ou computação”, explica Marcelo Pontes, coordenador de robótica do Santa Emilia.

O gosto por robótica, porém, costuma envolver jovens com perfis bem diferentes. Da Positronics, nem todos decidirão por uma carreira voltada para exatas - há interesse, por exemplo, em direito. “A empolgação desses meninos é o que importa”, disse Cristina Tavares, diretora pedagógica do Santa Emília.

“Eles também ficam orgulhosos de representar o Estado nesses campeonatos. Pernambuco tem hoje um histórico muito bom em torneios de robótica, o que vem fazendo do Estado uma referência no assunto no Brasil. Ficamos felizes e orgulhosos de coordenar a etapa regional”, disse Emerson Mendes, diretor para Pernambuco e Ceará da Lego Zoom, empresa que desenvolve inovação para aprendizado e distribui alguns dos kits robóticos usados para montar os robôs.


» ROBÔ FEITO À MÃO

Os robôs construídos pelos alunos das escolas de Pernambuco utilizam um dos mais populares chips para criação dessas máquinas, o Arduíno. Feita em código aberto, a plataforma vem se tornando cada vez mais popular no mundo todo, democratizando o acesso à robótica para o usuário comum.

O Arduino é usado para a criação de objetos interativos e também como parte de um computador hospedeiro. Ele vem, em geral, com uma entrada USB ou interface serial, que o interliga ao hospedeiro. Seu nascimento estava diretamente ligado ao desejo de fazer com que estudantes pudessem desenvolver trabalhos de robótica a custo baixo. Foi criado na Itália em 2005 e hoje está disponível em diversos modelos.

Colégio Santa Emilia | Foto: Divulgação

Os estudantes de robótica das escolas visitadas pela reportagem constroem seus robôs em parceria com professores. Todos são feitos à mão no ambiente escolar, sem contar com qualquer estrutura industrial. A parte da montagem também faz parte do aprendizado, além de integrar melhor a equipe que irá competir.

Para fazer parte, os alunos precisam ter afinidade com matérias da área de exatas, como matemática, mas pessoas criativas, com gosto por disciplinas de humanas, também são bem-vindas.






» OS ROBÔS NA ESCOLA

PERNAMBUCO QUER ROBÓTICA EM
TODA A REDE ATÉ 2017

O Governo de Pernambuco reconhece o esforço das escolas em difundir o gosto pela robótica entre estudantes dos ensinos fundamental e médio. Em 2008, o governador Eduardo Campos recebeu alunos e a diretora do Apoio no gabinete para parabenizá-los pelas conquistas internacionais. Ouviu também sobre como esse panorama é interessante para formar uma geração de cientistas que vai atender às demandas do setor de automação, hoje carente no Estado.

Esses incentivo e interesse demoraram a aparecer. As duas principais escolas - Apoio e Santa Emília - tiveram que esperar por apoios para viagens internacionais. O colégio recifense recebeu verba para as passagens por parte do Estado para competir em Atlanta, nos EUA, em 2008, apenas um ano depois de haver criado o grupo Apoiobot. Já o olidense Santa Emília, que tem uma unidade no bairro recifense do Cordeiro, teve ajuda apenas em 2012, quando custeou a viagem com auxílio do Governo de Pernambuco. “Hoje o diálogo está bem melhor, mas ainda falta muito para alcançarmos um nível que desejamos”, disse Cristina Tavares, diretora pedagógica do colégio.

Hoje a robótica começa a entrar na matriz curricular das escolas estaduais atrelada ao ensino de física e matemática. Em 2013, foram adquiridos kits de robótica para 260 escolas de referência, que oferecem educação em tempo integral para o ensino médio. Segundo a Secretaria de Educação do Estado, a meta é subir até o fim de 2014 para 300 escolas - Pernambuco possui 1.089 escolas, o que mostra que ainda há muito a crescer. “Nossa meta é fazer com que toda a rede tenha ensino integral até 2017”, afirma o secretário de Educação, Ricardo Dantas de Oliveira. “A robótica está inserida dentro de um esfoço para tornar a sala de aula mais interessante e divertida. O aluno demora menos para assimilar o conteúdo pois presta mais atenção’, raciocina.

Segundo Dantas, a robótica se tornou estratégica para o ensino em Pernambuco nos últimos anos. “No mundo industrializado de hoje, é cada vez mais importante a presença de assuntos como mecatrônica em salas de aula”, diz. “Nosso parque industrial vem se expandindo e criando demandas. Por isso, precisamos despertar interesse por novos cursos que gerem profissionais para atender a esse novo momento do Estado.”




Referência em Pernambuco quando o assunto é robótica, o colégio Apoio está entre os melhores do mundo na área. A diretora Terezinha Cysneiros explica a importância dos robôs no ensino






Estudantes de escolas do Recife explicam o uso da robótica na prática e como funcionam os campeonatos internacionais