"Eu me sentia parte"

Foto de Fernando Menezes. Foto: Fábio Jardelino / Especial para o NE10

Com 15 anos na época, Fernando Menezes comprou tijolos para ampliação da Ilha do Retiro

O Chile x Estados Unidos foi histórico não só para o Recife, mas também para as pessoas que colaboraram a fim de que a partida acontecesse. Diversos torcedores do Sport ajudaram na ampliação da Ilha do Retiro. Entre os que fizeram parte da Copa em Pernambuco, estava Fernando Menezes, com quinze anos na época, hoje jornalista aposentado e escritor recifense.

“A minha lembrança maior da Copa de 1950 no Recife é que eu fiz parte do grupo de voluntários do Sport Club do Recife na remodelação da Ilha do Retiro, para que se pudesse fazer o Mundial”, conta. Fernando fez parte de um mutirão composto por operários, torcedores e dirigentes que a carregou tijolos e cimento em nome de uma Nova Ilha, para tornar concreto esse sonho pernambucano.

"Eu ajudei fisicamente na ampliação da Ilha, comprando tijolo, para aumentar as arquibancadas. Eu comprei e carreguei tijolos. Só não ajudei a colocar os tijolos porque, senão, tinha destruído tudo (risos), mas houve torcedores fazendo isso com as próprias mãos", lembra. "Eu me sentia parte, quer dizer, eu tinha alguma coisa a ver com isso. Isso me marcou muito”, rememora, orgulhoso.

Ampliação da Ilha era uma vontade geral, segundo Fernando. "A ampliação se tornou algo do interesse de Pernambuco. Iria se fazer uma Copa do Mundo aqui. Não apenas os rubro-negros, mas as pessoas que torciam para outros clubes também se interessaram muito", comenta ele, que se tornou escritor de vários livros tematizando o Recife e se destacou como jornalista no Jornal do Commercio.

Menezes lembra bem do ambiente do Recife àquela época. “A cidade estava ligada, atenta ao jogo. Havia uma grande expectativa, até porque era uma grande novidade. Foi um jogo muito concorrido, tinha muita gente no estádio para a época”.

A partida em si não era das mais atraentes, na opinião dele, mas tinha imenso valor pelo que representava.“O jogo, em si, foi prejudicado pela grande expectativa que gerou a vinda da Copa do Mundo. As pessoas foram ao estádio mais pelo orgulho de ter um jogo da Copa aqui.”

Um fato que chamou a atenção do então adolescente foi a vinda do presidente da Fifa daquela época, o francês Jules Rimet, a quem se refere como “o homem que inventou a Copa do Mundo".

Enquanto muito se fala hoje em dia sobre legado da próxima Copa para a cidade, Menezes afirma que em 1950 não se pensava nisso. "O legado mais importante — e, se foi só esse, já foi suficiente — é que o Recife ficou marcado como um local, uma praça, que permitia um jogo da Copa do Mundo. Recife estava entre os poucos lugares. Teve a sua importância, muito grande até."

O futebol, naquela época, era uma das poucas opções de entretenimento no Recife e já era uma paixão popular. Menezes acrescenta que o remo ainda despertava interesse muito grande. Além dos esportes, o cinema era uma boa alternativa para se divertir. “Antigamente, o lazer era curto. Você ia pro cinema, pra matinê do Cinema São Luís, por exemplo, ou você ia para as regatas, em que havia uma disputa tão furiosa quanto era no futebol”, relembra.