Vitória na raça

Apesar da promessa do Governo Federal de construir um grande estádio, que seria posteriormente administrado pelo Clube Náutico Capibaribe, a Copa do Mundo no Recife em 1950 teria outras cores: rubro-negras. O esforço feito pelo Sport Club do Recife e pela Federação Pernambucana de Desportos foi intenso. A maioria dos recursos empregados veio dos próprios dirigentes e torcedores do Leão, porém a entrada de um aporte público em cima da hora foi decisiva para deixar o palco pronto para receber Chile e Estados Unidos. A aprovação definitiva do campo, há menos de um mês para o Mundial, foi recebida como uma grande vitória.

Reforma da Ilha do Retiro, com ajuda de torcedores, foi até dias antes da partida - Imagem: Jornal Pequeno

Reforma da Ilha do Retiro, com ajuda de torcedores, foi até dias antes da partida - Imagem: Jornal Pequeno

Preparar a Ilha do Retiro para a Copa do Mundo foi uma missão árdua porque, mesmo há 62 anos, em 1950, a Fifa já tinha uma série de normas que precisavam ser atendidas. O hoje chamado "padrão-Fifa" era bem menos detalhista naquela época, mas nem por isso era simples. Uma das exigências foi a montagem de um alambrado, que até hoje os torcedores veem no estádio, assim como a construção dos túneis que interligam os vestiários ao gramado, muito difícil devido ao fato de o estádio estar perto do mangue do Rio Capibaribe, o que acarretou um trabalho gigantesco de esgotamento das águas que teimavam em inundar as obras. Sem falar na ampliação das arquibancadas, para deixar a Ilha com capacidade para 20 mil pessoas, e na criação de uma tribuna de honra mais ampla e confortável para receber a autoridade máxima do futebol mundial, Jules Rimet. As instalações internas do estádio também receberam cuidados a fim de melhor acomodar as delegações internacionais.

Imagem da contrução do estádio do Maracanã | Imagem: Suderj/Divulgação

Construção do Maracanã

Não foi apenas na Ilha do Retiro que as obras foram feitas em cima da hora. Os relatos da época mostram que o próprio Maracanã, no Rio de Janeiro, ainda tinha pedaços da arquibancada superior a finalizar quando a Copa começou. Na Ilha do Retiro, uma vistoria da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), cerca de um mês antes das obras, detectou que o ritmo não era satisfatório. Naquele momento, ou o Governo de Pernambuco e a Prefeitura do Recife investiam para acelerar o processo ou o estádio ficaria fora. Até então, o poder público não havia aderido (financeiramente) à causa do Mundial no Recife.

Sob certa pressão e também interessados na vinda da Copa, o governador Barbosa Lima Sobrinho e o prefeito do Recife, Morais Rego, destinaram, juntos, a quantia de 400 mil cruzeiros. Um valor que não chegou à metade do que foi gasto no total, que passou de 1 milhão de cruzeiros. A renda de Chile 5x2 Estados Unidos viria a ser de 290 mil cruzeiros.

"Na construção do estádio da Ilha do Retiro estão sendo gastos mais de 1 milhão de cruzeiros, tendo contribuído para a ajuda os governos estadual e municipal, votando verbas extraordinários, que se elevaram a 400 mil cruzeiros", registrou reportagem feita pela Agência Meridional, baseada no Rio de Janeiro, e publicada tanto no Diario da Noite, do Rio, como no Jornal Pequeno, do Recife.

Artigo no Jornal Pequeno afirmava que a Ilha do Retiro era o estádio mais completo do Norte e Nordeste
Imagem aérea da Ilha do Retiro em 1950

A imagem aérea de 62 anos atrás mostra não só uma Ilha do Retiro bem menor que a atual como também explica a origem do nome do estádio. O Rio Capibaribe fluía mais naquele tempo, vazava para além do transcurso natural, alagava espaços de terra e de mangue. O aterramento ainda era pequeno; aumentaria por conta das construções futuras. O resultado é que o estádio se constituía em uma ilha de concreto, tendo ao seu lado apenas quadras de tênis, a antiga sede e o velho sapotizeiro. Foi nesse campo em 1950 que Pernambuco recebeu seu primeiro jogo de Copa do Mundo. Para isso, foi necessário reformar as instalações e ampliar na capacidade, em uma empreitada custosa que precisou também do apoio dos torcedores rubro-negros.

Além do oportuno incentivo público, o Sport precisou de mais braços, de mais força de trabalho, para deixar o estádio pronto a tempo. Foi aí que torcedores se juntaram aos pedreiros.

Um dos diversos rubro-negros que entraram em campo nesta hora foi Fernando Menezes. Jornalista aposentado e escritor, Menezes tinha apenas 15 anos na época, mas até hoje recorda-se de ter ajudado a carregar materiais que seriam usados nas obras.

"Eu mesmo ajudei, fisicamente, na ampliação da Ilha, comprando tijolo para aumentar as arquibancadas, levando tijolo como transportador. Eu comprei e entreguei", relembra Menezes. "Só não ajudei a colocar os tijolos porque, se não, tinha destruído tudo, mas houve torcedores fazendo isso com as próprias mãos", conta. (Veja matéria com Fernando Menezes na seção personagens)

A já citada reportagem da Agência Meridional também destacou o trabalho coletivo. "A construção vinha sendo processada com a lentidão que caracteriza as obras feitas com sacrifício, e somente ao ser conhecido o resultado da vistoria feita pela CBD é que os "leões", como são conhecidos os torcedores do Esporte, se ombrearam com os operários, indo trabalhar no pesado, carregando tijolos, mexendo cimento, retirando tábuas e obedecendo como verdadeiros profissionais a todas as ordens emanadas pelos engenheiros e mestres de obras."

Ao ser concluída, a "Nova Ilha do Retiro" encheu de orgulho não apenas os rubro-negros, mas a própria crônica esportiva pernambucana, que teceu diversos elogios e destacou a importância do estádio para o desenvolvimento do desporto local. Mas nada foi maior que o orgulho de ver, em sua própria terra, a maior competição esportiva do Mundo, contando com a presença do presidente da Fifa em pessoa, Jules Rimet, que não perdeu o espetáculo.

Jornal Pequeno publicou fotos das obras na Ilha do Retiro duas semanas antes do jogo. Destaque para o alambrado