Ano de mudanças no futebol pernambucano

Íbis começou como sensação em 50, mas terminou na lanterna do Pernambucano

Íbis começou como sensação em 50, mas terminou na lanterna do Pernambucano

Thiago Wagner

Do NE10

Íbis campeão estadual, já imaginou? Pois foi isso o que aconteceu em 1950. O Pássaro Preto ergueu o título do Torneio Início, competição de caráter preparatório daquele ano. É verdade que o feito não era novidade. O Íbis, que hoje tem a fama de pior time do mundo, já havia sido campeão do mesmo torneio em 1948. O fato é que, no ano da Copa do Mundo no Brasil, algumas mudanças estariam por vir no futebol pernambucano. E não estamos nos referindo ao Íbis.

Tudo se daria no Campeonato Pernambucano daquele ano. O Sport, com seus 13 títulos e com um bicampeonato, partia como favorito. Mais atrás, vinham o Santa Cruz, segundo maior campeão estadual na época, com oito títulos, e o América, que até então tinha seis títulos do Pernambucano. O Náutico, apesar de, até aquele momento, haver conquistado três vezes o título estadual, não era um franco favorito. As três grandes forças do futebol eram diferentes. O América figurava entre os fortes da capital.

Ciente desse cenário, a direção de Rosa e Silva se moveu para se equiparar aos rivais. A primeira ação foi trazer um técnico campeão. Palmeira, bicampeão pelo Santa Cruz em 1946 e 1947, foi o escolhido pelo presidente alvirrubro Eládio de Barros Carvalho. Palmeira possuía prestígio entre os pernambucanos não só pela fama de técnico como também pela de ex-árbitro de futebol no final da década de 30 e início da de 40.

Jornais da época destacavam o Estadual ao lado da Copa do Mundo. Detalhe para a informação de que o Recife receberia três jogos do Mundial. Fato não aconteceu.

Escolhido o comandante, iniciou-se a montagem do time principal do Náutico. O lateral-direito Sidinho, campeão duas vezes pelo Santa, já se encontrava nos Aflitos juntamente com os atacantes Cruz, Carmelo e Amorim. Na zaga, havia Lula como referência. A eles, se juntaram mais quatro reforços vindos do Rio de Janeiro: Vicente, Gilberto, Alcidésio e Zeca. É importante ressaltar que a prática de trazer reforços de fora do Estado não era comum na época.

Com equipe formada, o Náutico iniciou uma série de amistosos na então Guiana Holandesa. Foram pouco mais de trinta dias de excursão com 15 vitórias, quatro empates e apenas uma única derrota. O Alvirrubro já dava os primeiros sinais do que estaria por vir.

No Pernambucano, não foi diferente. Logo de cara, o Náutico conquistou o primeiro turno do Estadual de maneira invicta com cinco vitórias e três empates. A estreia foi contra o Íbis, aquele mesmo campeão do Torneio Início. A vitória foi Timbu por 3x0.

América rivalizava com Santa Cruz e Sport pela hegemonia no Estado. Após 50, o panorama mudou

América rivalizava com Santa Cruz e Sport pela hegemonia no Estado. Após 50, o panorama mudou

No segundo turno, os adversários reagiram. A disputa foi mais acirrada com melhor sorte para o América, que acabou levando a segunda etapa do Estadual. Uma melhor de três estava marcada para decidir qual seria o melhor time de Pernambuco em 1950.

As finais ficaram marcadas pelo confronto de dois modelos diferentes de pensar o futebol da época. De um lado, o Náutico com um pensamento mais moderno e profissional; do outro, o América, um clube que ainda simbolizava o sistema semiprofissional do futebol. "O próprio futebol pernambucano estava começando a passar por uma mudança grande. Uma mudança de um regime semiprofissional para um regime profissional. O Náutico, a partir de 1949 para 50, começa a mudar o regime e passa a contratar jogadores", diz o médico e pesquisador do futebol Roberto Vieira sobre o momento da final de 1950.

A vitória acabou indo para o time de Rosa e Silva. Foram um empate e duas vitórias do Náutico (1 a 1, 3 a 1 e 3 a 2). O Timbu era pela quarta vez campeão pernambucano. Aquele título marcou a virada alvirrubra no futebol do Estado: o América, aos poucos, foi saindo do cenário de protagonismo para dar lugar ao Náutico. Ao lado de Santa Cruz e Sport, o Alvirrubro passou a rivalizar pelo supremacia do futebol em Pernambuco.

O Náutico de Palmeira ainda conquistaria os estaduais de 1951 e 1952. Já o América só chegaria a mais uma final de Campeonato Pernambucano em toda sua história, em 1952. Após 50, o Timbu conquistaria mais 18 títulos, incluindo o até hoje inédito hexacampeonato.

E o Íbis? Bem, o Íbis venceu o Torneio Início de 50 e só. No estadual daquele ano, o Passaro Preto foi um verdadeiro "saco de pancadas". Em 16 jogos, empatou dois e perdeu o restante. A fama de pior time do mundo já parecia ser destino.