Uma outra realidade

Concepção artística das estações do Corredor T5. Imagem: Secretaria Municipal de Transportes/RJ

A mobilidade urbana é o principal desafio da Copa 2014 e, por isso, tem recebido grandes investimentos, previstos em R$ 7.3 bilhões em todo o País. A obra mais cara, orçada em R$ 1,88 bilhões, é a construção do Corredor T5, no Rio de Janeiro, uma via de 28 quilômetros apenas para ônibus, ligando o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão) até a Barra da Tijuca.

A Copa do Mundo ainda engatinhava em 1950 se comparada ao que representa neste século 21. O campeonato da Fifa já era de grande importância no meio esportivo, mas não tinha a plenitude de hoje como evento global com interseções em todas as áreas da sociedade. Seleções desistindo, estádios prometidos não construídos, meros 13 participantes -- contra os 32 atuais -- foram características da quarta edição da Copa, com o mundo ainda sentindo privações no pós-Guerra. Hoje o Brasil ruma para a 20ª Copa, e a Rússia e o Catar já se preparam para 2018 e 2022, respectivamente.

A evolução nas últimas décadas mostra que a Copa do Mundo e as Olimpíadas se tornaram muito mais do que competições esportivas. São eventos de impacto nas áreas de economia, turismo, urbanismo e até política. Trazem investimentos públicos e privados, pautando diversos setores da sociedade, tanto no âmbito estadual como no internacional. É nesse sentido que já se pode afirmar que os megaeventos esportivos de 2013 a 2016 que vêm ao Brasil são acontecimentos muito significativos para o Brasil.

Trazer visibilidade, fortalecer o turismo, deixar estruturas melhores para as cidades em mobilidade urbana, aeroportos e portos, bem como atrair investimentos privados, são alguns dos principais pontos para os governos estaduais e federal na preparação para uma nova Copa do Mundo.

A população mundial no ano da primeira Copa do Brasil, 1950, estava em 2,51 bilhões. Esse número é menor do que o total de telespectadores da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul: 3,2 bilhões, cerca de 46% da população mundial, já na casa dos 6,95 bi. A final teve quase 620 milhões de pessoas assistindo em suas residências por pelo menos 20 minutos, aproximadamente 9% da população mundial. É bom lembrar que muita gente assiste aos jogos fora de casa, até mesmo em eventos como o Fifa Fan Fest. Dados: Agência Kantar Sport e Population Reference Bureau

O que se avançou em 1950?

Imagem do presidente da Fifa, Jules Rimet, entregando a taça de campeão do mundo a Obdulio Varela, capitão e camisa 5 uruguaio

Em 1950, as ambições governamentais eram bem menores, como o investimento, mas existiam. Para o Brasil, era a oportunidade de buscar uma posição maior no cenário internacional, que ainda estava abalado pela Segunda Guerra Mundial. A construção do estádio-monumento Maracanã visava mostrar imponência. No entanto, a atenção do governo federal esqueceu dos outros estados.

No que se refere à disputa da Copa em si, 1950 teve alguns avanços. Foi a primeira Copa com fase de grupos, pois anteriormente todos os confrontos eram eliminatórios. A mudança garantia pelo menos três jogos para cada uma das 16 seleções, divididas em quatro grupos. Além disso, marcou a estreia dos números nas costas dos jogadores.

Segundo projeções do Ministério do Esporte, a Copa 2014 deverá agregar R$ 183 bilhões ao PIB do Brasil até 2019. Esse número inclui investimento em infraestrutura, gastos adicionais dos turistas, crescimento no consumo das famílias, aumento do turismo e do uso dos estádios após a Copa, além da recirculação do dinheiro na economia e do aumento de 0,4% no PIB acumulado de 2010 a 2019.

Os investimentos públicos em infraestrutura civil (estádio, mobilidade urbana, portos e aeroportos) para a Copa do Mundo e a Copa das Confederações estão no momento estimados em R$ 27,5 bi de acordo com os dados mais recentes do Portal Transparência, da Corregedoria Geral da União (CGU), que acompanha esses gastos em seu site. Menos da metade desse total, R$ 12,3 bi, foi contratado até aqui, sem conclusão. E apenas R$ 3,16 bi, ou 11,49%, foram executados. Número que reflete a lentidão do poder público.

Na linha de evolução da Copa do Mundo, normalmente os estádios representam o custo maior. No Brasil, não. Aeroportos (R$ 7,3 bi) e mobilidade urbana (R$ 12 bi) estão recebendo mais do que os R$ 6,77 bi das arenas das 12 cidades-sede. Diferentemente de outros países, o governo brasileiro quis reorganizar cidades às custas da Copa, quando o investimento público já deveria ter vindo antes e de forma independente dela. Essa vinculação ajuda a tirar do papel projetos considerados importantes, mas ajuda a encarecer porque existem prazos rígidos, e o custo se potencializa quando se é preciso vencer o atraso inicial das obras. Haverá também investimentos em telecomunicações, energia, saúde, segurança e hotelaria, movimentando, no mínimo, outros R$ 10 bilhões.

O Mundial ainda gera inúmeras oportunidades para empresas e os moradores do país-sede. O trabalhador braçal, o presidente de multinacional, o esportista, o gestor de esporte, o comerciante, o dono de pousada, todos esperam hoje tirar algum proveito do Mundial para si ou para determinado grupo social. "Quantas gerações passarão para o Brasil e para Pernambuco ser novamente sede de uma Copa do Mundo? É impossível dizer. Então a chance desta geração, deste governo, destes empreendedores, é agora. E todo mundo deve agarrar esta chance com a força e a determinação que tiver", dá o recado Ricardo Leitão, secretário especial da Copa do Mundo do Governo de Pernambuco.

O Padrão FIFA

Recomendações técnicas e requisitos da Fifa chegam a 420 páginas.

Comparando 1950 e 2014, a construção do estádio é um outro ponto de grande mudança. Naquela época, a lista de encargos da Fifa era enxuta, cabia talvez em uma folha de papel. “A Fifa não dificultava”, diz Arsênio Meira de Vasconcellos Neto, ex-presidente do Sport, embasado no relato do pai, José Lourenço Meira de Vasconcellos, também ex-presidente, que ajudou na ampliação da Ilha do Retiro em 1950. “O Sport teve de colocar um alambrado, ampliar as arquibancadas, fazer uma tribuna de honra ampla e confortável e melhorar os vestiários”, diz Arsênio. O mais difícil foi criar dois túneis de acesso dos vestiários ao campo.

Seis décadas depois, os requisitos técnicos para os estádios são profundamente exigentes e detalhadas, a ponto de serem publicadas em um livro com 420 páginas, apresentando o chamado “Padrão Fifa”. As especificações estão divididas em dez tópicos superdetalhados: decisões pré-construção, segurança, orientação e estacionamento, área de jogo, jogadores e oficiais da partida, espectadores, hospitalidade, mídia, iluminação e fornecimento energético, comunicações e outras áreas.