A Primeira Vez Da Copa Do Mundo No Recife

Bola oficial do Mundial de 1950, no Brasil.

Bola oficial da copa de 1950, no Brasil

Quando a bola rolar na Arena Pernambuco para a Copa do Mundo em 2014, o Recife poderá dizer que já viveu esta história antes. Em 1950, na primeira Copa no Brasil, a cidade foi a única entre as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste a receber uma partida. Até hoje o evento mais importante da história do futebol nordestino, o jogo Chile 5 x 2 Estados Unidos, no Estádio da Ilha do Retiro, completa 62 anos nesta segunda-feira (2), em um momento em que o Brasil e Pernambuco se preparam para receber a Copa das Confederações e o Campeonato Mundial nos próximos anos.

Remonta a 1946 a ligação do Recife com a Copa do Mundo. Naquele ano, os jornais registraram o anúncio oficial, feito por Jules Rimet, então presidente da Fifa, durante congresso da entidade em julho em Luxemburgo, apontando o Brasil como sede da Copa do Mundo de Futebol de 1950. A primeira após a Segunda Guerra Mundial, que arrasou a Europa e consequentemente inviabilizou as competições esportivas internacionais. Sem danos com a guerra, em crescimento econômico e com uma já popularizada paixão pelo futebol, o Brasil era uma opção excelente.

Em um tempo em que os aviões eram movidos a hélice, e os deslocamentos, muito demorados, a organização se concentraria no Sudeste e no Sul. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba foram, todas, contempladas. Mesmo distante, o Recife não poderia ficar de fora. Era a terceira cidade mais populosa do Brasil, com 524 mil habitantes, e vivenciava grande disputa nos campeonatos locais de futebol. E o reconhecimento veio. Conforme publicou o Jornal Pequeno em 10 de setembro de 1946, o Governo Federal prometeu a construção de um grande estádio na capital pernambucana, que seria administrado pelo Clube Náutico Capibaribe, e de outros dois em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, que caberiam ao Internacional e ao Flamengo, respectivamente.

Jornal Pequeno, em 10 de setembro de 1946, registrou promessa de estádio no Recife para a Copa. A Copa do Mundo também teve como sedes Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba.

Mas nem tudo saiu como planejado. Dos estádios prometidos, só o Maracanã saiu do papel, para ser o maior palco do futebol mundial. O Recife ficou ameaçado, assim como Porto Alegre. Só restava uma alternativa. Trabalhosa. A Ilha do Retiro, estádio do Sport Club do Recife, que tinha recebido com grande êxito o maior clássico nacional, o Fla-Flu, em 1947, poderia ser o palco, desde que passasse por reformas e ampliação atendendo às exigências da Fifa — que já existiam, embora em menor número e menos detalhistas que as de hoje. Graças a um grande esforço dos rubro-negros e da Federação Pernambucana de Desportos, com algum apoio do Governo do Estado e da Prefeitura do Recife, a Ilha do Retiro se tornou, de fato, uma das sedes do 4º Campeonato Mundial de Futebol.

Vista aérea da Ilha do Retiro, que passou por reformas para receber a Copa em 1950

Vista aérea da Ilha do Retiro, que passou por reformas para receber a Copa em 1950

TRÊS, DOIS, UM - Enquanto se preparava para ser sede, o Recife almejava receber vários jogos. A edição do Jornal do Commercio do dia 16 de maio trouxe boa notícia, como manchete do caderno Desportos: "Três jogos do Campeónato do Mundo no Recife". A reportagem contava que, após reunião entre o superintendente da CBD, Irineu Chaves, e o governador do Estado, Barbosa Lima Sobrinho, Pernambuco se comprometia a fazer um aporte financeiro para a conclusão das obras. No total de recursos locais, incluindo o governo e a prefeitura, foram destinados 400 mil cruzeiros. Menos da metade do que foi gasto na ampliação, que passaria de 1 milhão de cruzeiros.

Jornais de 1950 ajudam a entender os bastidores da vinda da Copa para o Recife | Reprodução: Jornal do Commercio e Jornal Pequeno Jornais de 1950 ajudam a entender os bastidores da vinda da Copa para o Recife | Reprodução: Jornal do Commercio e Jornal Pequeno

Enquanto isso, a CBD tinha uma outra dificuldade. Maior ainda. Encontrar três seleções para substituir a Escócia, a Turquia e a Índia, que conseguiram a classificação nas eliminatórias, mas haviam desistido. Portugal e França, que não garantiram vaga na bola, foram convidadas. As duas foram colocadas na tabela no grupo 4, junto com Uruguai e Bolívia. E com jogos no Recife, ambos contra os bolivianos. Portugal jogaria em 25 de junho; e a França, em 29 de junho. E, pelo grupo 2, o Chile enfrentaria os Estados Unidos no dia 2 de julho. Porém, em 31 de maio, poucos dias após o lançamento da tabela, veio de Lisboa a má notícia: Portugal desistiu.

Jornais de 1950 ajudam a entender os bastidores da vinda da Copa para o Recife | Reprodução: Jornal do Commercio e Jornal Pequeno

"Na tabela oficial fornecida anteontem, pela CBD, o encontro Portugal x Bolívia teria o Recife como local, no dia 25 deste mês. Com a ausência dos lusitanos, foi esse jogo riscado da tabela e nossa capital ficou sem a grande atração", informava o Jornal do Commercio em 1º de junho.

França era esperada no Recife, mas desisitiu, conforme registrou o Jornal Pequeno

O presidente da Federação Pernambucana de Desportos, FPD, Leopoldo Casado, ainda tentou trazer Itália x Suécia no lugar de Portugal e Bolívia, sem sucesso.  A situação ficou ainda pior: uma semana depois de Portugal, a França rejeitou o convite brasileiro sob o argumento de que a logística da viagem não lhe era favorável. Os franceses jogariam em Porto Alegre contra o Uruguai e depois no Recife. 3.779 Km de uma para a outra. Distância maior do que de Paris para qualquer outra cidade na Europa. Foi assim que coube a Chile e Estados Unidos a disputa do único jogo da Copa do Mundo no Brasil fora do eixo Sul-Sudeste.

Médico, pesquisador e escritor, Roberto Vieira contextualiza a vinda do Mundial para o Recife