Intolerância Religiosa

Intolerância Religiosa

A minha verdade

Nesta 'Guerra Santa' moderna, em que se transformou a intolerância religiosa, é difícil apontar vítimas e culpados porque muitos acusam quase todos. O que podemos inferir é de um fenômeno que se encontra em rota ascendente no Brasil. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República recebe denúncias desse tipo de preconceito desde 2011 e, até 2015, o aumento foi de 3.706%. O salto foi de 15 casos em 2011 para 556 em 2015. As religiões de matriz africana lideram as estatísticas, seguidas dos evangélicos. Espíritas e católicos dividem o terceiro lugar.

E aqui começa o jogo da culpa. Seguidores de candomblé e umbanda apontam para cristãos evangélicos como seus maiores agressores. Os evangélicos se dizem vítimas de preconceito de quem não é evangélico por conta de valores que defendem como abstinência sexual até o casamento e luta contra o aborto. "Algumas pesquisas mostram que com a chegada das igrejas neopentecostais houve um aumento da intolerância religiosa. Muitas vezes as pessoas escutam dos líderes dessas igrejas palavras de ordem contra as (religiões) de matriz africana. Esse comportamento pode advir do que ele escuta. O discurso de alguém que se posta como líder religioso pode influenciar no comportamento", avalia a psicóloga Lúcia Helena Salgueiro.

A vereadora do Recife Michelle Collins (PP) – a mais votada nas eleições de 2016 – garante que não ataca seguidores de outras religiões e apenas defende os valores que ela vê impressos na bíblia. Um dos termos usados contra ela é 'homofóbica', veementemente rejeitado. "Tenho alguns pensamentos diferentes, que são as coisas em que acredito mas não chega a ser homofobia, que é uma doença e precisa de tratamento psicológico. Homofóbico é alguém que não pode conviver ou chegar perto de um homossexual e não sou essa pessoa", garante.

A também vereadora Aimée Carvalho (PSB) já perdeu a conta de quantas vezes foi tratada com descrédito e agressividade, segundo ela por ser evangélica. Ela lembra que na época da votação sobre ideologia de gênero na Câmara do Recife precisou ser escoltada. "Manifestantes levantaram meu carro tentando virar comigo dentro. Isso não por eu votar contra a menção à ideologia, mas por ser evangélica. Nos difamam nas redes sociais, usam palavras de baixo calão e nos expõem de forma grosseira e intolerante", enumera.

A respeito das denúncias dos candomblecistas e umbandistas, Aimée acredita que o problema não é de religião e sim a educação dos agressores. Ela vê a intolerância vestida de todas as formas, seja evangélica, espírita, budista ou católica. "A religião evangélica não prega a intolerância nem o desamor. Não podemos creditar à religião a falta de educação de pessoas. Não conheço igreja evangélica que pregue a violência."

Mas há quem enxergue de outra forma. Joana Maria da Silva Vieira, mãe Jane, tem mais de 50 anos de santo feito e comanda uma casa na Cidade Tabajara, em Olinda, Região Metropolitana do Recife. Ela já perdeu a conta de quantas vezes foi ofendida. Em algumas fez, literalmente, justiça com as próprias mãos. "Na rua já me chamaram de macaca, vadia, que não tem Deus no coração, que anda com o diabo, só traz infortúnio... uma vez um arrancou meu ojá (o paramento da cabeça). Dei um murro nele. Outra vez, um cidadão de uma igreja entrou aqui distribuindo papel dizendo que o ibori (a oferenda) era oferenda para o diabo. Se eu estivesse presente tinha apanhado. Mas no geral deixo pra lá. Trato a intolerância religiosa como inveja que algumas pessoas têm da nossa religião". No entanto, mãe Jane nunca prestou queixa formal na delegacia.

Está escrito 'não adorarás imagens', mas naquela época Israel vivia ao lado de nações idólatras que aceitavam até sacrifícios humanos. Aí a proibição tinha sentido.

Frei Tito Figueirôa

Entre os católicos também há queixas de manifestações preconceituosas vindas de evangélicos. E o grande motivo é a adoração de imagens, principalmente de Nossa Senhora. Para o presidente da Comissão Arquidiocesana da Pastoral para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, frei Tito Figueirôa, essa aversão, às vezes agressiva, tem fundamento numa interpretação da bíblia que não evoluiu. "Pegam o texto que foi escrito para um determinado contexto sociocultural completamente diferente de hoje. Está escrito 'não adorarás imagens', mas naquela época Israel vivia ao lado de nações idólatras que aceitavam até sacrifícios humanos. Aí a proibição tinha sentido. Hoje as imagens têm outro sentido, pois não são de deuses. As imagens dos nossos santos são nosso álbum de família e esse álbum não é para ser jogado no fogo e destruído. É para ser guardado com muito carinho", explica.

Lúcia Helena presenciou esse tipo de intolerância na adolescência. Acompanhando uma amiga num show de uma banda que usava letras religiosas ao som de rock pesado, o trecho de uma música dizia 'Nossa Senhora Apodrecida', uma troca pejorativa para o nome da santa, que, inclusive, é considerada padroeira do Brasil. "Eram pessoas evangélicas criticando e ofendendo uma santa da Igreja Católica. "

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Poder

O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males

Se o racismo data de quando o Brasil começou a produzir riquezas, a intolerância religiosa praticamente se iniciou no dia 22 de abril de 1500. Nas mesmas caravelas de Pedro Álvares Cabral chegaram os primeiros padres jesuítas com o objetivo de catequizar o que, no entender deles, eram povos bárbaros pagãos. Em alguns momentos mais, em outros menos, mas os índios que aqui estavam foram obrigados a abdicar de Tupã e rezar para Jesus Cristo. Avançando para o período da escravidão aconteceu o mesmo com as religiões de matriz africana. Hoje, apesar de um estado laico, todos são vítimas de agressões. Em diferentes graus, evidentemente.

Não foi de uma forma amistosa como apresentado na abertura das Olimpíadas, com todo mundo alegre e em paz. Essa foi a nossa base.

Leonardo Sakamoto

"Não foi de uma forma amistosa como apresentado na abertura das Olimpíadas, com todo mundo alegre e em paz. Houve invasão, agressão e estupro. Essa foi a nossa base. As religiões africanas foram reprimidas e os escravos tiveram que fazer o sincretismo com os santos católicos", comenta o conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e doutor em Ciência Política, Leonardo Sakamoto.

O que é mais curioso é que avaliando as três grandes religiões monoteístas - cristianismo, judaísmo e islamismo - não há nenhum ensinamento ou manifestação de intolerância religiosa. O que desenvolveu o uso da força para discriminar os 'rivais' é aquela palavra de cinco letras que move o homem desde que o primeiro exemplar de nossa espécie dominou o fogo: poder. "Os livros sagrados dessas religiões falam em viver em harmonia, em levar o credo para os outros mas não com violência. Mas religião também é poder. A criação delas não tem a ver só com o que nos acontece depois da morte. Através dela você controla a sociedade e esse controle pode ser mais ou menos violento. Mas ainda assim é controle", diz.

O próprio cristianismo católico exerceu os papeis de perseguido e perseguidor. "Os três primeiros séculos da igreja foram marcados por muitas perseguições e foi grande o número de cristãos que deram a vida por causa de sua fé. Isso durou até que o imperador Constantino reconhecesse o cristianismo como religião oficial do Império Romano", conta o arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido. A conversão de Constantino deu-se no ano de 312.

Passariam-se oito séculos para o cristianismo, já com um poderio ideológico e bélico bastante forte, partir para reconquistar a Palestina, região que passou a ser dominada por turcos muçulmanos. Entre os séculos 11 e 13 travaram-se sangrentas batalhas na região. "Para atingir o objetivo, os cristãos precisaram enfrentar opositores, sobretudo os muçulmanos. Sem dúvida, a intolerância religiosa marcou essa época", completa Saburido.

Denúncias de Discriminação Religiosa

Fonte: Secretaria Nacional de Direitos Humanos

Em pleno século 21, a espada foi substituída pelo voto nessa 'Guerra Santa' pelo poder. No Congresso Nacional, a bancada evangélica conta com 87 deputados federais e três senadores - dois deles licenciados. Os católicos não ficaram atrás e criaram a Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana, com 208 parlamentares, sendo três deles também pertencentes ao grupo evangélico. Para finalizar, com o discurso de defesa das religiões de matriz africana foi criada a Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana. Essa conta com 202 signatários. O prefeito da segunda maior cidade do País, Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em Pernambuco a tendência segue. Dos três maiores colégios eleitorais do Estado, dois estão sob o comando de prefeitos fortemente ligados a grupos religiosos. Jaboatão dos Guararapes tem Anderson Ferreira (PR) – quando deputado federal, foi autor do projeto de lei do Estatuto da Família – e Olinda, professor Lupércio (Solidariedade). Embora o prefeito reeleito do Recife, Geraldo Julio, não tenha carreira política fundamentada na religião, os três vereadores mais votados na última eleição são oriundos de igrejas: Michelle Collins (PP), Irmã Aimée (PSB) e Fred Ferreira (PSC).

Bancada Evangélica

87 Deputados Federais 3 Senadores

Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana

208 Parlamentares

Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana

202 Signatários

Collins foi eleita para o segundo mandato com 15.357 votos e admite que os grupos evangélicos estão se organizando para defender os valores que suas igrejas e as pessoas que os elegem defendem. "O segmento evangélico está se organizando e tem objetivos, alvos e metas de ver seus valores representados através dessas pessoas (os políticos). Elas escolhem com quem mais se identificam para ser seu representante", argumenta.

A vice-campeã de votos, irmã Aimée Carvalho, tem uma resposta bem parecida quando questionada sobre quais os objetivos da bancada evangélica: fazer a voz dos evangélicos ser ouvida. Ela vai além ao lembrar que cerca de um quarto da população recifense já se declara evangélica. "E eles precisam, sim, de representação. Boa parte dos segmentos de nossa sociedade está representada nas câmaras e assembleias de todo País, inclusive os evangélicos."

Educação

Discriminação se previne na escola, mas a família também é importante

Apesar de o governo federal não ter estatísticas se há alguém condenado por isso, o preconceito contra a religião é considerado crime no Brasil desde 1997 quando o artigo 1º da Lei 7.716 - a lei do racismo - incluiu em sua redação religião, etnia e procedência nacional como formas de discriminação. E como a legislação parece não pesar na conta, quem trabalha com a religião e prega a tolerância prefere apontar a educação e o diálogo como caminhos mais fáceis para se viver plenamente a laicidade do estado brasileiro prevista na Constituição de 1988.

O conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e doutor em ciência política, Leonardo Sakamoto vê a escola como o maior pilar para se debater e prevenir a discriminação - não só a religiosa. Ele lembra que lá é o primeiro lugar onde o ser humano vai se deparar com as diferenças de maneira mais clara, pois os outros círculos sociais, como família ou um clube, congregam indivíduos com muitas semelhanças. "O contato com a diferença tem que ser apresentado como solução, pois é através dela que a gente cresce como sociedade. A escola tem que trazer essas discussões", pontua.

Mas trazer apenas para a garotada ainda é pouco. A família tem que cumprir seu papel, já que é parte, ao menos em tese, indissociável do ser humano. Com um diálogo mais amplo, acredita, a empatia e o respeito surgem mais fácil. "A escola também tem que fazer com que a comunidade entre, os pais participem. É preciso fazer com que os que pensam diferente possam dialogar dentro da sala de aula com seus filhos e amigos.”

A psicóloga Lúcia Helena Salgueiro também acredita que não há outro caminho a não ser o conhecimento. Mas faz a ressalva para o conhecimento verdadeiro, in loco. "Tem que observar como é na prática. Na escola aprendemos a mitologia grega e nórdica. Todo mundo sabe quem é o deus Thor, mas não se aprende nada sobre as divindades africanas. Se desde criança se aprendesse com naturalidade, provavelmente não teríamos esse tipo de violência. É preciso ir aos locais, entender para quebrar o preconceito. "

O outro vetor educacional defendido por Sakamoto é ensinar a interpretar o que se vê e ouve nas redes sociais e na própria mídia tradicional. Muitas informações distorcidas, mal interpretadas ou propositadamente postas para incitar o ódio têm que ser questionadas e colocadas na mesa como realmente são. "É preciso uma alfabetização midiática e informacional (nome de uma publicação elaborada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco) para ensinar ao pessoal se um discurso é baseado em ódio ou bem fundamentado. A melhor forma para isso é com aulas de debate, ensinar como debater para quando essas pessoas forem chamadas às ruas para discutir. Muita gente debate em público com violência, falta de respeito e incapacidade de entender que o outro não é inimigo. Quem pensa diferente é somente quem pensa diferente."

Bom de se fazer mas ainda distante? Sim, na opinião do cientista político. Ele cita como exemplo as tentativas infrutíferas de se levar assuntos considerados polêmicos para se debater na escola. "Quando se tentou discutir a homofobia começaram a falar em kit gay. Depois se tentou discutir a violência de gênero e disseram que se queria introduzir ideologia de gênero. Depois se tentou conversar sobre os direitos humanos e falaram em escola sem partido". Por isso ele vê, no curto prazo, difícil serem concretizados debates para combater não só a intolerância religiosa mas todas as outras formas de preconceito latentes na sociedade.

"Deveríamos estar discutindo como avanços, mas estamos apenas debatendo como não perder direitos. Do jeito que está, daqui a pouco não teremos um País, vai ter simplesmente ódio. É preciso que as pessoas sentem, discutam e participem da vida política mas que não se matem no meio do caminho", enfatiza.

Pelo lado religioso, o presidente da Comissão Arquidiocesana de Pastoral para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, frei Tito Figueirôa, usa seu próprio exemplo de conhecer, debater e trocar ideias com representantes de outros credos para viver em harmonia. "Tenho amizade com várias mães de santo. No meu trabalho de diálogo inter-religioso participo de grupos que fazem parte pessoas de religiões de matriz africana. Visito terreiros, vou a festas e confraternizações. A Igreja Católica orienta a não discriminar e as comissões de ecumenismo servem justamente para isso. "

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Expediente

08 de março de 2017

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