Micilene Martins da Silva, 23 anos

A jovem foi a única, entre as sete meninas-mães entrevistadas neste webdocumentário, a terminar os estudos. Enquanto todas as outras pararam pelo caminho, Micilene conseguiu concluir o ensino médio. Uma conquista que até hoje ela divide com a mãe, a maior responsável para que a garota não largasse a escola. Retribuiu o incentivo sendo uma ótima aluna. Das coisas que se orgulha, a maior delas é nunca ter dado trabalho como estudante. “Minha mãe nunca precisou ser chamada na escola para ouvir uma reclamação. Era só elogio.”


A consciência da importância de seguir adiante nos estudos, no entanto, não evitou que Micilene trilhasse o mesmo caminho seguido pelas meninas do Comviva: o da gravidez na adolescência. Tinha 15 anos quando a primeira filha, Milene, nasceu. No ano seguinte, engravidou de Mirele. O pai das meninas era violento, usuário de drogas, terminou preso. Eles se separaram e Micilene se envolveu com outro rapaz. Foram morar juntos. Estava no 8º mês de gestação quando o marido foi assassinado. Jadiel nasceu sem conhecer o pai. Um novo relacionamento e mais um filho. Alisson acabou de completar um ano. Apesar de continuar casada, ela convive com os mesmos problemas que enfrentou em suas outras relações: o companheiro é violento, viciado em crack e já foi preso.


Micilene convive com a violência desde criança. Seu pai passou mais tempo na prisão do que em casa. Coube à mãe criar sozinha os cinco filhos. “Nunca soube o que era um carinho de pai. A primeira vez que ele foi preso eu tinha três meses de idade. Quando saiu da cadeia, eu já estava com 11 anos. Sentia falta dele. Hoje não sinto mais. Já me acostumei à ausência.” Micilene conta que o pai e o primeiro marido chegaram a roubar e vender drogas juntos. “Essa nunca foi a vida que eu quis para mim e meus filhos. Mas era muito jovem e fiz escolhas erradas. Agora tento seguir em frente e proteger meus filhos. Para que eles não passem pelo que eu passei.”

Maria Aparecida da Silva, 24 anos

Mãe de três crianças, Aparecida se descobriu grávida do quarto filho durante a produção deste webdocumentário. Em novembro de 2012, quando houve a primeira conversa, ela não sabia, mas estava com quatro semanas de gestação. Só meses depois, quando começou a engordar e os peitos ficaram inchados, é que a jovem desconfiou que pudesse estar grávida. Feito o teste, o resultado deu positivo. Já tinha tentado ligar as trompas desde o último parto, mas não havia conseguido. Desempregada e sem nenhum tipo de ajuda, ela se desesperou.


O pai da criança chegou a duvidar que o filho fosse dele. Aparecida foi para a maternidade acompanhada apenas de uma irmã. Às 8h59 do dia 14 de junho de 2013, ela deu à luz Davi, 3,750 quilos e 49 centímetros. O bebê nasceu saudável, mas Cida não conseguiu fazer a cesárea que tanto queria. Estava com uma anemia grave, teve um princípio de hemorragia e o parto precisou ser normal mesmo. Além de Davi, ela é mãe de Márcia, 7, Mikaele, 5, e Ruan, 3. Os quatro filhos e a jovem moram, desde o início deste ano, num conjunto habitacional do Programa Minha Casa Minha Vida, no subúrbio de Caruaru.


No tempo do Comviva, Aparecida gostava de participar de todas as atividades, mas não aprendeu nenhuma profissão que a ajudasse na vida adulta. Ela entrou para a entidade com 7 anos e ficou até os 18 anos, quando já tinha a primeira filha. Apesar de ter tido oportunidade de estudar, não seguiu adiante no estudos. Parou na 7ª série. É do que mais se arrepende. De ter largado a escola. Já trabalhou em casa de família, cozinha de restaurante, salão de beleza. Agora quer voltar a estudar. “Viver na cozinha dos outros não dá futuro a ninguém.”

Maria Gilberta dos Santos, 25 anos

Aos 19 anos, Gilberta ouviu do médico uma frase desconcertante. “A pessoa perder um dente já é difícil. Imagina perder uma perna.” Aquele momento seria decisivo em sua vida. Em menos de uma semana, a jovem teve as duas pernas amputadas, após ser vítima de uma trombose. Primeiro foi a perna direita. Quando saiu da sala de cirurgia, já estava com a outra perna enfaixada. Dias depois, voltou para uma nova operação. Quando acordou, estava sem as duas pernas.


Foi depois de uma briga com ex-marido, pai de suas duas filhas, que as pernas de Gilberta começaram a inchar. A jovem não se lembra se o companheiro chegou a bater nas pernas dela, mas, no dia seguinte, começou a sentir um peso, as pernas ficaram roxas e com bolhas. No outro dia, nas palavras de Gilberta, “já estavam igual ao couro de um sapo”. Foi quando a família decidiu levá-la para ser examinada no hospital. Coube aos pais e ao então marido de Gilberta dar a autorização para amputação das duas pernas.


Gilberta hoje está separada do marido. Chegou a denunciá-lo na Lei Maria da Penha depois que foi agredida pelo companheiro. Ela cria as duas filhas sozinhas, Soraya, 7 anos, e Sayonara, 5. Apesar da limitação física, Gilberta prefere não alimentar o sofrimento. “Não gosto de ficar me queixando do que foi a vida. Eu gosto é de viver.” Das sete meninas-mães entrevistadas nesta reportagem, foi a única que disse ser uma garota feliz.

Josicleide Maria da Silva, 21 anos

Das quatro irmãs que viviam, há dez anos, nas ruas de Caruaru e foram atendidas pela ONG Comviva, Josicleide é a mais jovem e mais triste de todas. Ela e as irmãs Aparecida, 24 anos, Rosilene, 25, e Jaqueline, 23, chegaram na entidade ainda crianças. A mãe, alcoólatra, sempre foi ausente na educação das filhas. As meninas lamentam, até hoje, o fato de a mãe nunca ter ido a nenhuma atividade festiva nos tempos do Comviva. Josicleide, assim como as irmãs, começou a ter filhos muito cedo. Aos 15 anos, teve a primeira menina, Caroline. Depois vieram Daniel e Danilo.


A jovem parou de estudar na 8ª série. Chegou a frequentar a escola grávida de Caroline e Daniel, mas, quando engravidou do terceiro filho, não teve mais forças. “Nem cheguei a terminar o ano. Não tinha mais o que fazer numa sala de aula. Sei que perdi a minha vida, mas não me vejo mais na escola. Estudar para quê?”


Josicleide chegou a ter um trabalho com carteira assinada, numa lanchonete fast-food, em Caruaru, mas agora está desempregada. Apesar de ter dito que não desejaria mais filhos, chegou a cogitar a hipótese de dar ao novo marido um filho. “Ele gosta muito de criança. Quer ter um filho meu. Isso é bom, né?”

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