Pelo menos um





Pelo menos um

Eles se conheceram numa ONG de Caruaru, no Agreste de Pernambuco. Trocaram a vulnerabilidade das ruas pelos sonhos de uma vida melhor. Mas tiveram que abandonar os planos quando a realidade da pobreza se fez mais forte, afastando-os do estudo. Apenas um seguiu em frente. E é ele quem conta esta história.

Por Ciara Carvalho e Julliana de Melo

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O menino-herói

Ele reinventou sua história. Escreveu um novo enredo quando tomou a decisão que mudou a sua vida. Na contramão da urgência de sobreviver, trocou o trabalho pelos livros. Fez o que praticamente nenhum dos colegas de rua e de sina conseguiu: terminou o ensino médio. E.M.S. é uma exceção, a linha fora da reta. A certeza de que só se transforma um país pelos braços da educação. Um brasileiro de 23 anos, que acabou de comprar a casa própria, financiada em 180 meses, e que não acredita que o destino já nasce pronto. O destino, ele ensina, é a gente quem faz.

 

O Brasil das estatísticas

Quem olha os números que fotografam a punjança do Brasil nos últimos dez anos não enxerga os meninos do Morro do Bom Jesus. Vê um país que se agiganta, que comemora saltos na economia e avanços sociais. As estatísticas são um pedaço da história. A vida dos meninos do Comviva é o outro lado. O lado dos que continuam à margem, filhos do atraso do Brasil desigual. Sobre a realidade desse mundo, as estatísticas mais escondem do que revelam.

 
 

"Quantas dificuldades eu passei até chegar a comprar minha casa? Não ter se envolvido com coisa errada, saindo do lugar que saí. O primeiro passo foi grande, muito maior do que a perna. Mas é só o primeiro degrau. Daqui para frente é melhorar ainda mais."

E.M.S., 23 anos

Atrás das grades

As drogas foram a principal porta de entrada para o mundo do crime. Ainda muito jovens, migraram da maconha para o crack. Começaram como usuários e, quando se via, já estavam traficando. Muitos dos jovens que passaram pelo Comviva hoje são colegas de presídio. Sonham com a liberdade, sem direito sequer a um advogado.

 

As meninas-mães

Praticamente todas as garotas que passaram pelo Comviva naqueles anos largaram os estudos e, ainda muito jovens, começaram a ter filhos. A gravidez na adolescência determinou o rumo de vida dessas meninas e terminou distanciando as jovens da escola.

 
 
 

A década do crack

A maior parte dos relatos de morte, prisão e dependência química colhidos neste webdocumentário tem relação direta com o crack. Os meninos e meninas do Comviva cresceram justamente na década em que a droga, com alto poder destrutivo, virou uma epidemia no País.

 
 

"Há 10 anos, quando eu perguntei o que eles queriam fazer, todo mundo falava: Eu quero terminar meus estudos; eu quero estudar na faculdade; meu sonho é ser um advogado; eu quero ser um médico. Mas quase ninguém conseguiu fazer isso."

Manuel Erbenich é jornalista freelancer alemão e trabalhou como voluntário na ONG Comviva em 2002



 
 

O amor nos tempos do Comviva

Eles eram ainda crianças descobrindo a adolescência quando começaram a viver a experiência do primeiro beijo, da primeira relação sexual. Muitos relacionamentos tiveram início ali mesmo, entre brincadeiras e promessas de um futuro melhor. Ainda muito jovens, tiveram filhos. A maioria dos casais, no entanto, se separou, depois de deixar a ONG. Época mais marcante na vida de todos eles, os anos do Comviva foram também o tempo de descobrir o amor.

 

Os filhos dos filhos

Os pais já não anseiam muito do futuro, mas seus filhos têm um mundo de sonhos pela frente, à espera apenas de um País que não lhe vire às costas, como fez com suas famílias. A vida em comunidades pobres de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, lhes empurra para o mesmo caminho, marcado pela presença do tráfico de drogas, da violência e da falta de planejamento familiar. A maioria dos jovens pais fez escolhas erradas e é o exemplo do que não deve ser seguido. Lições do cotidiano que dificilmente são assimiladas pelos pequenos. É na escola que talvez esteja a chave para mudança e é lá que estão depositadas esperanças de uma geração de meninos e meninas esquecidos pelo Brasil.

 

O desafio da educação

Nos últimos dez anos, enquanto os garotos do Comviva cresciam longe da escola, a educação no Brasil avançou. Mas não na velocidade necessária para garantir o ensino de qualidade. As estatísticas mostram onde o País deu saltos e onde persistem os gargalos e maiores desafios.

 
 

O livro dos sonhos

Em 2003, os meninos e meninas do Comviva viveram a aventura de imaginar um livro. Cada um escreveu seu texto, contou a sua história. Cada um chorou suas tristezas, desenhou suas pequenas alegrias. Mas o livro nunca virou realidade. Ficou adormecido, esquecido em folhas de papel avulsas. Dez anos depois, o livro dos sonhos finalmente ganha vida. Texto a texto, a publicação foi montada para este webdocumentário e pode ser agora folheada em 32 páginas, carregadas de lembranças e saudade.


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Livro dos Sonhos
 

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