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Fabiana Moraes




Alucinação

Cinco da manhã, dezoito de dezembro de 2010. Rogério estava acordado. Não dormiu a noite toda. Há três dias era assim. Mas a festa do seu casamento aconteceria logo mais e havia muita coisa para resolver: levar a bebida para o local da recepção, buscar a roupa, pagar aos músicos, também à moça do bufê. E ele ainda não havia terminado de pintar o apartamento. Ganharam o novo lar da família dela. A festa para 200 convidados também. Mas quem estava organizando tudo era ele, queria as coisas do seu jeito. Não era o dinheiro alheio que iria fazê-lo ficar em segundo plano. De todo jeito, não iria se preocupar com isso agora, havia muita coisa para fazer. Ou só uma outra coisa. Só uma. Nessa outra ele pensava, mas tinha medo. Pensava e tinha medo porque, se optasse por ela, não precisaria mais pintar a nova casa (faltava escolher a cor de uma parede da sala), nem se preocupar com músicos, com roupa, com a moça do bufê. Apenas com ele. E com Renata.

Era sua mulher há 24 horas, casaram-se no civil e agora o Damascena do nome dele estava incluído no nome dela. Uniu-se à garota que havia conhecido há quase 20 anos em uma escola de Ribeirão. Passaram muito tempo sem se ver. Quando a reencontrou, tinha acontecido muita coisa, algumas boas, outras de destruição lenta e certeira. Reconheceu os olhos grandes e castanhos, o cabelo meio ondulado, a timidez. Decidiu que iam namorar (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser azul claro; se fosse a outra coisa, não haveria qualquer cor). Um, dois, três encontros: estavam namorando. Isso foi há três anos e ela agora era sua mulher, o seu nome misturou-se ao nome dela 1.095 dias depois de reencontrá-la. Naqueles mil dias ela virou advogada, começou a trabalhar como defensora pública, ele ia bem como supervisor de vendas de motos e se dava com o pessoal da empresa (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser igual ao resto da casa; se fosse outra, não haveria casa). É verdade que às vezes as brincadeiras eram meio chatas, mas a culpa era dele. Quem mandou falar demais? Falou demais porque queria ser simpático por ali. Aí contou sobre uma das destruições lentas e certeiras. Falou sobre Laura, que ele tinha amado e com quem queria casar. De como ela era Ela, a mulher de sua vida. Contou sobre quando descobriu que ela estava ficando com seu melhor amigo. Isso tudo aconteceu antes de Renata e ele falava essas coisas agora porque estava tudo bem, era passado, é claro que tinha superado. Superou tanto que aceitou o convite para ser padrinho do casamento dos dois, da união do melhor amigo com a sua ex-namorada. Perdeu 12 quilos na época, mas tinha superado, é claro. Era passado. Agora ele estava com uma garota maravilhosa, e essa sim, era Ela (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser rosa, Renata iria gostar; se fosse outra, não haveria Renata).

Sua mulher era especial, querida. Todo mundo vivia elogiando: "É um doce", "Muito atenciosa", "É linda", "Uma flor". Estava atento a quem surgia por perto e não tolerava brincadeiras ou aproximações – que ele sabia, tinha certeza, não eram sempre bem intencionadas. Uma vez, por exemplo. Teve que mostrar, no empurrão, que sua namorada tinha dono. Que o rapaz do casal que se dizia amigo estava sendo inconveniente. Ele veio beijar a mão dela. Rogério não tolerou aquilo, e não importava se ele fosse parente da sua futura mulher. Outra vez, por exemplo. Estavam com as amigas delas, grupo grande. Preferia quando saíam a sós, mas Renata pediu. Estava estudando no Recife e, quando ia a Amaraji, fazia questão de encontrar com as antigas colegas. Percebeu que ela estava contente demais, feliz demais, falando demais. Parecia que podia ser feliz sem ele, inclusive. Decidiu ir embora. Renata foi atrás. Disse a ele que não havia nada, ela só estava se divertindo. É claro que havia alguma coisa. Achavam que ele era o quê? Ficou ainda mais irritado quando ela defendeu as meninas. Que ficasse com elas, então. Brigaram. Foi em um impulso que a empurrou. Estava de cabeça quente, pediu desculpa, mas ela se afastou. Foram quase dois meses sem vê-la. Ali percebeu que não podia perdê-la, que não podia ver outro grande amor ir embora. Ligou. Reataram e ele decidiu: queria casar (voltou a pensar: se fosse uma coisa, a parede podia ser derrubada para aumentar a cozinha, ele mesmo chamaria um pedreiro conhecido; se fosse outra, não haveria ele). Sentiu que Renata não estava muito certa, falou que talvez fosse cedo demais. Ele insistiu e ganhou. Fazia só três meses que acertaram o casamento. Era 18 de dezembro, havia chegado a hora e ele ainda não tinha certeza se haveria uma parede colorida no futuro dos dois. Pensou em ir ao apartamento, talvez conseguisse dormir um pouco. Mas estava em uma espécie de modo automático. Foi pagar o bufê, pegar a roupa, levar a bebida. Ainda precisava pegar Renata. Passou todo o dia naquele estado dormente.

Chegou a hora do casamento e ninguém, nem Ela, percebeu que ele não estava acordado. Os amigos – Rafael, Olavo, Paulo Henrique – também não. Nem seu pai ou sua mãe. Nem o pessoal da empresa. Nem os parentes dela (o que beijou a mão de sua mulher não apareceu). Nem as amigas que ele vencera, pois no fim Renata casou mesmo com ele. Foi até as mesas, falou com todos. Ia provar que também era simpático, pediu a Derivaldo, um dos garçons, que ele servisse bastante uísque. Era muita gente, tanta gente que nem se lembrava direito quem tinha chegado com aquelas brincadeiras, o apelido que ele detestava, as provocações por causa do casamento de Laura, a ex, com seu melhor amigo (é claro que ele tinha superado). Via Renata de longe: estava contente demais, feliz demais, falando demais. Parecia até que podia ser feliz sem ele. "Um doce, muito atenciosa, linda, uma flor". Pediu para tocarem de novo a música que ele escolheu como sendo dos dois e a chamou para dançar ("O que todos querem é só separar nós dois/Você é o que quero e vou continuar te amando/Eu não tô nem aí pro que os outros vão dizer/O que a gente sente ninguém tem nada a ver/Todos ficam falando que eu não sirvo pra você/Dizem que eu não presto só me meto em confusão/Querem nos afastar e acabar com nosso amor/Tirar você de mim"). Estava ela ali, dançando, de branco, agora tinham os nomes misturados, ela com o vestido que ele tinha escolhido. Aquela garota não era como a outra: não o trocou. Não era como a outra: ninguém a tomou. A mulher certa para ele. Era sua, mas todos queriam chegar perto dela. Voltou a pensar: se fosse uma coisa, voltariam para casa e ele continuaria a ver todos se aproximando, nem sempre bem intencionados. Se fosse outra, ele garantiria que ela ficaria só com ele e com mais ninguém. Se fosse uma coisa, ele abriria a possibilidade de uma nova lenta e certeira destruição, a possibilidade de virar de novo o passado amoroso de alguém. Se fosse outra, ele finalizaria aquelas possibilidades ali. Parecia ideal. Eram 2h21 da madrugada de sábado para domingo quando ouviu o fotógrafo falar: "olha de novo para a câmera, vamos fazer outra". Colocou a mão no ombro direito da moça que o acompanhava há mais de mil dias e que agora tinha Damascena em seu nome. Olhou rapidamente para a frente: viu as mesas com os convidados, o bolo branco de três andares, em cima dele uma moto que levava dois felizes noivos de açúcar, a piscina decorada com flores. Viu as taças de champanhe."Olha para a câmera", ouviu de Renata. Ela estava feliz, talvez feliz demais, talvez ela pudesse ser feliz mesmo sem ele. Foi até o carro. Voltou. Estava dormente quando reuniu a todos para anunciar sua escolha, que chamou de surpresa (continuava tentando ser simpático). Era uma pena que muita gente já tivesse ido embora, mas não importava: todos saberiam quem era ele, quem era Ela, que ele jamais seria trocado, jamais seria deixado, que ninguém voltaria a brincar com as coisas que um dia o destroçaram lentamente, que ninguém – nem os amigos da rua, os amigos do trabalho, as amigas dela, todos que estavam ali – deveria brincar com as coisas que ele nunca tinha superado. Decidiu que o apartamento não terminaria de ser pintado e puxou o revólver. No outro dia, na frente do delegado, alguém disse: "Conhecia ele, era ciúme normal, não era obsessivo."


Realidade

"Parece mentira... mas a hora chegou... vamos nos casar!!! Rogério e Renata, com a bênção de seus pais, convidam para seu casamento no dia 18 de dezembro de 2010, às 19 horas." Renata olhou novamente o convite do seu casamento. Estava simples, mas gostou dele mesmo assim: um desenho, feito no computador, do noivo ajoelhado pedindo a mão da noiva. Olhou o vestido sobre a cama: todo drapeado no busto, uma alça só de flores. Bonito. Rogério escolheu. O outro que a madrinha mostrou também era, mas, enfim, preferiu dar esse presente ao noivo. Não queria outro clima pesado, outra desnecessária confusão. Quando ele pediu para ela usar o modelo, achou que era brincadeira. Rogério sabia que ela e a madrinha já estavam procurando alguns. Brincou, mas ele ficou chateado e até chorou quando ela finalmente falou que casaria com a roupa que ele escolheu. Estavam em uma lanchonete com Prazeres, sua mãe, que também ria do noivo transtornado. Achou bonito aquele amor todo.

Aqueles dias foram cansativos, muita coisa para resolver: trabalho a mais no fórum, pensar no bufê, a decoração (ao menos Vera, tia de Rogério, estava ajudando). Tinha que ir a Amaraji ver a mãe, sair para fazer compras com a madrinha. Era assim que chamava a senhora que a adotou ainda criança, mas é claro que ela era mais que isso. Era também sua mãe, a pessoa que cuidou e investiu nela. Quando avisou, em setembro, que iria se casar em três meses, percebeu seu espanto. Muita gente não entendeu. Qual a pressa? E casar em um mês tão cheio? Mas Rogério queria assim. Ela chegou a dizer que talvez fosse cedo, tinha se formado há pouco tempo, era hora de ambos investirem nas carreiras. Por outro lado, o casamento poderia tornar seu namorado um pouco mais confiante. Talvez ele deixasse o ciúme de lado após ver o sobrenome dele unido ao dela. O novo sobrenome, aliás: há pouco havia mudado, no cartório, o Costa original, de sua mãe, para o Coelho da família que a adotou. Não falou nada a Prazeres, teve medo de magoá-la. Era uma forma de homenagear a família que a acolheu.

O apartamento seria a última coisa que Renata ganharia da família, tinha certeza: dali em diante, tudo o que ela conquistasse seria consequência do próprio trabalho. Era seu objetivo, foi por isso que ficou tão animada com a entrevista de emprego em um escritório de advocacia do Recife. O salário era bom, disseram que poderia chegar logo a R$ 5 mil. Passou o dia lá, trabalhou bem. Quando voltou, um dos vários sócios a chamou. "Você é um doce, atenciosa, linda, uma flor, mas não podemos lhe empregar. Temos homens demais, velhos demais, não seria um bom lugar para você." Saiu de lá muito mal, ligou para a mãe, se encontraram em um shopping. Chorou muito. Aquilo era preconceito. Conhecia-o bem, tanto por ser mulher quanto por ser adotada. Mas agora nada disso era problema: tinha diploma, uma casa nova e Rogério, seu marido. Era uma nova fase e agora ela poderia cuidar de suas mães e de Raíssa, a sobrinha a quem daria uma estabilidade que ela mesma custou a ter.

Ligou de novo para Daniela, que encontrou dois dias antes, no salão de Nazilda. Gostavam-se muito, morou na casa da amiga logo que chegou a Amaraji, sem canto para ficar. Estava triste porque ela não iria para a festa de casamento. Insistiu, mas Dani falou que precisava trabalhar. Nem mesmo para o casamento no civil, que seria no outro dia, na sexta, ela poderia ir. A ligação caiu na caixa postal. Queria tanto falar com ela, conversar sobre a casa nova, combinar para irem juntas comprar as cortinas. Queria também dizer o que estava sentindo, um medo, uma coisa meio ruim, o peito trancado. Dani tinha percebido já na quinta, quando se encontraram no salão. Terminava de arrumar o cabelo para a cerimônia civil quando a amiga comentou que ela estava com a aparência abatida. "Nem parece que tu vai casar." Mas era só cansaço. Tinha que dar conta do trabalho, das coisas do casamento, das duas famílias. E havia a insegurança de Rogério, uma insegurança que, ela sabia, nasceu no momento em que sua ex, Laura, o trocou por um amigo. Contaram: ele quase morre de tristeza. Ela tinha certeza: o amor dos dois, a troca de alianças, mudaria tudo.

O telefone tocou. Era o noivo perguntando se ela estava pronta. Estava, só faltava pegar o buquê e colocar a tiara, decidiu usar uma para manter o cabelo arrumado, já que Rogério quis entrar de moto na festa. Tinham que sair mais cedo para passar na casa do irmão, ele ligou avisando que sua mãe, estava lá justamente para ir ao casamento, tinha passado mal. Há dias andava agitada, nervosa. Precisou ir ao hospital, tomou injeção. Avisou que não iria mais ao casamento. No íntimo, Renata sabia que a mãe não concordava com a cerimônia espírita organizada pela família da madrinha. Chorou muito, mas seguiu para a festa. Agora não podia fazer nada, estava cansada de ficar no fogo cruzado. Era hora de aproveitar sua nova vida, de comemorar tudo o que tinha conseguido. Ela e Rogério ficariam bem, logo ela teria um escritório, daria uma casa a mãe Prazeres, seria orgulho para a madrinha. Escutou a buzina e Rogério chamou. Saiu do quarto sabendo que dali em diante sua vida iria mudar.


Memória

É Maria quem conta: chegou a Amaraji levando três filhos, um na mão, outro a seguia, mais um no colo. O da mão era Robério, quem seguia era Rodrigo, quem ia colada a seu peito era Renata. Saíam do Recife, de um lar que fora assaltado enquanto a mãe, viúva, estava fora. Maria soube que alguns de seus objetos foram parar naquela cidadezinha cercada de cana. Quis ir lá: levou não apenas os meninos e a menina, mas também a polícia. Não deixou nada para trás. Tampouco sabia exatamente como e por que voltar. Na delegacia local, a situação da mulher em busca de seus poucos bens materiais, os meninos sem ter onde dormir, comoveu. Falaram com o então prefeito. Ele arranjou um lugar temporário para ela e os filhos. Maria, Robério, Rodrigo e Renata agora moravam em Amaraji. Tudo isso aconteceu há 17 anos.

É Maria quem conta: depois foram viver na residência de uma das poucas famílias que eram "bem de vida" na cidade. "Bem de vida" deve aqui ser entendido como ter um ou dois carros, a casa grande com cerâmica, o jeans da marca que todos acham importante. Morava naquela casa grande, onde também ajudava nas tarefas diárias. Foram cerca de seis anos na residência distintiva: no começo, tudo bem. Com o tempo, não tão bem assim. O famoso "você é de casa" começou a desbotar, a sofrer o desgaste natural do tempo que no fim entrega: você nunca foi daqui. Arrumou outra ocupação, uma que dava para bancar o aluguel. Decidiu sair, mas sabia que não poderia sustentar todos os filhos. A dona da casa, que se afeiçoara especialmente a Renata, chegou perto. "Quero criar a menina. Deixe ela morar conosco." Maria deixou. Daquele dia em diante, a mulher tornou-se "madrinha". Apesar de não morarem mais juntas, Renata e Maria continuaram a se ver: a menina saía da escola e passava na casa de Maria, agora transformada em "mãe biológica" (ela detesta, nunca se acostumou). Renata já era uma mocinha quando avisou o que queria fazer no futuro próximo: ser advogada. Era o sonho dos pais que moravam na casa grande. Ela aceitou, talvez como forma de agradecer o confortável teto. Maria apoiou e não muito tempo depois viu a filha ingressar em uma universidade. Continuava a visitar a mãe, mas agora um pouco menos, porque além de estudar também começou a estagiar no fórum local, o José Cipriano Vasconcelos. Maria às vezes passava lá também. Via como a filha era querida e se orgulhava do que diziam dela: "É um doce", "Muito atenciosa", "É linda", "Uma flor".

É Maria quem conta: um dia, Renata, doce, atenciosa, linda, flor, anunciou para a mãe que estava namorando. Disse que o conhecia há tempos, que ele tinha até namorado uma das moças da família de lá, a bem de vida. Que quando eram pequenos, bem pequenos, estudaram na mesma escola em Ribeirão. Que ele, quando a viu, quis logo namorar. Renata havia acabado um relacionamento longo há pouco tempo, mas aceitou. Não gostava de ficar só. "Ela era carente, muito carente." Um dia, marcaram um encontro e Maria foi apresentada ao rapaz, que se chamava Rogério. Achou ele bonito e bom para sua filha. Poucas vezes a viu chegar triste em casa. Em uma delas, adivinhou: brigaram e terminaram o namoro. Soube naquele dia que ele era muito ciumento. Que nenhum homem podia olhar para ela. Que nem das amigas dela ele gostava. Soube que sua filha estava sufocada. Mesmo assim, entendeu quando eles voltaram e poucas semanas depois ele pediu Renata em casamento. Uma das moças que trabalhavam com ela no fórum ("era um doce, uma flor") chegou para Maria e comentou: "Eu acho que sua filha não tá muito feliz para casar".

É Maria quem conta: Renata terminou o curso superior. Ganhou um carro do namorado. A mãe ficou, mais uma vez, feliz em ver o sucesso da filha, feliz em vê-la desfrutar de um conforto que provavelmente ela nunca poderia oferecer. O dia da formatura foi de festa, mas Maria não estava lá. Tinha se acostumado a estar nos bastidores da vida da própria filha. No material impresso da formatura, viu a foto de Renata agora advogada. Abaixo da imagem, estavam os nomes do pai e da mãe da família bem de vida. Ficou um pouco triste, é verdade, queria estar ali. Mas sabia, que, na sua casa mais humilde, Renata chegava para ela, mãe biológica, e se abria. "Mãe, eu não tenho nada, só o que é dos outros. Eu vou trabalhar para ter o que é meu." "Mãe, um dia eu vou ser juíza, promotora, vou ganhar dinheiro e dar uma casa a você." "Mãe, eu vou colocar Raíssa em uma escola boa." Confirmava-se: aquele mundo de pobreza que Renata conheceu, a falta de perspectiva experimentada por quem chega a uma nova cidade sem ter onde ir dormir, não existia mais. Um dia, perto do casamento, foi encontrar a filha e seu futuro marido em uma lanchonete. Discutiam suavemente sobre o vestido de noiva que seria usado na festa. A madrinha queria que a moça usasse um modelo. Rogério queria outro. Renata queria agradar aos dois. Ele ficou triste, depois irritado, depois calado. A noiva começou a brincar com aquela situação, mas, percebendo que o rosto do noivo não sorria, decidiu casar usando a preferência dele. Não queria arrumar mais confusão. Rogério, emocionado, começou a chorar. A mãe achou que aquilo era amor.

É Maria quem conta: A poucas semanas da festa de casamento, começou a sentir um negócio ruim, a respiração foi ficando mais curta, "o peito trancado, sabe?". Veio uma ansiedade inédita, cuja causa ela não sabia localizar. Falou para as colegas que trabalham com ela na pequena escola municipal. "Toma um calmante", "Maracujá é bom", "Tem dormido bem?" Renata também se preocupou com a agonia. "O que você tem, mãe? Fique calma. Toda vez que a senhora fica assim acontece alguma coisa ruim." Dois dias antes do casamento, foi para a casa de um dos filhos, que há tempos moravam em Recife. Ia de lá para a cerimônia. Separou roupa, sapato. Aí chegou o 18 de dezembro e o tranco no peito aumentou. "Eu queria correr, eu queria gritar." Às 16h, acharam melhor levá-la para um hospital, o Barão de Lucena, onde tomou uma injeção e ficou em observação. Depois voltou para casa. Às 21h, perto da hora do casamento, Renata, arrumada como noiva, apareceu. A mãe anunciou: não tinha condições de ir para a festa. Que ela desculpasse, mas não ia. Que se soubesse, se tivesse uma razão, acabaria com tudo aquilo, chegaria como louca, quebraria tudo e Renata não casaria. Mas não tinha por que fazer uma coisa dessas. A filha deixou a mãe e foi embora, chorando. Rogério despediu-se: "Fique bem, sogra dois."

É Maria quem chora: estava na casa do filho quando soube: sua Renata, um doce, atenciosa, linda, uma flor, estava morta. Como podia estar morta? Porque Rogério, que era bonito, que era bom, parou a festa, sacou um revólver e atirou. Como Rogério poderia fazer uma coisa dessas? Ela, até hoje, não sabe. O outro rapaz, que morreu na mesma hora, que não tinha nada a ver com aquilo, ela não conhecia. Quando viu, estavam todos falando sobre o assunto, cada um tinha uma opinião, uma teoria, parecia que todos queriam de alguma maneira denegrir sua filha. Ela ficou calada. Não apareceu na TV, não foi depor na polícia, não surgiu em nenhum local identificada como a verdadeira mãe daquela triste noiva morta. Passou dois meses sem se levantar da cama. Não conseguia andar, abrir os olhos, mexer o corpo. Não conseguia, principalmente, entender. Vai recapitulando Renata, as conversas, a voz que denunciava tristeza ou alegria, a vontade de se tornar “alguém”, de ser “bem de vida”. Vai recapitulando Rogério: a simpatia, a beleza, os presentes para a filha, o pedido de casamento. As coisas recapituladas não se encaixam. Nas mãos, Maria leva as fotos daquele dia na lanchonete. Em uma imagem a filha ri e fala com ele, que parece irritado (foi tirada antes de Renata aceitar casar com a roupa que ele queria). Na outra, ele está contente, abre um sorriso, enquanto ela está de olhos baixos, triste, a cabeça encostada em uma das mãos (foi tirada depois que ela acatou o pedido dele). Maria observa as imagens e repete: “Eu passo tanto tempo olhando para ele... tanto tempo... e não consigo, não consigo”. Para ela, o temperamento, a beleza e a suavidade de Renata foram de alguma maneira o seu próprio fim. Porque todos a queriam por perto. Porque ela era “um anjo que ninguém merecia”. “Não sei se foi amor demais, cuidado demais, ciúme demais.” Agora Maria procura retomar a vida do presente para não viver apenas da dolorosa memória. Agora cuida da neta, Raíssa, filha de Robério. Quer mantê-la, quer dar a ela o que Renata não teve. A mãe da casa grande, a madrinha também destroçada pelo inexplicável, surgiu novamente para dizer: “Quero ajudar a criar a criança”. Maria, mais uma vez, aceitou. Parece há 17 anos: voltaram a olhar para uma mesma criança. As duas mães, agora uma só, compartilham o mesmo desejo: que nenhum amor partido jamais toque esta linda, doce, flor, essa menina.