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a novela dá de comer à nossa fome de mentira

E o teatro rodriguiano foi para as telas

Diogo Guedes



Antunes Filho levou Vestido de noiva  para a TV em 1974, mesclando com sucesso o realismo do cinema  e expressionismo do teatro
Antunes Filho levou Vestido de noiva para a TV em 1974, mesclando com sucesso o realismo do cinema e expressionismo do teatro

Outro ponto marcante da trajetória de Nelson na TV, aqui já não como autor, foi sua presença massiva nas adaptações. Crônicas de A vida como ela é... viraram quadro do programa Noite de gala, em 1962, e do Fantástico, em 1996; e Asfalto selvagem originou a minissérie Engraçadinha, protagonizada por Claudia Raia. Suas obras ainda gerariam duas telenovelas: Meu destino é pecar, de 1985, com Lucélia Santos e Nathalia Timberg nos papéis principais, e O homem proibido, de 1982, que chegou a ter cenas censuradas pela ditadura.
Suas peças ganharam vida na TV principalmente a partir de uma tradição dos anos 1970 e 1980: o teleteatro. Vestido de noiva ganhou duas versões, e Senhora dos afogados teve uma versão pelas mãos de Antonio Abujamra. O mais famoso desses textos é a versão do dramaturgo Antunes Filho para Vestido de noiva, exibida dentro da série Teatro 2, da TV Cultura, considerado pela crítica como um clássico do formato.
A qualidade da obra vem principalmente da capacidade de Antunes de misturar recursos cênicos e televisivos. Em dezembro de 1974, quando o o texto adaptado foi exibido, o diretor teatral já era conhecido de Nelson Rodrigues, que havia visto, no ano anterior, a versão do encenador paulista para os palcos de Bonitinha mas ordinária. “Embora tenha sido a mais débil incursão de Antunes ao universo rodriguiano, a obra entusiasmou o poeta. E muito. Ao ponto de garantir ao diretor liberdade total na encenação de seus textos”, explica o crítico e especialista na obra de Antunes, o paulista Sebastião Milaré.
Foi um dos poucos encontros entre os dois. Empolgado com o aval, o diretor teatral dedicou boa parte de sua carreira a interpretar e reconstruir o universo rodriguiano, culminando numa grande ousadia, a de juntar momentos de vários textos de Nelson no palco, em Nelson RodriguesO eterno retorno, em 1981. Nesse processo de pesquisa, ele travou contatos diretos e indiretos com o dramaturgo. “A então assistente de Antunes, Leonor Chaves Sprenger, foi várias vezes recebida por Nelson em sua casa, nesse processo de levantamento de dados, da pesquisa de campo”, lembra o pesquisador.
Para Milaré, no entanto, o Vestido de noiva feito para o Teatro 2 segue como uma referência entre as peças adaptadas para a TV, com um elenco grandioso, encabeçado por Lílian Lemmertz, Edwin Luisi, Célia Olga e Nathalia Thimberg. Segundo o crítico, a ditadura impunha dificuldades para a pesquisa de Antunes na linguagem teatral, e a saída do autor foi procurar na série da TV Cultura a liberdade de que precisava. “Ele voltou-se a uma pesquisa estética na televisão. Procurava então combater o naturalismo barato, contumaz em telenovelas e teleteatros, na época e até hoje”, explica Milaré.
Um dos destaques da obra, que chegou a ser exibida recentemente mais uma vez, pela TV Cultura, é a união do realismo cinematográfico com o realismo teatral. Antunes fez cortes delicados no enredo original da obra, ainda que tomasse cuidado para que ela não perdesse sua essência. Para representar os três planos narrativos do texto, a memória, a realidade e a alucinação, decidiu fugir das soluções teatrais típicas, que os representavam a partir da cenografia. “Ele incluiu os planos na ação contínua do personagem em delírio. Nisso, a ‘realidade implícita’ supera a ‘realidade objetiva’ e estabelece um novo modo realista. Talvez essa seja a especificidade mais importante da obra”, analisa o pesquisador.
Ainda merece destaque o uso de práticas artesanais do teatro no ambiente televisivo, alternando entre tomadas realistas, mais cinematográficas, e expressionistas, mais teatrais, segundo a pesquisadora Paula Carolina Petreca em O retrato rodriguiano na TVA trajetória de Nelson Rodrigues através dos formatos de teleficção. 
Se Vestido de noiva foi um dos pontos mais altos das adaptações de Nelson pela TV, é apenas uma amostra da paixão de Antunes pelo dramaturgo. Segundo Milaré, Antunes colocava o Anjo Pornográfico ao lado de Shakespeare como seu autor favorito. “Ali, nas profundezas da obra de Nelson, ele não encontrava as trevas, mas as luzes de imenso entendimento do ser humano; não encontrava mistérios ou anedotas, mas insólitas revelações da condição humana”. Uma prova de que, se a TV soube abrigar o Nelson que gostava de ser um entertainer, também abriu espaço para um Nelson mais autoral, de peças como Vestido de noiva e Senhora dos afogados e textos como os de A vida como ela é.... Talvez, na própria contramão do que o dramaturgo acreditava, a TV de folhetins cabeludos também deu espaço para um Nelson mais “sério” – e, felizmente, há lugar para os dois.