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nenhum homem merece fidelidade, nenhum!

Nelson é que era mulher de verdade

Diogo Guedes




Foi usando heterônimos como Myrna e Suzana Flag, ícones do folhetim nacional, que o autor conseguiu maior popularidade – e o dinheiro que tanto lhe faltava.


Charge por Miguel Falcão
Charge por Miguel Falcão

"Pouco amor não é amor", já disse Myrna, ou melhor, Nelson Rodrigues. Talvez por isso o dramaturgo acreditasse que fazer um romance-folhetim sem tornar-se um genuíno folhetim era o mesmo que não fazê-lo. Faz sentido: Nelson não era um homem de meios-termos. O folhetim, como a telenovela, era para ele um gênero de concessão e, portanto, um gênero de entrega: mais do que uma literatura “menor”, tratava-se de uma literatura da adequação, uma prosa com – também prazerosas – condições. Assinava como uma mulher porque queria falar para mulheres – ao menos para as mulheres como ele as pensava. De novo: folhetim é um gênero de concessão, e a principal concessão de Nelson foi abrir mão voluntariamente do seu próprio nome e gênero.

Do nome e do gênero, é verdade, mas não das marcas de sua autoria. Os seus heterônimos Suzana Flag e Myrna, de forma mais melodramática, também encarnam o excesso e o retrato impiedoso de uma sociedade que se recusa a lidar com tabus. Ainda assim, a primeira delas, Suzana, não surge de um desejo estético, mas de uma necessidade financeira, pelo menos segundo Ruy Castro, principal biógrafo do autor.

Nelson, apesar de já ter revolucionado o teatro brasileiro em 1943 com Vestido de noiva, penava para fazer o seu dinheiro durar, sustentando sua casa e ajudando a mãe. No trabalho, sempre convidava alguém para pagar seu café. Quando, no ano seguinte, soube que seu amigo Freddy Chateaubriand pretendia comprar um folhetim para aumentar as vendas do seu O Jornal, rapidamente se ofereceu para “tentar” escrever um. Para superar a desconfiança do amigo, sentou na sua máquina e fez os primeiros seis capítulos em apenas dois dias.

Com o texto aprovado pelo diretor do jornal, Leão Gondim, restava o problema do nome. Nelson dizia não querer misturar sua obra teatral com esses novos melodramas. Sua escolha, no entanto, não foi a de criar um pseudônimo, mas um heterônimo, uma alcunha que carregasse consigo estilo e personalidade próprios. Resolveu radicalizar e se fazer uma mulher, ainda com sobrenome estrangeiro porque, argumentava, “(romance) policial não tem graça com nome brasileiro”. Conhecendo Nelson, devia haver ali um prazer – talvez até uma ironia – em se falsificar de mulher. Talvez ele só quisesse dizer a elas, disfarçado de folhetim e de autora, o que nenhuma outra ousava enunciar.

Surgia assim Suzana Flag, fenômeno que, no primeiro romance-folhetim, Meu destino é pecar, aumentaria, nos seus melhores momentos, a tiragem de O Jornal de 3 mil exemplares para até 30 mil. O enredo é em si dramático: Leninha, a protagonista, casa com Paulo para evitar que seu pai, endividado, seja preso. O marido, que se mantém obcecado com a sua falecida esposa, lhe desperta asco, e ela, ao mesmo tempo que o rejeita, vai lentamente caindo nos braços do cunhado, o sedutor Mauricio. É uma narrativa sem vergonha de ser novelesca, que traz frases rodriguianas como “Eu amo meu marido e o amei sempre, mesmo quando pensava odiá-lo”.

O sucesso do folhetim foi tão grande que, no mesmo ano, Nelson ainda fez outro, Escravas do amor, também mais um hábil exercício narrativo do Anjo pornográfico: as primeiras 60 páginas descrevem apenas uma hora de ação, em que se dá uma incrível sucessão de momentos dramáticos. “Ela é sem dúvida uma das narrativas mais desvairadas de Suzana Flag”, qualifica a pesquisadora Sandra Maria Pastro na dissertação Os folhetins de Nelson Rodrigues: um universo de obsessões em fatias parcimoniosas.

Com a ousadia de publicar sua própria biografia, Minha vida (1946) – não menos rocambolesca que seus outros romances –, Suzana Flag terminava por se tornar uma entidade. Era uma falsa autobiografia na qual, brinca Ruy Castro, seria impossível acreditar: “A vida de Suzana Flag, desde as primeiras páginas, era igualzinha à de suas heroínas: a mãe se matara na sua frente, tomando veneno, antes de exalar o último suspiro, roga-lhe uma praga de que, um dia, Suzana também encontraria um homem proibido”.

Ao mesmo tempo, com dois folhetins de grande vendagem e esse impressionante relato pessoal, Flag tomava uma dimensão que Nelson começava a temer. “Suzana Flag ameaçava tragar Nelson Rodrigues”, explica Berta Waldman, doutora em Literatura Comparada e autora, com Carlos Vogt, de Nelson Rodrigues: flor de obsessão.

O heterônimo ainda publicaria mais dois romances-folhetins, Núpcias de fogo (1948) e O homem proibido (1951), este já pelo jornal Ultima Hora. Entre os dois lançamentos, em 1949, Nelson estreava uma nova criação, a personagem-autora Myrna. Se Flag teve direito a uma autobiografia, o novo heterônimo também possuía sua peculiaridade: apesar de ter escrito um romance-folhetim de menor sucesso, A mulher que amou demais, Myrna ficou famosa por sua coluna de conselhos sentimentais, reunida posteriormente no livro Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, de 2002.

No romance-folhetim A mulher que amou demais, Myrna cria uma história que lembra a trama de conflito de irmãos de Meu destino é pecar. Prestes a se casar com Paulo, ela conhece um misterioso homem, Carlos, por quem imediatamente se apaixona. No fim, a trama envolve uma disputa entre irmãos e segredo por trás da viuvez de Vírginia, ex-esposa de Paulo.

“Consta que Nelson se comovia com as leitoras, utilizando-as como subsídios para a construção de suas personagens femininas”, revela Waldman. Da mesma forma que em A vida como ela é..., as dúvidas enviadas por leitores começaram a soar como criações rodriguianas, o que levantava suspeita sobre a existência dessas confidentes. O que significava que, se de fato fossem reais, eram amostras do que ele sempre disse: que falava da vocação trágica de todo e qualquer amor, especialmente os das pessoas comuns.

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