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a novela dá de comer à nossa fome de mentira

a TV como espaço do maravilhoso

Diogo Guedes




autor de quatro telenovelas, Nelson dava de ombros para os intelectuais que viam o gênero como algo menor: para ele, a teledramaturgia era o sonho cotidiano das massas



nelson e a atriz fernanda montenegro: parceria histórica que saiu do teatro e inaugurou a teledramaturgia 100% nacional com a novela A morta sem espelho. A produção, realizada para a TV Rio em 1963 sob encomenda de Walter Clark, trazia o próprio Nelson como narrador da trama
nelson e a atriz fernanda montenegro: parceria histórica que saiu do teatro e inaugurou a teledramaturgia 100% nacional com a novela A morta sem espelho. A produção, realizada para a TV Rio em 1963 sob encomenda de Walter Clark, trazia o próprio Nelson como narrador da trama

"Como é que terminava o capítulo na semana passada?", perguntou Nelson Rodrigues ao amigo, diretor e ator Sérgio Britto. Precisava escrever os roteiros da semana da telenovela, em meio a correria da produção e filmagem. Sérgio lembrou ao dramaturgo o marcante final do episódio: a mocinha dizia uma claríssimo "Não!" para o galã, sem o espectador saber sobre o que falavam. Seguida pelo homem, ela gritara mais uma vez: "Não! NÃO!", e os créditos subiam.  

Com a resposta, Nelson pendurou seu paletó, tirou a gravata e se preparou para sentar na cadeira e começar o novo episódio. Rapidamente, em meio a murmúrios de "hum, não, não...", surgiam na máquina de escrever mais quatro páginas de roteiro. A esperada revelação do assunto, claro, não era imediata: a mocinha continuava a negar o que quer que fosse, sem dar brecha para as tentativas de explicação do galã.

Mesmo com todo esse diálogo, nada acontecia, nada era revelado, mas estava ali um elemento caro da estética rodriguiana: o poder da palavra transformada em fala, do texto que, sem nenhum conteúdo de trama, era carregado da expressão sentimental da cena. 

Mais do que ninguém, Nelson Rodrigues sabia: a TV é um troço transcendente, afrodisíaco (e quem não garante que via os termos até como sinônimos?). "O fato de se estar em contato com oitocentas mil pessoas de uma vez é sério", comentou, na sua entrevista para o Museu da Imagem e do Som. Foi por ser um dos primeiros a enxergar as potencialidades do veículo, sem condicionar isso a um papel pedagógico ou ao aumento do nível da programação, que ele conseguiu inscrever seu nome na história do veículo, não só através das adaptações de sua obra para o teleteatro e para as novelas, mas como autor que pensou trabalhos exclusivamente para a TV. Sua primeira telenovela, A morta sem espelho, com direção de Sérgio Britto e Fernando Torres, além de Paulo Gracindo, Francisco Couco e Rosita Tomáz Lopes no elenco, é considerada o primeiro melodrama televisivo completamente brasileiro – antes, no mínimo os textos vinham de fora do país, de autores como a cubana Glória Magadan.

A teledramaturgia encantava Nelson porque, para ele, a televisão era um fenômeno, um encontro massivo de milhares na década de 1960 – hoje, seria de milhões. Ao contrário de outros intelectuais da época, o dramaturgo gostava da TV exatamente como ela tinha se formatado. Não era um gosto potencial, prescritivo: era um amor genuíno, sem tirar nem pôr, um amor incondicional, desses sobre os quais ele tanto gostava de escrever.

"Todo mundo está discutindo o nível da nossa televisão. 'Baixíssimo', dizem uns; 'Baixíssimo', afirmam outros; 'Baixíssimo', juram terceiros. Não dou um passo sem esbarrar, sem tropeçar num sujeito indignado", ironizava, em 1971. A essa altura, ele já era, claro, um dramaturgo consagrado, um dos cronistas mais lidos do país e até mesmo um teledramaturgo experiente. Como intelectual – e Nelson nunca foi um intelectual comum, disposto a seguir a corrente convencional de criticar o que é popular –, não só admitia que via telenovelas, como também afirmava que mesmo os mais grã-finos assistiam aos programas em segredo, dando audiência até a Chacrinha, esse arquétipo para ele tão eterno quanto os clowns. 

Entendia a telenovela como um gênero conservador, com regras, e seu objetivo era trabalhar a partir do já estabelecido para o espaço, originário do folhetim, antiga paixão sua, que fez não só como Nelson Rodrigues, mas também Suzana Flag e Myrna. "Quando comecei, queria fazer folhetim. Mas folhetim no duro, bem cabeludo, com tesouros, etc... Nunca me deixaram fazer isso, pois eles pediam novelas de costumes. O pessoal querendo intelectualizar o negócio e eu todo a fim de fazer folhetim propriamente dito", argumentava o autor. "Se você quiser elevar o folhetim fica ridículo, atroz. O bom folhetim é isso: fazer coisas tremendas, adúlteras fugindo em carruagens. O folhetim é um gênero imortal, mas como tal." 

Mais do que suas quatro telenovelas, feitas entre 1963 e 1964, Nelson considerava obras-primas do gênero programas como O direito de nascer (1964), mais fiel ao folhetim do que suas próprias incursões no veículo. Dancin' days (1978/79), de Gilberto Braga, mereceu um texto derramado na Revista Manchete, intitulado O beijo na areia de Dancin' days. Ali, ele explicava que o maior mérito dessa telenovela era não ter vergonha do que deveria ser: "A sua qualidade literária, a sua precisão literária quase chegaram a assustar. Muitas vezes tive medo de que a literatura pudesse estragar as virtudes da essência do folhetim". Dizia ainda que o amigo Gilberto Braga havia garantido que o final da novela traria um esperado beijo na boca – a única garantia que faltava para que considerasse a novela perfeita. "Esse beijo em que Dancin' days vai acabar é um momento da eternidade, da carne e da alma", exaltava.

É desses momentos afrodisíacos que a TV parece sobreviver, e era o poder deles que Nelson defendia. Era contra uma programação caríssima que fosse feita para, por exemplo, Marcel Proust dizer que tinha bom gosto. "A novela é sobretudo uma fuga. Como a realidade é muito insatisfatória, a novela representa o sonho cotidiano para muita gente. É um repouso", explicava, defensor da necessidade de catarse daqueles milhares de espectadores, que queriam brigas, exageros e finais felizes. 

E respondia, certeiro como sempre, a quem comparava catarse e alienação. "Você não pode chegar e dizer que aquele cara está chupando chica-bon e isto é uma alienação. Há um momento de se chupar chica-bon sem alienação, há um momento de se jogar bola de gude e peteca sem alienação", disparou certa vez. Ao mesmo tempo, reconhecia que não é só de folhetim, telenovela e fait divers que todos vivem: "Evidentemente se um país só dá O direito de nascer, você tem o direito de botar fogo em tudo".

Como um apaixonado pela TV, Nelson teve uma longa vida nela, para além da sua própria. Mais do que adaptações de suas peças, crônicas e folhetins, foi alguém que se dispôs ao "demérito" – na época, era um acinte um intelectual descer tão baixo ao nível das telenovelas – de escrever para o veículo. Assim, já com a pioneira A morta sem espelho, de 1963, misturava suas obsessões autorais, presentes em peças e crônicas, com as regras do folhetim que também admirava.

A telenovela, com trilha de Vinicius de Morais, arranjada por Baden Powell e cantada por Fernanda Montenegro – também atuando na novela –, foi um grande investimento da TV Rio de Walter Clark. Os capítulos contavam a história de uma mulher adúltera que, como punição por ter traído o marido, não conseguia mais enxergar o próprio reflexo no espelho – um dos destaques era a narração em voice over, feita pelo próprio Nelson Rodrigues. Uma cena específica ficou famosa; nela, o personagem de Ítalo Rossi acordava sua mulher na trama, vivida pela atriz Isabel Tereza, cutucando-a com uma pistola, para dizer friamente: "Acorda para morrer".

A simples menção do nome de Nelson como autor – uma das apostas da novela – foi o que fez a superprodução sofrer com a censura de horário: alegavam que a telenovela ia contra a moral, simplesmente por trazer uma personagem adúltera (quando talvez um problema maior para a moral da época fosse, no entanto, a sugestão de um pano de fundo incestuoso). Prevista para às 19h, foi condenada a passar às 23h, momento de audiência quase nula, ainda mais quando a TV era um artigo de luxo. Dom Helder Camara foi convidado a interceder, mas o máximo que se conseguiu foi o horário das 22h30. Hoje, não existem registros da telenovela, mas ela ainda é reconhecida pela ousadia do investimento, que chegou a possibilitar a construção de um apartamento dentro do estúdio da TV Rio.

No mesmo ano de 1963, já em novembro, produziu outra novela dentro da mesma emissora, esta pouco citada até pelos estudiosos da sua obra. Pouco amor não é amor (uma versão de uma famosa frase de um heterônimo do autor, Myrna, e que mostra a capacidade de Nelson de reaproveitar suas próprias criações) foi assinada com o pseudônimo Verônica Blake e feita novamente com a dupla Fernando Torres (direção) e Sérgio Britto (produção e atuação), que comandaria suas outras produções. Os papéis principais eram vividos por Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Ítalo Rossi, mostrando a história de uma mulher pobre que conhece um fazendeiro viúvo.

Pouco depois, voltou a arriscar um texto televisivo novamente com seu nome, justamente por ter arranjado uma artimanha contra a censura. Para não sofrer com a restrição de horário, criou em 1964 Sonho de amor a partir de O tronco de ipê, livro de José de Alencar. Era uma "adaptação", assim, entre aspas: usando-se de um possível parentesco, sugerido por um elogioso biógrafo de Castelo Branco, entre o presidente militar e o autor de Iracema, Nelson disse que só abriu o romance para copiar os nomes dos personagens, conciliando assim a liberdade para criar com a garantia de que a novela seria exibida às 18h.

Sua última incursão como autor televisivo foi com O desconhecido, ainda no mesmo ano. A telenovela tinha uma premissa simples e eficaz: um louco de guerra escapa de um hospício e passa a mudar o cotidiano de todos os habitantes de uma cidade, em grande parte desconhecidos uns dos outros. Novamente, Sérgio Britto e Fernando Torres dirigiram o texto, que contava com o canastrão Jece Valadão e as atrizes Vera Vianna e Nathalia Timberg. Os novos problemas com o horário e o tema da telenovela fizeram Walter Clark, diretor de programação da TV Rio, vender a imagem de Nelson como um anticomunista e entusiasta da ditadura militar para o chefe de Censura, o general Antônio Bandeira. Depois da argumentação de Clark, o militar até cedeu, contrariado, mas ainda chegou a dizer: "Esse Nelson Rodrigues ainda não me convenceu". Até mesmo nos melodramas televisivos, Nelson continuava sendo esse autor perigoso, que revelava os tabus dos quais ninguém queria se lembrar – mas que todos queriam ver.

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