Nelson, um necessário

Nelson Falcão Rodrigues, pernambucano, recifense, nascido em 23 de agosto de 1912, jornalista, escritor, dramaturgo, gênio que reinventou o teatro brasileiro, autor de obras definitivas como Vestido de noiva, Boca de ouro e A falecida, maior cronista esportivo de sua época, superior até mesmo ao irmão, Mário Filho, considerado o criador do gênero. Nelson Falcão Rodrigues, falecido e pouco pranteado, quase sem deixar saudades, no Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1980, colunista de jornal superado e reacionário, defensor e porta-voz do golpe militar de abril de 1964, carrasco de Dom Helder Câmara, homem que escrevia textos encomendados, lambe-botas da direita fardada que não teve coragem de protestar contra a prisão do próprio filho. Dois conceitos, duas visões antagônicas, duas percepções diferentes sobre o mesmo homem que construiu a redenção para si próprio ao declarar: “toda unanimidade é burra.” Nelson foi um e outro, anjo e demônio, avançado e conservador, querido e odiado, foi uma figura previsível e controversa, com seus amigos, seus inimigos, seus apóstolos e seus detratores. Foi, para o bem e para o mal, uma das personalidades mais marcantes da cultura brasileira, durante, pelo menos, 40 anos do século que passou. “Sou a maior velhice da América Latina”, decretou ele. “Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das múmias”, concluía, ironizando o endeusamento da juventude. Gozava os jovens como gozava “as freiras de minissaia” e os “padres de passeata” na sua cruzada contra os rumos tomados pela Igreja Católica progressista dos anos 60 e 70, cujo expoente mais representativo era o Arcebispo de Olinda e Recife, o citado Dom Helder. Mesmo assim, foi amigo de intelectuais declaradamente esquerdistas, como Carlos Heitor Cony e João Saldanha, para ficar apenas nestes dois, ou de Otto Lara Resende e Armando Nogueira, considerados centristas.

Neste A vida é Nelson, caderno especial que hoje publicamos (textos de nossa premiada repórter Fabiana Moraes, fotos da não menos talentosa Hélia Scheppa e criação gráfica de Karla Tenório), se busca resgatar, à luz da realidade, dos acontecimentos cotidianos, o controverso universo rodriguiano. Quem leu a obra de Nelson ou viu no palco sua produção teatral talvez se surpreenda ao descobrir que existem, na vida real, na “vida como ela é”, personagens mais terríveis que os grandes crápulas, os pais incestuosos, os tantos cretinos, os que se matam e deixam destruição e vácuos. Na cata de personagens que pudessem se enquadrar nesse mundo não imaginado nem mesmo na ficção, a repórter Fabiana Moraes viajou pelo interior de Pernambuco e por outros Estados do NE, foi quase confessora ao escutar dramas íntimos de famílias destroçadas, viu o preconceito escorrer das mãos de pais que achavam seus filhos diferentes, foi obrigada, por questões éticas, a preservar a identidade de alguns entrevistados. Mas, entre um vestido de noiva tingido de sangue no dia do casamento e a vingança premeditada de uma filha tantas vezes abusada pelo próprio pai, ela conseguiu construir, com talento e coragem, uma série de histórias que constrange, surpreende e sufoca, revelando o quanto são tortuosos os descaminhos da vida.

Nesse sentido, a vida de Nelson não seria ela própria uma tragédia? A difícil infância num Rio de Janeiro agressivo e estranho para os que vinham de longe, como era o caso de sua família? O trágico assassinato do irmão e a morte do pai, logo em seguida? A fome, o desemprego, a tuberculose que lhe roubou o segundo irmão, a crítica impiedosa contra um teatro que rompia os grilhões do conservadorismo não teriam ajudado a colocar um pouco de concreto em sua alma? A torná-lo amargo, solitário e ranhento? Quem, de sã consciência, estaria credenciado a julgar com isenção o escritor e o homem? Fabiana Moraes vai além, ao reunir numa peça teatral, que está no miolo do caderno, as venturas e desventuras desse personagem estranho e fascinante chamado Nelson, texto aparentemente ficcional porém focado em fatos absolutamente reais, onde há, sim, espaço para a dor e a lágrima, como existe para o riso e o canto. É a história de Nelson Falcão Rodrigues, pernambucano, nascido nesta cidade do Recife no distante ano de 1912, reconhecido nacionalmente como o maior encenador brasileiro, mas que, na sua própria cidade, batiza apenas uma modesta rua e nenhum minúsculo teatro.

Ivanildo Sampaio