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Fabiana Moraes




Iago nasceu apressado. Não esperou fazer um quilo. Saiu do corpo da mãe quando seus pulmões, olhos, unhas, intestinos e coração eram alguns gramas. Na verdade, tudo em Iago era pouco, muito pouco: no total, o menino tinha 890 gramas quando inaugurou-se entre nós. "Prematuro extremo" seria a primeira classificação que ele receberia na vida. Sua chegada mudou tudo, tudo era antes, e antes eram o pai e a mãe esperando pelo bebê e fazendo as coisas de todo dia. Uma delas: Rennata saía de Caruaru e ia buscar Marlos no aeroporto, em Recife. Passavam, como sempre, a noite na cidade. Mas naquele dia foi diferente: Rennata começou a doer. Voltaram para o agreste e o incômodo foi aumentando. Não devia ser nada demais, mas mesmo assim foram ao hospital. Um remédio para passar a cólica, retornaram para casa, ver filme, jantar, conversar, dormir, as coisas de sempre. Acontece que não era dia de nada demais. A dor aumentou, muito, e, no banheiro, Rennata viu o sangue. Eram três da manhã. Ligaram para um médico, não atendeu, depois outro, atendeu, mandou o casal para um hospital. Era mesmo parto prematuro, o bebê só com cinco meses e meio. Enviaram Rennata para a capital, a criança teria que ir para a UTI neonatal. No dia 27 de março de 2010, às 10h59 da manhã, com apenas 25 semanas na barriga da mãe, Iago chegou. Os pulmões minúsculos receberam corticoides para que amadurecessem artificialmente e recebessem oxigênio. Os olhos, unhas, intestinos, coração cresceriam dentro de uma incubadora durante os próximos seis meses que o menino passaria ali. Quando saiu, quando parecia que seria finalmente a casa, os avós, as visitas, os presentes, voltou em apenas 12 dias. Foram mais quatro meses convivendo com agulhas, médicos, balanças, exames.

O que aconteceu durante esses dez meses quase interruptos entre uma UTI e um quarto de hospital tornam Iago um espanto, uma inspiração, um herói, um incrível, um milagre. Seu corpo minúsculo passou por 12 cirurgias necessárias para adequá-lo à vida. Desde que Iago nasceu, Rennata encerrou a conta com o mundo exterior para dedicar-se ao filho e à espera. Sua casa também passou a ser o hospital, seus amigos os médicos e enfermeiros. A fala tornou-se repleta de termos específicos da medicina. Estava com medo, achou que um bebê tão pequeno não sobreviveria. Ao lado do medo, tinha na mente o casamento de mais de quarenta anos dos pais, os cinco filhos de seus dois irmãos, o tipo de felicidade que queria para ela. Tinha na mente, principalmente, o amor e a confiança de Marlos, seu marido. Ele precisou continuar a trabalhar e ia entre três e quatro vezes por semana até o hospital. Rennata saiu de Caruaru e se instalou no Recife. Trouxe de casa uma pequena parte do enxoval que já estava totalmente comprado: tinha as roupas de saída da maternidade, as mamadeiras, as lembrancinhas para quem fosse visitar seu primeiro filho. Quase tudo se perdeu, já que bebês internados em UTIs vestem-se apenas com fraldas descartáveis, sapatos e luvas.

Chegava ao hospital todos os dias às 7h da manhã e saía às 23h. Estava lá quando Iago passou por cada uma das três cirurgias realizadas no nariz, que, imaturo, não tinha passagem adequada para fazer o bebê respirar. Estava lá quando ele foi submetido a uma cirurgia para correção da retinopatia da prematuridade, que serviu para garantir a saúde da retina. Sem o aparelho digestivo formado, o bebê passou os primeiros meses se alimentando através de uma sonda nasoenteral (do nariz até o duodeno). Com quatro meses de vida, fez uma gastrostomia, uma incisão realizada na altura do estômago, por onde seria mais fácil alimentá-lo. Iago também precisou passar por um procedimento cirúrgico para deter o refluxo gastroentestinal. Tinha 2,8 quilos, então. As várias intervenções obrigaram o bebê a receber sangue semanalmente, às vezes a cada três dias. Rennata e Marlos passaram a buscar continuamente doadores para repor o estoque do banco de sangue. As transfusões eram necessárias por causa da anemia: a medula de Iago era jovem demais para produzir as células sanguíneas na velocidade que ele precisava. O sangue externo tinha outra função: ajudava nas trocas respiratórias. O ar – a falta dele, aliás – era um dos maiores assombros enfrentados. Iago sofreu dezenas de paradas respiratórias, várias em um mesmo dia, no período em que esteve internado. Com o tempo, o maior medo dos pais não eram apenas as paradas, mas a duração de cada uma delas, já que a falta de oxigênio compromete, às vezes de maneira irreversível, o cérebro. Outro temor foram as cinco cirurgias para a colocação de um cateter venoso central: depois de tantos procedimentos, Iago já não possuía veias disponíveis para os medicamentos e as transfusões. Durante quase todo tempo, o bebê estava entubado.

Em várias ocasiões, Rennata se isolava. Não atendia telefonemas, não retornava recados. Preferia se calar: o desgaste, a necessidade de repetir várias vezes o que estava acontecendo, como estava o filho, o que esperar, o que dizer, consumia. Precisava estar inteira para cada nova reação de Iago, do pequeno corpo de Iago, ao mundo exterior. Conseguiu manter-se durante quase todo o tempo. Mas houve um dia que não. Estava chegando para mais um dia de plantão ao lado do filho, lavava os mãos, quando o celular tocou. Pediram sua presença urgente. Rennata foi informada que Iago, tinha só dois meses e o peso caíra para 700 gramas, contraíra uma infecção generalizada, a temida septicemia, quando o sangue é tomado por bactérias. Marlos também foi ao hospital e sentiu o mesmo medo de perder ali seu segundo filho (é pai de uma menina de dez anos, fruto do primeiro casamento). O médico plantonista chamou o casal e, pela primeira vez em dois meses, autorizou os dois a abrir a incubadora e tocar o bebê. Era a licença para uma despedida. Rennata passou um longo tempo acariciando o filho. Saíram dali para passar a noite na sala de espera aguardando a notícia ruim. Pela manhã, o médico retornou. Contou: "Eu não sei explicar como, mas o filho de vocês está vivo".

Depois de passar seis meses na UTI, Iago foi conduzido a um quarto normal. Havia passado o período máximo permitido na terapia intensiva. Estava bem, com cerca de cinco quilos, apesar de ainda se alimentar através da sonda. As paradas respiratórias eram uma realidade, e, por isso, quando o bebê finalmente teve alta, Rennata e Marlos já sabiam realizar a massagem cardiorrespiratória. Também aprenderam a aspirar o nariz o filho, tarefa que era realizada durante várias vezes ao dia. Quando Iago saiu do hospital, não foi para um quarto decorado apenas com motivos infantis: no espaço verde e branco que seria seu segundo lar após o início da vida em um centro médico, foram colocados cilindros de oxigênio, aspiradores nasais, nebulizadores, balanças eletrônicas, chão emborrachado. Era uma reprodução um pouco mais afetuosa do que o lugar asséptico que ele conhecera até então. Acompanhada da mãe, Rennata passou a estabelecer uma rotina. Ela própria fazia a comida do filho, que se alimentava a cada 3 horas através da gastrostomia e dependia de cilindros de oxigênio. "A casa não dormia. Eu não dormia, meu marido muito pouco porque tinha que trabalhar no dia seguinte. Sempre tinha alguém de vigília." Quatro técnicas em enfermagem acompanhavam o garoto, duas durante o dia, duas durante a noite. Todos, técnicos e família, se revezavam no momento de dormir. No 12º dia em casa, durante um banho, em um sábado, o bebê parou de respirar. Uma técnica reanimou a criança. A família, acostumada às várias paradas na UTI, decidiu observar o garoto, sem levá-lo ao hospital. Mas, no domingo, Iago teve outra parada, mais demorada. Sem a companhia da enfermeira que reanimara seu filho no dia anterior, Rennata e Marlos precisaram massagear o bebê. Conseguiram trazê-lo de volta. Não tiveram dúvidas: voltaram para a UTI pediátrica.

No hospital, as paradas respiratórias continuaram, o que levou os médicos a procurarem mais uma vez o médico que havia operado o nariz do bebê – havia a possibilidade de traumas nos dutos nasais por conta das aspirações que eram feitas em casa. Um dos lados do nariz estava obstruído, levando a equipe a decidir por uma nova cirurgia. O otorrinolaringologista sugeriu uma traqueostomia (quando é feito um orifício da tranqueia para passagem de um tubo de ar). Rennata e Marlos não concordaram. "Se tivesse sido feita, provavelmente Iago nunca teria saído do oxigênio e ficaria dependente de hospital-residência para o resto da vida. Para nós, só seria feita se a opção fosse morrer ou fazer." A pediatra que acompanhava Iago, Rosângela Grizzi, também não concordou com o procedimento. Iago seguiu para a sala de cirurgia para realizar a desobstrução no nariz. Duas horas depois, os pais foram informados que a cirurgia estava suspensa: a anestesista tentara mais de 20 vezes encontrar uma veia para aplicar o medicamento, sem sucesso. Seria necessário chamar o cirurgião pediátrico para pegar nova veia central – uma cirurgia antes da cirurgia. Enquanto Iago aguardava uma nova intervenção em seu corpo (estava com cerca de seis quilos), uma neurocirurgiã que visitava um paciente internado no mesmo hospital encontrou a pediatra e perguntou que tipo de problema Iago enfrentava. Falou que seu marido era cirurgião de cabeça e pescoço e podia examinar o bebê, que poderia operá-lo a laser, com bem menos traumas, já que o nariz não precisaria ser cortado. Iago foi transferido para outro hospital e lá foi submetido a mais uma intervenção.

Saiu da sala com duas próteses nasais (semelhantes a tubos dentro do nariz) que impediriam novo fechamento das cavidades. Passaria um ano com elas. "As aspirações agora seriam mais difíceis porque teriam que ser feitas dentro dos tubos e, se fosse feita sem cuidados, causaria traumas no nariz .O tubos poderiam sair durante o processo." Tantas intervenções, indas e vindas, além de um histórico pesadíssimo para um bebê nascido aos cinco meses fizeram com que Iago pegasse outra violenta infecção. Passou a ser tratado com antibióticos e ganhou muito líquido, que deixaram seu corpo totalmente inchado (seu peso subiu quatro quilos). Nesse momento, ele usou uma sonda para urinar: não conseguia expelir o líquido normalmente. Quando o bebê venceu – novamente – as bactérias que tomaram seu organismo, uma pneumologista pediu uma tomografia nos pulmões. Além de uma broncodisplasia, problema comum em crianças que necessitam respirar artificialmente, o laudo detectou uma estenose de veia cava superior, o fechamento de uma das veias do coração.

Um cirurgião vascular viu a estenose e solicitou uma arteriografia. Iago, que estava entubado, precisou fazer nova cirurgia, um balonamento na veia cava, que abriu 80% da passagem. Foram mais 30 dias internado. Nesse período, a família do bebê ficou instalada em um dos apartamentos do hospital a pedido da médica. O estado delicadíssimo da criança não agradou parte dos profissionais que cuidavam dos pacientes. "Tivemos que enfrentar a resistência deles, que não queriam receber um paciente na ala usando oxigênio e sendo aspirado. A maioria dos pacientes vinham do pós-cirúrgico, passavam poucos dias ali. Mas tudo era mais difícil para nós. Sentimos uma certa rejeição porque Iago dava muito problema." Depois de várias semanas ali, depois de festejarem baixinho, no hospital, o Natal e o Ano Novo, depois de um mês vivendo naquele lugar que já se tornara endereço, Iago e seus pais foram para casa. Foi uma despedida memorável: toda a equipe havia se afeiçoado à família. Pediam para que não fossem embora.

Na residência (temporariamente localizada em Recife), ocuparam novamente o quarto-hospital montado anteriormente. Dependiam de muita gente: fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais atendiam Iago duas vezes por dia cada um. Era preciso contar ainda com vários técnicos de enfermagem, alguns deles chegando na casa à noite para enfrentar um terceiro turno de trabalho. "Gente que tinha três empregos e ia praticamente para dormir", conta Rennata. Dois meses depois, ela e Marlos decidiram, com o consentimento da médica, que iam começar a desligar o oxigênio aos poucos - Iago já usava a quantidade mínima. Pouco depois o menino passava todo o dia sem o ar engarrafado, só usando-o à noite. "Depois montei uma vigília e ficava acordada olhando ele para poder desligar o oxigênio também à noite. Em março, ele saiu por completo."

Foram mais 6 meses em Recife. No dia 16 de julho de 2011, a pediatra dispensou toda a estrutura do home care. A família voltou no mesmo dia para Caruaru. Rosângela acompanhou Rennata, Marlos e Iago até a cidade. "Nessa situação, ela não era apenas uma médica pra nós. Transformou-se numa grande amiga e é madrinha de Iago." Toda família foi recepcionar a criança: levaram cartazes, balões. Era uma festa para celebrar o menino. Atualmente, Iago é acompanhado por um pediatra uma vez ao mês ou a cada dois meses. Vai a um oftalmologista uma vez ao ano, outra vez ao cardiologista . Também é atendido uma vez por ano por um neurologista e a cada três meses por um ortopedista. Tem terapeuta ocupacional uma vez por semana, fisioterapeuta duas vezes por semana e fonoaudióloga três vezes por semana. Quase anda, está começando a falar. Grita "Ma!" quando vê Rennata, sorri quando corre para o encontrar o pai. Tem uma energia imensa e, quando sai para passear, quer ganhar o mundo todo. Iago, que nasceu apressado, que muda tudo quando sorri, que é lindo, que é muito danado, é um espanto. É uma inspiração, um herói, um incrível, um milagre. É só olhar para ele que fica fácil explicar. Iago está vivo.