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nenhum homem merece fidelidade, nenhum!

Liberdade para adúlteras fugirem em carruagens

Diogo Guedes




Um homem se prostra aos pés de sua companheira e dispara: “Eu não me ajoelhei diante de ti, mas diante de toda a dor humana”. O momento exagerado bem que podia ser de um melodrama novelesco, mas é de um dos maiores clássicos da literatura universal, Crime e castigo, de Dostoiévski. “Isso é novela da Rádio Nacional, sem prejuízo nenhum para Dostoiévski, sem prejuízo nenhum para Crime e castigo. É de uma beleza absoluta, porque o folhetim não deve nada a ninguém”, Nelson Rodrigues gostava de comentar.

Em um primeiro momento, a crítica literária relegou para segundo plano a produção dos romances-folhetins do autor. Só mais recentemente, principalmente a partir da década de 1990, quando suas peças, crônicas e textos jornalísticos já haviam sido bastante estudados, é que houve uma maior atenção a esse espectro de suas criações.

Segundo a pesquisadora Berta Waldman, a produção folhetinesca feminina de Nelson, por sua natureza comercial, tem características próprias. São narrativas “lacrimogêneas, atadas ao passado, de consumo imediato, sem pretensões estéticas, em que a felicidade é possível, ainda que rara”. E é isso que as difere, para ela, do teatro rodriguiano, sem tantas situações “edulcoradas”.

A historiadora Beatriz Polidori Zechlinski, que analisou a imagem da mulher construída pelo romances-folhetins do autor, concorda que se trata de um trabalho marcado pela preocupação com a popularidade e com a vendagem. “Esses folhetins pretendiam difundir uma determinada perspectiva das relações de gênero e, para tanto, uma voz feminina produzia mais efeito do que uma masculina”, aponta a pesquisadora.

Para ela, os romances-folhetins foram considerados uma literatura “menor” por muito tempo porque se voltavam para um público “desvalorizado”, o feminino. Nesses textos, ainda que supostamente escritos por uma autora, se vê uma mulher frágil, dependente dos homens: “A mulher estava fadada ao amor, que era para Nelson um sentimento trágico e fatal”.

Ter mantido a visão que tinha, como homem, das mulheres – talvez a maior e mais datada das suas idiossincrasias – foi para a historiadora o que o impediu de produzir um olhar feminino na sua obra. “Eu o vejo mantendo os olhos do homem que ele era, com uma capacidade imensa de compreender as angústias, os medos e os desejos das pessoas”, aponta.

Para Caco Coelho, dramaturgo e pesquisador da obra de Nelson Rodrigues, responsável pela organização de diversos livros inéditos do autor, ao contrário do que a crítica costuma fazer, não se deve falar em folhetins, mas sim de romances publicados em formato de folhetim. “Essas obras de Nelson são folhetins no mesmo sentido que Dostoiévski, é. Ter sido publicado de forma seriada não significa que foi feito assim”, aponta. Segundo ele, mesmo Meu destino é pecar foi finalizado e publicado em livro antes do seu fim no jornal.

É uma tese que contradiz a famosa biografia de Ruy Castro, O anjo pornográfico, e até algumas declarações apaixonadas de Nelson sobre o formato – “Gosto muito de escrever folhetim e queria ter mais liberdade”, dizia sobre sua produção como Suzana Flag. Coelho até vê alguns traços do folhetim em toda a obra de Nelson, mas defende que ele as pensava como romances, tanto que as classificou assim no fim da sua vida.

Segundo ele, ainda, os primeiros romances-folhetins de Nelson marcam uma transição importante na sua obra. Depois de A mulher sem pecado e Vestido de noiva, peças urbanas, nas narrativas de Suzana Flag o autor pernambucano sai das capitais litorâneas. “Ele vai levar o enredo para o interior, para as casas-grandes em que personagens convivem juntos, em tensão. É por isso que a crítica estranha a diferença de Álbum de família, também distante do litoral, para as peças anteriores: os romances foram a transição", argumenta Coelho.

Coelho diz ainda que há um Nelson mais feminino nos seus romances-folhetins. “Ele se entregava à alma feminina. Isso só era possível diante da identificação que ele causa às mulheres pela assinatura. Ele escreveu como Suzana Flag e Myrna para se esconder, mas não por vergonha. Fez isso para poder dizer coisas que ele não poderia dizer se fosse homem”, descreve. Para o dramaturgo, ainda que Nelson dissesse que se tratava de um gênero de concessão, havia, na verdade, uma transgressão ali: “Ele expôs, como mulher, o desejo da mulher, mostrando como isso faz parte da alma feminina”.

Waldman também destaca que essa parte da produção de Nelson não é isolada do restante da sua obra. A pesquisadora enxerga que os romances-folhetins não são estanques em si mesmos, possuindo relações com o teatro, a partir de uma maior disciplina e contenção, e com as crônicas do autor, a partir da eliminação da alguns dos seus “devaneios excessivos”. São textos mercadológicos, sim, mas que expõem as mazelas da sociedade brasileira principalmente pela decadência dos seus valores. “E ele faz tudo isso revolvendo o lado ‘escuro’ em nós, indicando sua atração pelas formas como essa mesma sociedade lida com o interdito”, conclui a acadêmica.

Se ainda hoje os romances-folhetins femininos de Nelson são capazes de provocar leituras e análises diferentes, talvez ainda falte muito a ser encontrado naqueles enredos sentimentais e emaranhados. Foi a necessidade de se separar da sua obra “séria” que gerou os heterônimos, mas o dramaturgo nunca os negou e sempre admitiu a validade deles, inclusive como folhetim. “Se você quiser elevar o folhetim, fica ridículo, atroz. O bom folhetim é isso: fazer coisas tremendas, adúlteras fugindo em carruagens”, defendia. “O folhetim é um gênero imortal”.