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um cronista apaixonado havia de retocar o fato

Às notícias, acrescentava passarinhos

Fabiana Moraes




Um dos maiores jornalistas do País, Nelson acreditava que a imaginação não deveria curvar-se ao fato: a vida nunca se encaixaria no gesso da objetividade.


Nelson olhava abismado e desconfiado para o copy-desk, aquele que tratava com precisão cirúrgica os textos dos repórteres, aquele que matava pássaros em nome da veracidade. Os melhores jornalistas, sabia, não podiam deixar de mentir.
Nelson olhava abismado e desconfiado para o copy-desk, aquele que tratava com precisão cirúrgica os textos dos repórteres, aquele que matava pássaros em nome da veracidade. Os melhores jornalistas, sabia, não podiam deixar de mentir.

Nelson, jornalista, 1928: Um açougueiro sentimental – agredido a faca quando recitava Baudelaire. O Manoel estava, ontem, sacudido de exaltações frenéticas (...). Embora fosse açougueiro, isso não o impedia de ser um sentimental, um romântico, um artista (...). O homem foi para o Mangue. Ali chegando, começou a enviar a toda figura feminina que lhe passava ao lado ou à frente um exame meticuloso e penetrante. Chegava ao mais aceso da pesquisa, quando apareceu a figura adequada. Então, Manoel, garboso, elegante, ativo, mostrando a alvura cintilante dos dentes, recitou ao anjo de ternura uma multidão de versos Fleur du Mal de Baudelaire. A doce figurinha, que era uma mulata reforçada, dispôs-se a ficar melancólica. Quando, porém, já ia suspirar e fitar o ocaso, apareceu-lhe o "coronel", temível capoeira. O homenzinho apareceu no momento em que Manoel gemia Baudelaire. Vendo o sedutor da pequena, ele se encheu de ira. Ficou terrível. E não conversou... Puxou de uma faca e feriu, no peito, o sentimental açougueiro. Ato contínuo evadiu-se. Reclamada a assistência, esta socorreu a vítima que é Manoel Ferreira da Silva, português, residente na praça da Igrejinha. O palco do drama foi a rua General Pedra, esquina do Carmo Netto (A Manhã, Rio de Janeiro)

Eduardo, jornalista, 2012: Homem é agredido a faca no Centro do Rio. O açougueiro Manoel Ferreira da Silva, idade desconhecida, foi agredido a faca, ontem, na Rua General Pedra, no Centro. De acordo com testemunhas, o autor do crime, conhecido como “Coronel”, desferiu um golpe no peito do açougueiro ao vê-lo recitar um poema para sua namorada, que preferiu não se identificar. O suposto agressor fugiu do local do crime e a vítima está hospitalizada, mas não corre risco de morte.

A síntese não perdoou. Saiu atropelando tudo pela frente, de acordo com a nova ordem que dizia: sejam objetivos, nada mais que objetivos, simplesmente objetivos. Não deu bola para a candura da mocinha, o olho flamejante do assassino, as lágrimas de esguicho, o amargo da traição, a raiva que termina em sonoro tabefe. No Brasil dos anos 50 e 60, ela tomou conta do jornal. Foi quando a manchete começou a humilhar a catástrofe. Nelson Rodrigues não se conformava com aquela maneira seca, cream cracker, de relatar a realidade: é claro que ela nunca seria objetiva. Desde os anos 20 passeando por várias redações, escrevendo com as tripas mesmo quando bastava só a letra, ele se horrorizou com a tremenda pretensão nascida nos EUA e adotada pelo jornalismo nacional: relatar a Verdade, nada mais que a Verdade, simplesmente a Verdade. Deu o troco: criou os “idiotas da objetividade”.

Nelson, que aos 13 anos entrava pela primeira vez em uma redação (há quem diga que foi aos 15), nunca aceitou a imprensa comedida que passara a ter um modelo único de embalar a notícia, este bicho feroz demais para ser engessado em o quê, quem, como, quando, onde e por quê. Não dava. Primeiro: como é que a vida poderia ser explicada em seis perguntas? Segundo: quem disse que os leitores queriam aquela síntese toda? Terceiro: como era possível encaixar uma necessária emoção naquele gesso impresso? Logo ele, que cresceu com a máquina de escrever matracando no seu ouvido, na casa onde tudo era jornal. Entendeu com Mário Pai, sua grande fonte, o que o leitor queria, o que seria lido por todo mundo, a notícia que, espremida, vertia emoção. Para o menino foi facílimo: percebeu que gostavam de ler tudo aquilo o que ele gostava de escrever. Ciúme, dor, desespero, encanto, amor, dúvida. Bofetões e tabefes. Lição tomada, dirigiu-se ao jornal.

Chegou na redação de A Manhã em dezembro de 1925 e logo estava realizando a cobertura policial. Era um Rio de Janeiro onde predominavam não traficantes equipados com insuperáveis armas federais, mas casais suicidas munidos de literários frascos de veneno. Nelson, que via uma ópera em cada morte, era o rapaz perfeito para escrever sobre aquele ambiente. Não se fez de rogado: “um dia, ao pé de uma árvore, cuja sombra excitante abençoava nosso amor, num aluvião de beijos, ele venceu meus escrúpulos, o clamor de minhas virtudes, e possuiu-me inteiramente” (A Manhã, 1/3/1928); “Apaixonou-se doidamente por aquele tipo de homem forte, másculo, atlético, que vira pela primeira vez em um baile de um clube de regatas” (o título da matéria: “O desfecho de sangue e desespero da manhã de ontem fixa a tragédia de um amor que culminou em uma rajada de ódio e loucura” - Crítica, 8/6/1929). Era assim que Nelson e seus pares escreviam nos dois citados jornais, ambos de Mário, diários que tiveram vida curta, mas sacudiram o Rio. O público leitor era, apesar de um Brasil bem menos escolarizado, absurdo: Crítica chegou a vender 310 mil exemplares nas bancas. Uma incrível plataforma para que Nelson iniciasse uma carreira que sempre foi marcada pelo imensamente popular.

Influenciado pelo folhetim (A Manhã publicou Crime e castigo, de Dostoiévski, com grande sucesso), ele continuou fiel à sua forma de escrever, hiperdramática e repleta de “palavras vivas, úmidas de rua, suadas de cotidiano, paixão e morte”, até o fim. Não era sempre, porém, que a realidade conseguia dar conta do apetite de Nelson para o drama. Nesse caso, não fazia concessões: criava o que iria tornar o acontecimento digno de assim ser chamado. Na crônica O passarinho, publicada na revista Manchete em 31 de março de 1956, ele fala da matéria na qual um repórter (mais tarde diria seu nome: Castelar de Carvalho), ao cobrir um simples incêndio, acrescentou um imaginário passarinho entre as labaredas. Enquanto o fogo destruía a casa, o pássaro cantava, cada vez mais alto, sem chance de escapar das chamas. O repórter dava cabo da mediocridade do fato com aquele animal que rendeu manchete: “Morreu cantando”. “Infelizmente, o passarinho foi substituído pela veracidade. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”, lamentou Nelson, para quem o fato em si mesmo valia pouco ou nada. “O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação.”

O escritor e encenador Caco Coelho, que realizou uma robusta pesquisa sobre os primeiros anos de NR como jornalista (entre 1928 e 1935, tempo em que ele trabalhou, além de em A Manhã e Crítica, em O Globo), catalogou 650 matérias do período. Nelas, o rocambolesco e a tragédia são sempre os eixos principais, sempre contados com floreios e alaridos. “Nelson não via dessemelhança nenhuma entre literatura e jornalismo”, observa o autor de O baú de Nelson Rodrigues(esgotado no Brasil). “A reportagem policial permitiu o devaneio que sempre lhe foi necessário, mesmo versando sobre o crime”, escreve. Autor de Nelson Rodrigues - Inventário ilustrado e recepção crítica comentada dos escritos do Anjo Pornográfico, o professor Marcos Pedrosa sintetiza: “Nelson é de um tempo no qual a imaginação era fundamental”. Ele percebe que o autor foi um dos principais responsáveis, no Brasil, pela difusão do folhetim, gênero discursivo de origem francesa. Aqui, no entanto, deu-lhe contornos particulares – o que aconteceu também no caso do conto. “Ele ficava bastante à vontade para extrapolar os limites da realidade e da ficção.” O autor não exercia seu exuberante imaginário apenas nas matérias policiais: também mostrava enorme desenvoltura criativa quando escrevia sobre cultura. Sua sensibilidade, que engolia o mundo, trazia para o papel não apenas a análise da produção artística de determinado autor, mas uma leitura dotada de certa transcendência, esta necessária para dar vazão ao seu vigor dramático. Um bom exemplo é o texto publicado no dia 13 de junho de 1933, nas páginas 5 e 6 de O Globo nas Letras, onde ele comenta a poesia da uruguaia Juana de Ibarborou: “As suas cores têm nostalgias, sonhos, lirismos, delíquios. Os seus coloridos dão a ideia de que sangram, esplendem, riem. Impõe a uma só cor, um movimento de gradações infinitas. Há nos seus versos o lampejo terrível de opalas cindidas. O seu azul e singrado de nuanças como a pupila de um tigre.” Estava, é claro, apaixonado pela moça.

DEFINA REALIDADE

Foi no Ultima Hora, o mítico jornal de Samuel Wainer, que o Nelson alimentador de passarinhos mesclou de uma vez por todas a carne da realidade com o onírico da ficção: em tese, A vida como ela é... deveria ser uma coluna na qual o jornalista comentaria as notícias publicadas pelo diário daquele dia, um pedido vindo do próprio Wainer ao seu estrelado repórter (nos anos 50, já respeitado e odiado dramaturgo). A primeira história comentada por Nelson, que trabalhou no diário entre 1951 e 1961, falava de um terrível acidente de avião que matara um casal em plena lua de mel. Wainer sugeriu o título: Atire a primeira pedra. Uma versão diz que Nelson, com suas inseparáveis reticências, achou melhor A vida como ela é..., enquanto outra dá conta de que foi o próprio Samuel quem sugeriu o famoso título. A realidade (esse mito) só serviu ao autor nos dois primeiros dias da coluna: no terceiro, deixou-a meio de lado e começou a criar o real a partir de sua própria imaginação (que também se alimentava, é claro, da carne do real). Iniciou uma saraivada de contos cuja estrutura era quase sempre a mesma, a do triângulo amoroso (um de seus participantes, é claro, não sabia que o integrava): assim nasceram Arlete-Moacir-Escobar, Ieda-Menezes-Meireles, Rosinha-Agenor-Marcondes. Da cabeça fabulosa de Nelson saíam histórias que terminavam de maneira invariavelmente trágica: traição, bala, veneno, cemitério, suicídio. Tinha gente que achava um exagero aquele sangue todo e chegava para Nelson reclamando. “Por que você não escreve sobre pessoas normais?”, perguntaram certa vez a Nelson, que se defendia dizendo simplesmente que não tinha culpa de “a vida ser como ela é” (ainda que aquela vida fosse recriada e retocada na sua imaginação). As crônicas diárias transformaram definitivamente o jornalista e dramaturgo em celebridade: enquanto elevava as vendas do Última Hora, ele ia sendo reconhecido em cada esquina. Adorava tudo aquilo, apesar de continuar sem um tostão.

Em meio a críticas e glórias, não perguntaram a Nelson de onde diabos afinal vinha aquela fixação sensacional por sangue e dor. O fato é que o mundo triste e sem possibilidades de felicidade era algo inescapável para o filho de Mário e Maria Esther. Essa perspectiva o afetava de maneira singular: declarava sentir-se mal quando estava alegre, porque a alegria era algo surreal demais para ser sentida em um mundo repleto de cacos de vidro no chão. Uma cena em particular o marcou terrivelmente e sintetizava seu comprometimento com a tristeza mais profunda: um dia, em uma emergência hospitalar, viu um garoto chorando pus. Nunca superou: “viva eu cem, duzentos, trezentos anos e terei comigo, cravada em mim, essa lágrima espantosa. Durante meses, tive vergonha de minha alegria, remorso do meu riso, horror de minhas lágrimas normais e apresentáveis. Por vezes penso: rir num mundo tristíssimo é o mesmo que, num velório, acender o cigarro na chama de um círio”. Impossível não dar razão a este senhor.

Além de A vida como ela é... (quase duas mil crônicas em dez anos), Ultima Hora ainda publicou matérias de um Nelson Rodrigues repórter especial. Eram matérias maiores e repletas de entrevistas cujo conteúdo era publicado em forma de diálogo, uma novidade para aquele momento. Na edição de 16 de julho de 1951, por exemplo, ele acompanhou durante toda a noite um carro da rádio-patrulha, serviço pelo qual “o carioca estava completamente apaixonado”. A abertura do texto é uma pequena grande aula: “Primeiro houve o namoro da cidade com a Radio Patrulha. Nós a conhecíamos do cinema. E quando ela se inaugurou entre nós, não houve nenhum esforço de assimilação. Era como se os carros e as respectivas antenas se transferissem, diretamente, da tela para a realidade carioca. E foi um amor, uma paixão, um exagero. Qualquer coisinha chamavam a Radio-Patrulha. Brigas de família, discussões e até parto davam margem ao chamado. E os carros apareciam instantaneamente, de uma maneira quase surrealista. Mas essa prodigiosa eficiência não durou muito. A RP começou a falhar. Às vezes não atendia, ou custava a atender. Até que chegou o momento em que passou a ser um espectro de si mesma”. Além do diário de Samuel (que ficou irado quando Nelson usou o nome de um dos seus repórteres, Amado Ribeiro, para batizar um repórter sem escrúpulos em Boca de ouro), Nelson ainda escreveu pérolas de igual quilate nas redações de O Jornal, Flan, Jornal dos Sports, Diário da Noite, Correio da Manhã; nas revistas O Cruzeiro, A Cigarra, Manchete Esportiva, Manchete, Fatos e Fotos, Realidade (e ainda em publicações como Para Todos e Brasil em Marcha). Apesar dessa imensa produção, dessa imensa imaginação, dessa imensa vocação para o trabalho, o jornalista, cronista e dramaturgo não é reconhecido mais profícuo autor daquilo o que se convencionou a chamar de jornalismo literário no Brasil. Ou cita-se apenas o grande José Hamilton Ribeiro ou vai-se aos EUA lembrar de Truman Capote e Gay Talese. Talvez por isso nos faltem tantos passarinhos.

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