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o ser humano é o único que se falsifica

hoje há muito mais idiotas

Fabiana Moraes



Charge por Miguel Falcão
Charge por Miguel Falcão

Na crônica Relâmpagos de curto-circuito, escrita em 1974 (publicada em O reacionário), Nelson Rodrigues realiza uma de suas mais conhecidas defesas por um jornalismo baseado na imaginação. Diz: "Não sei de vocês se lembram do meu ponto de vista. Baseado em toda a minha experiência jornalística, sustento que nada mais falso, nada mais apócrifo, nada mais cínico do que a entrevista verdadeira. Por outras palavras, a entrevista verdadeira é uma sucessão de poses e de máscaras. Ao passo que a 'entrevista imaginária', pelo fato de ser imaginária e irresponsável, não mente jamais. E o leitor fica sabendo de tudo o que o entrevistado pensa, sente e não diz, nem a muque."

Pensando nisso, convidamos oito conhecedores da obra rodriguiana para aqui responderem a perguntas feitas a um Nelson imaginário que estaria vivendo no Brasil de 2012. São eles: o escritor e jornalista Ruy Castro (autor de O anjo pornográfico); o escritor e encenador Caco Coelho (que dirigiu este ano Vestido de noiva); o jornalista Geneton Moraes Neto (autor de uma inesquecível entrevista com o dramaturgo); o encenador e escritor Antônio Cadengue (já levou aos palcos Valsa N.6 e Perdoa-me por me traíres); a antropóloga Adriana Facina (autora de Santos e canalhas - uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues); Fátima Saadi (pesquisadora do Teatro do Pequeno Gesto, organizadora do Dossiê Nelson Rodrigues); José Martins Endoença (analisou os aspectos raciais de Anjo negro); e Nelson Baskerville (ator, diretor de 17x Nelson- O inferno de todos nós). A seguir, a provocação de um autor que, enquanto houver um único brasileiro, não deixará de estar entre nós.

Jornal do Commercio - Quem é o senhor? Um santo, um canalha, um tarado, um gênio, um reacionário?

Nelson- Nem santo, nem canalha, nem gênio, nem reacionário. Sou um gauche na vida, rezando para que não me entendam tão depressa depois de minha morte. Talvez seja um tarado, naquela acepção de "ato ou efeito de tarar ('gostar', 'desejar', 'comportar-se)". Gosto de amar o amor e a morte, desejo que o futebol seja uma arte maior que todas as outras e comporto-me, a cada saudade do Recife, como uma criança que sente o gosto de pitanga... e o cheiro do mar, proustianamente.

Jornal do Commercio - Os cursos de jornalismo costumam citar autores como Gay Talese ou Truman Capote quando abordam a questão do jornalismo literário. Do Brasil, surge invariavelmente a figura de José Hamilton Ribeiro. O que o senhor, que tem uma produção respeitável na área (sua estilização de fatos reais em matérias é tema de vários trabalhos), pensa sobre isso?

Nelson- Os jornalistas, como se sabe, são escravos destes monstros que dominam todos os nossos passos, desde a mais remota infância: os Fatos. Pobres jornalistas. Sempre digo: os Fatos, sozinhos, em estado bruto, são uma boa droga. Não significam quase nada. Quando, no entanto, olhamos os Fatos com os olhos de nossa imaginação, eles imediatamente são banhados por uma aura sagrada. Ganham força e significado. Podem, até, merecer a graça suprema de uma manchete. Mas estou delirando. Porque a vida real será sempre dominada pela Ditadura dos Fatos, não pela imaginação. E assim será, até que o brilho da última estrela se apague. O território da imaginação é outro, só acessível a um punhado de escolhidos – entre os quais, por um acaso que jamais pude entender nem explicar, tive a ventura de me incluir. Eu, o fantasma de Nelson Falcão Rodrigues, o verdadeiro e os falsos, o original e as pálidas cópias; eu, a Flor da Obsessão, o Inimigo Declarado dos Fatos, o Parceiro Inarredável da Imaginação.

Jornal do Commercio - O senhor já se envolveu em diversas polêmicas após publicar opiniões não muito suaves a respeito de várias personalidades ou movimentos. O que acha do tom extremamente moderado praticado pela imprensa atual, principalmente naquele voltado para a área cultural? Há medo de desagradar leitores, entrevistados ou o senhor acredita que os jornalistas estão mais medrosos?

Nelson- A maior parte das entrevistas que leio nos jornais ou vejo nas tevês provoca uma reação física em mim: instalo-me no primeiro meio-fio disponível, escondo meu rosto cansado sob as palmas das mãos e verto lágrimas de esguicho, lágrimas de esguicho, lágrimas de esguicho. Porque não são entrevistas: são conversas de comadres. E jamais houve uma conversa de comadre capaz de produzir algo que vale ouro no jornalismo: uma mísera revelação. Diante deste quadro, um profundo abatimento me mantém estático, no meio-fio. Falta-me ânimo e disposição para encarar os burocratas das redações e tentar dizer a eles que só uma coisa salva o jornalismo, este pobre escravo dos Fatos: a capacidade de fazer revelações aos leitores; produzir cintilações, brilhos, reverberações. Entrevista é instrumento de prospecção – não de congratulação. Eu poderia, agora, subir num banquinho imaginário e fazer um comício para uma plateia de fantasmas, em defesa do que acho que seja o jornalismo. Mas estou tecnicamente cansado. Além de tudo, quando olho ao redor já não vejo quase ninguém. Ouço uma voz rouca repetindo Bob Dylan: "Seus guerreiros/desarmados/não vão mais lutar". Um dia, quem sabe, me sobrará força para erguer minha bandeira esfarrapada. Mas, até lá, recolho-me ao meu silêncio de pedra, acomodo-me no meio-fio do jornalismo e, de repente, ei-la de novo, a torrente de lágrimas banhando o asfalto da minha velha desilusão.

Jornal do Commercio - Nosso complexo de vira-lata é eterno ou sermos cortejados atualmente como uma potência mundial pode atenuar tal sentimento?

Nelson- O Brasil é vaidoso, gosta de ser cortejado. Mas quem não gosta?

Jornal do Commercio - Em vez de engessar notícias no modelo o quê/como/quando/onde, passamos a engessá-las em 140 caracteres, usando redes sociais. Estamos mais objetivos e consequentemente mais idiotas?

Nelson- Há muito mais idiotas hoje do que em qualquer época. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor.

Jornal do Commercio - Para o senhor, que sempre combateu aquilo o que se constitui em verdadeiro establishment da esquerda nacional, como pensar na ascensão e permanência (de no mínimo 12 anos) do Partido dos Trabalhadores (fundado em 1980, ano de sua morte) no País?

Nelson- Bem, se foi fundado no ano da minha morte, não é responsabilidade minha. A questão é um pouco mais profunda. Em primeiríssimo lugar, sou um reacionário porque defendo a liberdade individual. Eu tinha uma certeza batata de que com o tempo as pessoas entenderiam a dialética da frase. Mas não. O tempo passou e o que se viu foi o empobrecimento – se é que isto ainda era possível – mas o empobrecimento deliberado da cultura nacional. Hoje, somos muito mais americanos do que brasileiros. O que é de deixar de quatro qualquer cidadão é ver um partido dito dos trabalhadores governando enquanto o lucro é dos banqueiros. O que vejo, dessa privilegiada distância, é que a chegada da dita esquerda ao poder, teve que, para que fosse possível a sua chegada, esquecer princípios básicos, como por exemplo, a honestidade. O Brasil segue sendo, e cada vez mais, muito impopular no Brasil.

Jornal do Commercio - O senhor afirmou que, para ser purificadora, a ficção precisa ser atroz: "para salvar a plateia, é preciso encher o palco de assassinos, adúlteros, insanos". Há, neste caso, uma intenção sua em purificar a plateia? O horror de uma realidade pelo senhor exposta e dilatada pode nos tornar menos canalhas?

Nelson- A canalhice é inerente ao ser humano e a única maneira do homem se salvar de sua própria canalhice é encará-la de frente, assumi-la até o último fio de cabelo. Nada mais canalha do que aquele que proclama-se santo, esfregando na cara de quem quiser ver sua pureza pornográfica e tão pouco humana. Me acusam de tarado, mas o verdadeiro tarado é aquele que esconde até para si mesmo suas inconfessáveis perversões. Por isso meu teatro é desagradável. Ele expõe no palco aquilo que se quer a todo custo esconder. Só assim nos tornaremos verdadeiramente humanos. Só assim poderemos ser salvos de nós mesmos.

Jornal do Commercio - Quando o senhor começou a escrever peças, em 1941, o teatro carioca estava dominado por comédias de costumes e dramas de baixa intensidade, com Procópio Ferreira, Jaime Costa e Dulcina de Moraes como grandes astros. As peças ficavam no máximo três semanas em cartaz. Hoje, o teatro é em parte ainda dominado pela comédia – e de costumes –, com a classe média e as relações amorosas como dois grandes focos de interesse. Como vê esse panorama, essa fiel relação entre a produção teatral nacional e a obrigatória gargalhada?

Nelson- No meu exagero, dividia os nossos autores em duas classes, a saber, a dos falsos profundos e a dos patetas. Esta última sempre me pareceu a melhor, a mais simpática. Outra coisa: talvez o tempo e nós mesmos pareçamos muito diferentes. Mas somos?

Jornal do Commercio - O senhor é possivelmente o dramaturgo mais encenado do País, frequentemente relacionado à palavra "gênio". Para quem viu vários de seus textos serem proibidos e outros tantos trabalhos serem vaiados, qual a sensação de ter se tornado, ora veja só, uma unanimidade?

Nelson- Pelo amor de Deus, não me entendam tão depressa! E se me entenderem, não estejam todos de acordo. Aliás, o que sucede é que a verdadeira obra de arte desagrada, suscita perplexidades, faz nascer interrogações, exaspera nossas dúvidas e ajuda a descrer da felicidade humana. Por favor, poupem-me da unanimidade!

Jornal do Commercio - "Nelson usa os clichês sociais para diminuir o preconceito", disse Abdias Nascimento, criador do Teatro Experimental do Negro. No momento em que o senhor estava montando suas peças, percebeu que havia racismo nos palcos brasileiros, chegando a dizer que até mesmo negros nos palcos eram interpretados por atores brancos maquiados. "Artistas de cor fazem moleques gaiatos, carregam bandejas ou ficam de fora", afirmou o senhor. Na sua opinião, passadas algumas décadas, a situação do artista negro no Brasil, não apenas o ator, teve mudanças significativas ou o espaço para estes profissionais continua a ser negado?

Nelson- Negros – escritores, atores, artistas plásticos – se ressentem de espaços mais amplos e mais democráticos para seu envolvimento no mundo da produção e da recepção de artigos artísticos. De modo geral, pode-se dizer que o Brasil ainda não sabe o que fazer com a sua população negra e o mundo das artes brasileiras desconhece ou ignora olimpicamente o valor artístico do negro. Os bons artistas negros estão aí, no cinema, teatro, literatura, novelas televisivas, e todas outras artes. Os temas negros também. Porém, temas e artistas não se acoplam, parecem desconectados. Às vezes, o tema é negro, mas o artista não é. Quando o artista não tem a cor negra o tema claudica, perdendo a nuance negra. Quando isso acontece, motivado por desconhecimento ou desprezo pela vida cultural afro-brasileira, então estamos na presença do preconceito racial mais devastador para o segmento atingido e desvalorizado.

Jornal do Commercio - O senhor já falou que Abdias Nascimento é o único negro do Brasil e reclamou, como já citamos, que os negros não possuem espaço nos palcos brasileiros. Mas a sua encenação de Anjo Negro trouxe um ator branco (Orlando Guy) com o rosto pintado de preto. Porque o senhor aceitou tal fato?

Nelson- Criatura, não me aborreça com isso, já respondi inúmeras vezes. O Teatro Municipal não aceitou um negro como protagonista. Não havia hipótese. E eu nunca entendi como um país de negros poderia vetar um negro para um papel. Mas tempo haverá em que isso vai terminar e verei um negro ocupando a cadeira da presidência da república ou, por que não, de um Supremo Tribunal Federal. Mas falando da atualidade, acho uma besteira hedionda o atual sistema de cotas imposto pelo governo. A escola tem que melhorar. O professor tem que ser melhor preparado e poder tem que dar maior importância para educação e cultura. O problema do Brasil não é a cor da pele, é a cor da incompetência.

Jornal do Commercio - O senhor também tornou-se popular na TV. suas novelas, no entanto, tiveram duração curta por conta das temáticas consideradas fortes demais. Acredita que estaria escrevendo teledramaturgia nos dias de hoje ou nossa TV continua a prezar por assuntos de baixa profundidade?

Nelson- A televisão continua burra como na época em que eu escrevia. Ou por outra, piorou muito.