Entrevista com Sebastião Milaré

O crítico e teórico Sebastião Milaré, especialista na obra de Antunes Filho, fala sobre a relação entre o encenador e Nelson Rodrigues, focando Vestido de noiva, peça que Antunes levou para a televisão em 1974 e adaptou para o formato teleteatro.

Jornal do Commercio - Qual é a importância dos textos de Nelson Rodrigues para a trajetória teatral de Antunes Filho? É algo que vai além das peças rodriguianas que ele encenou?

Milaré- Antunes sempre colocou Nelson Rodrigues ao lado de Shakespeare. Creio que ninguém mergulhou tão profundamente no universo rodriguiano quanto Antunes Filho. Ali nas profundezas não encontrava as trevas, mas as luzes de imenso entendimento do ser humano; não encontrava mistérios ou anedotas, mas insólitas revelações da condição humana. Por isso se recusava a admitir serem essas obras simples “comédias de costumes”. Não ficava na superfície, onde há a aparência do prosaico, insinuações de vulgar erotismo, ia lá no fundo, onde essas aparências e insinuações se revelam dados metafísicos. Isso desde a sua primeira abordagem, que foi a encenação de A falecida, com alunos da EAD-Escola de Arte Dramática, em 1965. Tinha início, nessa montagem, o absoluto despojamento da cena, para que o ator constituísse apenas com corpo, voz e sensibilidade o poema cênico. Eram os primeiros passos na pesquisa que, décadas depois, resultaria em método para o ator. Independente de encenações de obras rodriguianas, Nelson Rodrigues sempre esteve presente, de uma ou de outra maneira, nas prospecções estéticas de Antunes.

Jornal do Commercio - O que há de específico na relação artística entre Nelson e Antunes? O que há de único nas encenações de Antunes?

Milaré- Seus gênios poéticos se encontram e se confundem em muitos aspectos, especialmente na maneira de ver o homem como um ser precário, mas portador de faíscas divinas e sempre em busca da salvação, mesmo pelos caminhos mais tortos. Confluem também na ideia de que o teatro pode ser até desagradável, corrosivo, jamais bonitinho ou digestivo. O que há de único nas encenações de Antunes, em se tratando de Nelson, é a riqueza de estilos. Embora as encenações estejam elaboradas no plano do inconsciente coletivo, isso não lhes determina o estilo. As três montagens apresentadas de A falecida, por exemplo, são absoluta e radicalmente diversas em termos de estilo, parecem até textos diferentes, embora conduzidas pelo mesmo raciocínio e chegando às mesmas conclusões. Parece-me que, com tal procedimento, Antunes quer demonstrar que a obra de Nelson Rodrigues, se bem entendida e assimilada, desafia convenções e estilos, mantendo-se potente.

Jornal do Commercio -Como era a relação entre eles? Nelson dizia algo das montagens de Antunes?

Milaré- Certamente foram raros os encontros entre eles. A única montagem de obra sua, feita por Antunes, que Nelson viu, foi o Bonitinha, mas ordinária, em 1973. Embora tenha sido a mais débil incursão de Antunes no universo rodriguiano, a obra entusiasmou o poeta. E muito. Ao ponto de garantir ao diretor liberdade total na encenação de seus textos. Fato que estimulou Antunes, depois de constituído o Grupo Macunaíma e já iniciado o processo de investigação profunda na arte do ator, a juntar vários textos de Nelson em um só espetáculo, o Nelson Rodrigues – o eterno retorno (1981). A demorada pesquisa do grupo sobre a obra de Nelson teve sua total cooperação. A então assistente de Antunes, Leonor Chaves Sprenger, foi várias vezes recebida por Nelson em sua casa nesse processo de levantamento de dados. Foi com esse espetáculo que Antunes começou a criação baseada na psicologia analítica, lidando diretamente com os arquétipos e o inconsciente coletivo, conforme Jung, que tem primordial importância em toda a sua teoria cênica e na sua concepção da arte do ator. Infelizmente o espetáculo não foi visto por Nelson, pois estreou cerca de seis meses após a sua morte. Mas foi a peça que revelou potencialidades da obra de Nelson Rodrigues até então desconhecidas.

Jornal do Commercio - Antunes também teve uma participação importante na trajetória de Nelson na TV, tendo montado Vestido de noiva para o formato do teleteatro. Quais são as especificidades dessa obra? Nelson chegou a comentar algo dessa montagem televisiva?

Milaré- Se Nelson fez algum comentário, desconheço. Mas a obra permanece exemplar na televisão brasileira até hoje, o que ficou claro com a retrospectiva feita há algum tempo pela TV Cultura das 16 peças dirigidas por Antunes Filho na década de 1970. Tendo dificultada pela censura a sua pesquisa de linguagem no teatro, ele voltou-se a uma pesquisa estética na televisão. Procurava então combater o naturalismo barato, contumaz em telenovelas e teleteatros na época e até hoje. Optou pelo realismo cinematográfico, mas fecundado pelo realismo teatral. Esta foi a principal marca que deixou no Teatro 2. No caso de Vestido de noiva, dispensou seguir ao pé da letra os três planos – de memória, realidade e alucinação – propostos por Nelson Rodrigues, que no teatro normalmente são materializados, de uma ou de outra maneira, através da cenografia, e os incluiu na ação contínua do personagem em delírio. Nisso, a “realidade implícita” supera a “realidade objetiva” e estabelece um novo modo realista. Talvez essa seja a especificidade mais importante da obra.

Jornal do Commercio - Uma das matérias que estamos realizando trata a presença de Nelson na TV. Você saberia recuperar um pouco dessa história? Qual a importância do teleteatro de Antunes Filho nesse trajeto?

Milaré- Quanto à primeira parte da questão levantada, em pouco ou nada posso contribuir. Fora noticiário e futebol, pouco vejo na televisão. As raras vezes que vi coisas de Nelson na telinha me deparei com aquela maneira boba, inculta, que só encontra nos seus escritos o pitoresco, o erotismo vulgar, as intrigas domésticas que fazem o ibope das telenovelas. Mas foi pouca coisa, não posso julgar por ela o conjunto de adaptações já feitas, que certamente foram muitas. Quanto ao teleteatro de Antunes sobre escritos de Nelson, creio que se restringe ao Vestido de noiva, já comentado.