Entrevista com Beatriz Polidori Zechlinski e Berta Waldman

A produção “feminina” de Nelson Rodrigues analisada por duas especialistas: Beatriz Polidori Zechlinski, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autora de Imagens do casamento e do amor em nelson rodrigues: um estudo das representações de gênero na literatura publicada em jornal entre 1944 e 1961 e Berta Waldman, autora de O império das paixões: uma leitura dos romances-folhetins de Nelson Rodrigues. Confira o que as duas têm a dizer sobre a escrita exuberante do “Nelson mulher”.

Entrevista 1 - Beatriz Polidori Zechlinski

Jornal do Commercio - Você considera os folhetins (e, especificamente, os de Nelson) um gênero menor? São obras menos preocupadas com seus leitores posteriores?

Beatriz Polidori Zechlinski - É importante observar que os folhetins direcionados para o público feminino foram, naquele período, considerados um gênero menor porque, justamente, pretendiam ser parte do mundo das leitoras e tratavam de temas como o amor, a família e o casamento. Como o dito "feminino" era desvalorizado, os folhetins direcionados para mulheres eram vistos como uma literatura de menor valor. No entanto, do ponto de vista da análise histórica, não há gênero que possa ser considerado menor. Quero dizer, como documentos históricos os folhetins de Nelson Rodrigues têm o mesmo valor do que o restante da sua literatura. Interessa-nos os fatores que impulsionaram a sua escrita e o fato de terem sido lidos por um número muito grande de mulheres. Quanto à questão da posteridade, acredito que, de modo geral, Nelson preocupava-se mais com o teatro do que com os textos produzidos para os jornais, que tinham um caráter efêmero.

Jornal do Commercio - Quais eram as principais diferenças entre os textos assinados por pseudônimos femininos e assinados por Nelson?

Beatriz Polidori Zechlinski - A principal diferença é justamente o fato de os textos assinados por Myrna e Suzana Flag terem um público específico, que era o público feminino, especialmente o das mulheres da classe média. Escrever histórias de amor para mulheres em um jornal, e ainda com o objetivo primeiro de aumentar a circulação deste jornal, produzia uma série de fatores que tornava essa escrita diferente da produzida para o teatro, por exemplo. Nelson precisava necessariamente corresponder às expectativas tanto de seu empregador (o jornal), de quem dependia financeiramente, quanto de suas leitoras. Dessa forma, quando ele escrevia os folhetins, escrevia ao gosto do público, para conquistar as leitoras, não podia exceder em provocações e deveria falar uma linguagem compreensível para pessoas comuns, talvez não muito intelectualizadas.

Jornal do Commercio - Em que assumir uma personalidade literária feminina alterava o texto de Nelson? Como ele exprimia o eu feminino (forjado) no texto?

Beatriz Polidori Zechlinski - Como eu disse, na escrita dos folhetins existia a preocupação em agradar o público (especialmente as mulheres) e não podemos esquecer que o emprego no jornal era o que proporcionava o suporte financeiro para Nelson Rodrigues naquele momento. Os folhetins estrangeiros faziam muito sucesso nos jornais brasileiros e Nelson se propôs a entrar nesse mercado sabendo que havia uma boa possibilidade de retorno financeiro. Mas ele deveria provar que era capaz de se equiparar aos folhetins importados, de forma que havia uma grande preocupação em produzir a identificação com as leitoras. Nesse sentido, a construção dessas escritoras, os heterônimos femininos, era um jogo de marketing que procurava facilitar a identificação imediata do (a) autor (a) com o público. Por outro lado, esses folhetins pretendiam difundir uma determinada perspectiva das relações de gênero e, para tanto, uma voz feminina produzia mais efeito do que uma masculina. Isto é, essas "escritoras" se constituíam como autoridades nos assuntos familiares e poderiam falar a partir (supostamente) de sua própria experiência de vida.

Jornal do Commercio - Como a mulher era vista por esse "Nelson mulher" dos folhetins? E o homem?

Beatriz Polidori Zechlinski - Nelson Rodrigues tinha um pensamento conservador sobre as relações entre homens e mulheres. Nos folhetins as mulheres aparecem como pessoas frágeis, que necessitam de tutela, indivíduos que estão a um passo de se perderem do "bom" caminho. O destino daquelas que se perdiam (isto é, que se comportavam diferentemente do modelo) era normalmente trágico nas histórias. Também para os homens repete-se o modelo hegemônico de masculinidade, o homem era aquele que deveria ter força, determinação, autonomia, controle, em especial controle sobre o comportamento de sua companheira. Sem esses atributos ele corria grande risco de ser traído pela esposa, ou, o que poderia ser mesmo pior, de ser controlado por mulheres de sua família. O homem era quem deveria oferecer a proteção, a segurança, em todos os sentidos. A mulher por sua vez estava fadada ao amor, que era para Nelson um sentimento trágico e fatal, pois "chegado o amor tudo muda", nas palavras de Myrna. Assim, a definição da mulher dependia da relação dela com um homem e com a família, de forma que não havia individualidade feminina possível.

Jornal do Commercio -Quais eram os temas femininos principais desses folhetins? Amor, morte, paixão, traição?

Beatriz Polidori Zechlinski - O tema central dos folhetins era a relação entre o amor e o casamento e a possibilidade da infidelidade feminina, caso no casamento não se concretizassem os desejos e as expectativas. São temas considerados "femininos" dentro da hierarquia de assuntos do jornal, em que se pressupõe que as mulheres não deveriam se interessar por assuntos considerados de maior valor social, como a política. Mas não devemos esquecer que essa divisão hierárquica de temas podia não corresponder aos interesses de muitas mulheres, pois várias estavam engajadas politicamente e muito bem informadas quanto aos problemas sociais e políticos daquele tempo. Nesse sentido, é interessante notar que a coluna A vida como ela é..., que tinha um público predominantemente masculino, tratava desses mesmos temas - amor, casamento, infidelidade, morte -, porém com uma abordagem diferente. Dessa forma, é preciso lembrar que a ideia de uma divisão entre assuntos "femininos" e "masculinos" estava pautada pela hierarquia tradicional de gênero.

Jornal do Commercio - Como Nelson via, portanto, a mulher quando assumiu os olhos de uma mulher? Era uma visão parecida com a que as outras pessoas tinham das mulheres naquela época?

Beatriz Polidori Zechlinski - Não acredito que ele tenha de fato assumido os olhos de uma mulher, eu o vejo mantendo os olhos do homem que ele era, com uma capacidade imensa de compreender as angústias, os medos e os desejos das pessoas. Mas a sua visão era bem similar à que grande parte dos homens tinha sobre as mulheres e que correspondia aos discursos normativos de gênero. A mulher ideal que aparece nesses folhetins é doce, delicada, amável e está à procura de um amor verdadeiro. Ela tem como objetivo de vida realizar um casamento feliz, encontrar um marido a quem ela terá o prazer de se dedicar e por quem estará pronta a se sacrificar.

Jornal do Commercio - E entre Suzana Flag e Myrna, há alguma diferença na abordagem (talvez por conta de Suzana não ser só autora, mas personagem também)?

Beatriz Polidori Zechlinski - Acredito que uma diferença importante é a de que Myrna era uma conselheira amorosa, ela era a interlocutora das leitoras em um correio sentimental. Portanto, a partir de Myrna, Nelson pretendia desenvolver uma relação mais íntima com as leitoras, ao mesmo tempo em que expressava autoridade para dar conselhos. Dessa forma, Myrna tinha um caráter um pouco mais realista. Já a Suzana Flag eu vejo um pouco mais distante de seu público, de forma que se tornava também um pouco mais misteriosa.

Jornal do Commercio - A leitura dos estudos de gênero, como não podia deixar de ser, critica bastante a visão literária (e pessoal) de Nelson da mulher. Você concorda com essas críticas?

Beatriz Polidori Zechlinski - Acho que não se trata de criticar o autor e sim de compreendê-lo inserido na sociedade em que ele vivia. Nelson era uma pessoa de valores conservadores e como tal reagiu contra as maiores liberdades que as mulheres da classe média começaram a alcançar, em razão de circularem nos espaços públicos, o que o desenvolvimento das grandes cidades impulsionara naquele período. Assim, ele fazia parte daqueles literatos que buscavam resgatar os valores familiares, mantendo a posição de subordinação das mulheres em relação aos homens e a dependência delas em relação ao amor e ao casamento. Dessa forma, nesse pensamento não há lugar para a mulher como indivíduo livre e autônomo, ela teria sempre que corresponder às expectativas do marido e prestar contas à família e especialmente aos filhos. Todavia, esse posicionamento político do autor quanto às questões de gênero não modifica o lugar que ele ocupa na literatura brasileira, que acredito não ser questionável. Ele foi capaz de expressar com grande sensibilidade os sentimentos que grande parte das pessoas tinham em relação às transformações de gênero que estavam em curso.



Entrevista 2 - Berta Waldman

Berta Waldman

Jornal do Commercio - Em que sentido é possível se falar em um Nelson Rodrigues “feminino”?

Berta Waldman - O Nelson Rodrigues “feminino” nasce de um interesse econômico. Quando N. R. soube do interesse de O jornal na compra de um folhetim francês ou americano, porque tinha que sair de um aperto econômico, ele se ofereceu para escrevê-lo. Assim nasceu Suzana Flag, um de seus pseudônimos femininos, assinando Meu destino é pecar. Foram 39 capítulos estampados em jornal, que poderiam se estender por 300, se o autor assim o quisesse. O folhetim levantou a circulação do jornal de 3 a quase 30.000 exemplares. Quando chegou ao fim, sua popularidade era tanta que se tornou inevitável a publicação em livro. Em pouco mais de um mês eram 50.000 o número de volumes vendidos, sem contar suas sucessivas reedições, adaptação para rádio e transmissão como novela, nas emissoras “Associadas”. Por uma década Suzana Flag arrebatou o coração de suas leitoras.

Jornal do Commercio - Quais, na sua análise, os principais traços da produção de Nelson feita a partir de pseudônimos femininos, principalmente se em comparação com a sua obra “masculina”? O feminino nos folhetins era, mais do que um pseudônimo, uma opção estética de Nelson?

Berta Waldman - O pseudônimo feminino é responsável pela produção lacrimogênea, atada ao passado, de consumo imediato, sem pretensões estéticas, em que a felicidade é possível, ainda que rara. Já nas peças, a concentração, o aspecto “desagradável”, as situações não edulcoradas são constantes, o que agredia o público e parte da crítica que as considerava excessivamente mórbidas. Apesar do desnível, Suzana Flag ameaçava tragar Nelson Rodrigues. Depois de terminar Meu destino é pecar, o autor teve que começar outro folhetim, Escravas do amor, isso porque a “autora” era um nome nacional e o maior sucesso de O Jornal.

Jornal do Commercio - Que imagem (e autoimagem, já que ele se passa por uma autora) Nelson demonstra ter da mulher nos folhetins de Suzana Flag e Myrna? Em quê as narrativas de Suzana Flag e Myrna se diferenciam? Algum dos folhetins desses pseudônimos de Nelson possui maior qualidade?

Berta Waldman - Na verdade, há uma diferença entre Suzana Flag e Myrna. Nelson Rodrigues declara que estava farto da primeira e resolve criar outro pseudônimo - Myrna, para continuar escrevendo os folhetins. Mas esta não conheceu o sucesso da primeira, embora recebesse das leitoras farta correspondência; para salvar a situação, resolveram conceder-lhe uma seção “Myrna escreve”, no Correio sentimental, no qual Nelson Rodrigues respondia às cartas das mulheres. Consta que se comovia com elas, utilizando-as como subsídios para a construção de suas personagens femininas. No anos 1950, Samuel Wainer, dono do jornal Ultima Hora, propõe a Nelson Rodrigues escrever uma crônica diária para seu jornal baseada em fatos reais da área policial ou de comportamento. O autor aceitou e assim nasceu A vida como ela é. Nos dois primeiros dias, Nelson acatou a sugestão de Wainer, mas no terceiro passou a inventar as histórias. Foi no registro ficcional que a crônica tomou conta da cidade. As crônicas fizeram o maior sucesso. Elas estão mais próximas dos romances folhetins do que propriamente as peças de teatro.

Jornal do Commercio - A crítica ainda erra em menosprezar esse aspecto da produção de Nelson? Ele é importante para entender a prosa do autor? Os folhetins são mais datados que o restante da obra de Nelson?

Berta Waldman - Os folhetins de Nelson Rodrigues têm sua origem na matriz do melodrama, gênero que surge na Europa no século XVIII. Acho que o viés melodramático atravessa a obra completa de Nelson Rodrigues, porém a distensão (uma de suas características) está presente nos romances folhetins, que sempre ultrapassam as 300 páginas. Já no teatro, o autor utiliza a contenção, as situações são mais enxutas estruralmente, embora o execesso seja uma característica geral da obra desse autor. Quanto ao romance folhetim, parece-me ser seu “calcanhar de Aquiles”, a parte mais vulnerável de sua produção.

Jornal do Commercio - Qual a importância dos folhetins na obra de Nelson Rodrigues?

Berta Waldman - Esse segmento da obra de Nelson Rodrigues não se estanca nele próprio. Suas características avançam para o teatro, mas de modo mais disciplinado; e para a crônica, onde a imediatez que visa ao real acaba colocando alguns obstáculos ao devaneio excessivo. Quer dizer, há pontos de confluência na produção da obra de Nelson Rodrigues como um todo. O que varia é o modo de formalizar os ingredientes, o grau de contenção da desmesura.Quando o autor inicia sua carreira de romancista, ele já havia escrito as peças Mulher sem pecado (1941) e Vestido de noiva (1943) e já havia revolucionado o teatro brasileiro. Os romances aparecem para resolver um problema de sobrevivência financeira. Eles foram verdadeiros “best sellers” e contaram com sucessivas reedições, adaptação para o rádio, alguns foram transmitidos como novela, no rádio, outros foram filmados. Quer dizer, eles nasceram para responder a um apelo mercadológico, e aí está seu limite, mas nem por isso o autor deixa de pôr a nu as mazelas da sociedade brasileira, ao abordar criticamente um sistema de relações, cujos valores de base estão abalados. E ele faz tudo isso revolvendo o lado “escuro” em nós, indicando sua atração pelas formas como essa mesma sociedade lida com o interdito.