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Fabiana Moraes




Valéria nasceu no masculino, há 34 anos, a poucos metros da praia onde seu pai passava dias e noites pescando arraias. Enquanto ele estava lá, na jangada de madeira, ela ia crescendo na casa de madeira e barro. Viu a mãe cozinhar quando havia o que cozinhar. Viu a mãe parir os irmãos que não demoravam a vir. Viu os meninos correndo salgados pela rua e os achou bonitos. Enquanto ela via, o pai navegava e puxava a rede cheia de peixes e lagostas e arraias. Com o samburá cheio, voltava para casa e via a mulher cozinhar o que ele trazia. Via a mulher parir os filhos que ele fazia. Via seus filhos correndo salgados e os achava bonitos. Contava: quatro homens, quatro mulheres. Mas a conta estava errada. Esse desacerto só ficou claro depois que João foi várias vezes para o mar e voltou várias vezes para casa. Uma, duas, três, dez, até perceber que por baixo da blusa de Valério se escondiam peitos de mulher. Uma, duas, três, dez, até perceber que por baixo da blusa de Jocélio, três anos mais novo que Valério, também estavam dois seios inchados. Escutou na rua o povo chamando seus filhos assim: "Oi, Valéria!", "Diz, Jéssica". João achou aquilo uma doidice: em uma mesma casa, dois filhos que pareciam filhas. Dois filhos travestis. Preferiu voltar ao mar.

Naqueles dias em que ele estava lá, esperando os peixes, as lagostas, as arraias, refazendo as contas (quantas mulheres e quantos homens haviam mesmo em sua casa?), os ainda meninos iam redecorando a própria identidade. Valério foi o primeiro: vestiu-se de progesterona e futebol. Estava ali pela areia de Morro Branco, em Beberibe, Ceará, quando viu um time sendo formado. Procuravam mais gente, olharam na sua direção, ele levantou a mão. Foi ser goleiro. Gostou. Tinha 15 anos. Enquanto jogava bola com os meninos bonitos, salgados, ia aprendendo um novo léxico: falta, tiro de canto e de meta, arremesso lateral, impedimento, vantagem. Falava-se na Copa de 1994 e Valério começou a sentir-se íntimo da linguagem comum dos jogos. O mundo ia se impressionando com as seleções da Bulgária, da Nigéria, ao mesmo tempo em que os vizinhos da rua se impressionavam quando Valério passava. Valério não está mais encorpado? Está. Valério não está com a cintura mais fina? Está. Valério não está parecendo mulher? Está. As injeções de hormônio iam reconstruindo o filho de seu João, que naquele momento flutuava no mar, procurava os peixes e as arraias e as lagostas e de vez em quando voltava a refazer as contas (quantos homens e mulheres mesmo?). Valério ia se redesenhando ao mesmo tempo que via mais jogos, acompanhava as notícias, olhava as jogadas que eram tão incríveis e sensacionais naqueles gramados. Admirava Raí, Edmundo, Bebeto, Romário. "Eram os craques."

Fazia oito anos que era goleiro quando um dia o Valério curvilíneo, já virando Valéria, ouviu: "Olha, o juiz faltou. Pode ficar no lugar dele? Pode apitar?". Era o Campeonato Municipal de Beberibe e fora escalado como o terceiro goleiro daquela partida – mais baixo, estava acostumado a ser espécie de suplente em campo. "E aí, vai?", repetiu Jorge, treinador de seu time. Devia ir? "Não se preocupe, eu oriento." Ele, virando ela, foi. Não voltou mais a ficar entre as traves. Recebeu os apitos, os cartões amarelo e vermelho, a função de dizer o que estava certo e errado em campo. Gostou ainda mais daquilo. Começou a ser chamado todo fim de semana, apareciam mais jogos, surgia um dinheiro. Dava uma parte à mãe, Dedéia (tem o cabelo avermelhado, de tintura, como a filha). Com a outra, comprava mais hormônio, novas roupas, redecorava-se. Finalmente, era Valéria. Jocélio, o irmão, fizera a mesma coisa e agora era Jéssica. Quando o pai voltou da pesca, trouxe os peixes, as arraias, encontrou as duas. Não precisou mais refazer as contas. Agora as roupas de menino escondiam com dificuldade os corpos femininos. Era mesmo uma doidice. Já estava ficando velho e voltava cada vez menos para sua jangada. Decidiu então nunca mais olhar os dois, as duas, o que fossem. A mãe o tempo todo sabia o que estava acontecendo, sabia que não só Valéria e Jéssica, mas os outros dois filhos homens também gostavam de homens. Não se importava. "Pior era se viesse polícia bater aqui na minha casa, nunca veio." Continuou a exercer o seu amor. Mas os peitos, os cabelos e a cintura fina das novas garotas não conseguiram fazer com que ela, na fala e no pensamento, olhasse Jocélio e Valério no feminino: sempre usa "eles" para falar das filhas. "O pai não gosta dessas arrumações que os dois fazem, reclama. É um bruto. Ele diz uma coisa, eu digo outra. Não troco o amor dos meus filhos por homem nenhum."

Enquanto a mãe dava amor e preparava o almoço, enquanto o pai pescava e desviava o olhar, Valéria seguia se especializando em determinar regras. Começou a apitar ainda mais: entre os árbitros amadores de Beberibe (50 mil habitantes), é uma das mais requisitadas. As curvas conseguidas com as injeções mensais de progesterona são (mal) disfarçadas sob o uniforme. O cabelo comprido e avermelhado é sufocado em elásticos e escondido sob a blusa. Disfarçar aquilo que custou tanto a ter e defender, aquilo que fez seu pai desviar o olhar, é uma das maneiras de assegurar que, dentro do campo, não vai ouvir o "fresco, bicha, veado", tão comuns quando os árbitros cometem erros (às vezes, nem precisam cometê-los). Não que ache o fim do mundo, mas quem é chamado assim é homem, não mulher, como ela. É claro que, sendo imperativa e dizendo que o está errado e certo em campo, sua blindagem está sempre ameaçada. Já se enganou e marcou um pênalti errado – a falta tinha acontecido fora da pequena área, mas achou que foi dentro. Foi seu maior erro na função de juíza. O que veio depois tornou o engano inesquecível: logo estava sendo empurrada pelos jogadores, a torcida revoltada, puxaram seus cabelos, levou tapa. Foi preciso chamar a polícia, saiu escoltada. Valéria resume:"foi uó".

Outras vezes, apitando, escuta um "tira essa mulher daí, ela sabe nada de jogo". Acha graça. "Se enganam mesmo. Tem jogador que não me conhece, entra em campo e aponta 'olha lá, é uma juíza'. Aí depois percebe quem eu sou, uns pedem desculpa." Sendo aquela mulher que disfarça as curvas sob a roupa de árbitro, ela não compartilha o vestiário, onde não há espaço para o feminino. Troca de roupa pelos cantos, sobrepõe peças, não revela o corpo entre os jogadores. Vários deles, dentro e fora de campo, já tentaram se aproximar dela – dela, Valéria, a travesti que usa como sobrenome um exuberante Laleska e que em 2001 e 2003 ganhou o concurso de Miss Gay de Beberibe. Nunca travou qualquer relação romântica a partir dos gramados. "Aqui precisam me respeitar. Se eu deixar acontecer, isso acaba". A tática deu certo. Em Beberibe, é difícil encontrar alguém que fale mal do juiz – o masculino, Valério. É o resultado não apenas da sobriedade adotada em campo, mas de uma visão que atribui ao masculino uma aura mais bem acabada de seriedade, confiança, como se, caso soltasse os cabelos ou exibisse a cintura fina em campo, Valéria, agora mulher, deixasse de ser realmente confiável. Mesmo portando cartões e apito.

"Ele tem moral, no campo mantém a postura de homem", diz o também árbitro José Valdenísio, 34 anos, vários jogos apitados ao lado de Valério (a), a quem refere-se como "professor." Estavam juntos na arbitragem da final do campeonato beberibense (entre Caetano e Barra do Lino) em 1997, estavam juntos nos jogos entre o principal time do Estado, o Fortaleza, e a seleção de Beberibe (em 2010 e 2011). Em campo, não viu em nenhum momento a moça exuberante que à noite passeia na praça da cidade, onde estão os bares mais procurados e a Paróquia Jesus, Maria e José. "Lá fora, ele é Valéria, é Laleska, mas sempre me respeitou, mesmo com esse lado feminino." A distinção bem marcada entre o homem e a mulher mostra-se também um conforto e um porto seguro na fala do jogador Alexandre Gama, 30, primo distante de Valéria. Desde os 17 atuando como meia-direita ou centroavante, ele admite que não ficou seguro quando o ainda rapaz foi chamado para atuar como árbitro. "Achava que ninguém ia levar a sério, mas Valério dominou a partida muito bem. E mesmo antes, ele era um senhor goleiro. Jamais poderia imaginar que isso iria acontecer aqui, dele virar um juiz, com moral mesmo em campo, como se fosse homem."

Se Valério, senhor goleiro, homem, possui esse enorme respeito dos colegas ("pode me ligar que eu faço questão de falar sobre ele", disse Alexandre, quando procurado pela reportagem), a Valéria Laleska divide opiniões. Não por falta de simpatia: fala com todos quando passa, brinca, é popular. Mas é bastante séria também no momento de dizer o que não gosta, o que não quer e o que não admite – obviamente, sendo travesti, essa postura lhe traz alguns senões. "Já briguei muito, não deixo ninguém me derrubar. Tem que me respeitar, como ele ou como ela."

O pai só queria saber do ele, e, quando voltava do mar, tinha notícias do sucesso do filho em campo. Ouvia sobre os jogos que ele tinha apitado, que estava fazendo curso de juiz em Apuiarés, cidade próxima. Ouvia sobre o respeito que despertava nos outros, o ótimo profissional em campo, "como se fosse homem." Mas nunca foi vê-lo levantando o cartão amarelo. A mãe também não, mas aí um dia chegou na sua casa uma equipe de TV. "A primeira vez que vi o Valério de juiz foi no programa do Ratinho. " Ela estava ali, cartão e apito em punho, no ar, ao vivo, quando chamaram seus pais. Foi em rede nacional que precisou olhar para ele – estar vestida de juiz não a blindou como todas as vezes, pois era justamente por suas curvas, o cabelo grande, a letra A no final do nome, que estava ali. Ficou constrangida com aquela surpresa. Teve ainda que dançar, mostrar-se alegre, sorridente, afinal não era travesti? Depois que voltou para casa, os vizinhos comentaram muito sua aparição na TV nacional. A mãe achou bonito. O pai nunca tocou no assunto.

Jéssica havia deixado Jocélio e Beberibe para trás quando a irmã tornou-se procurada pela mídia nacional, quando a irmã foi homenageada por entidades de defesa de direitos dos gays, quando a irmã foi parada nas ruas para posar em fotos de desconhecidos. Apesar de tudo o que as unia – irmãs, travestis, tinham a antipatia do pai e o amor da mãe – não eram próximas. Havia uma coisa que as afastava profundamente: Jéssica não conseguia mais ficar naquela cidade pequena, Valéria queria continuar ali. A primeira queria principalmente ganhar mais dinheiro e sair do desconfortável campo de visão do pai: comprou, em 2002, uma passagem aérea. Foi embora para São Paulo. Ficou ali um ano e meio e seguiu para a Espanha. Foi lá que continuou a se afastar mais da família e em especial da irmã: enquanto Valéria tomava injeções de hormônio, Jéssica se presenteava com silicone nos peitos, cirurgias, tratamentos para fazer mais lisos os cabelos pretos. Tinha um propósito: comercializar o corpo, o sorriso e sua companhia. O negócio lhe rendia benefícios que dificilmente conseguiria no Brasil, que dificilmente conseguiria em Morro Branco. Em pouco tempo o dinheiro obtido na Europa através do corpo, do sorriso e da companhia foi mudando a vida da família Gama em Beberibe: a casa da mãe ficou maior e mais colorida, a TV mais moderna, as roupas menos baratas, a feira com produtos melhores que antes só eram vistos em dia de festa.

O pai também era presenteado através do corpo feminino do ex-garoto. Ganhou um cordão de ouro, uma âncora como pendente, uma referência aos seus dias no mar. Já não buscava mais arraias com sua jangada, já sabia quantas filhas tivera. Não gostava quando a esposa chorava toda vez que Jéssica ("eu não tenho filho com esse nome", sempre repete) telefonava. Em 2006, ela voltou. Tinha muito dinheiro e um namorado. Era ex-cliente, um deputado da província de Málaga que se apaixonou por ela. Morreu há pouco mais de um ano. "Eu tratei ele tão mal. Se fosse hoje, faria diferente", diz Jéssica. Com o dinheiro conseguido e a ajuda do namorado, montou uma pousada, comprou casas para alugar, vendeu algumas para os irmãos ("fiz pela metade do preço"). Uma, que fica colada ao clube Big Brother, hoje pertence a Valéria, a última a sair de casa, última a ser objeto de desvio do olhar do pai. É nessa casa que às vezes as duas se reúnem para ver jogo de vôlei e futebol. Além de vestirem roupas femininas, além de compartilharem o olhar desviado do pai e o amor da mãe, as irmãs também dividem o amor pelos esportes. Ele serve não apenas para manter o corpo bonito – a pressão para manter curvas é tão grande entre travestis quanto é entre mulheres –, mas tem certa função terapêutica. Para Jéssica, ajuda a dissipar uma certa solidão. Esta sempre esteve à espreita: quando vivia em São Paulo e na Europa, não conseguia se desligar da família, do mar, da comida, do calor. Foi por isso que decidiu parar de vender o sorriso, o corpo e a companhia. Quando voltou, percebeu que o corpo tão próximo do ideal nacional era um trunfo para conseguir clientes, mas atrapalhava no momento de conseguir um simples namorado. Jéssica está perto da família, do mar, da comida, do calor, mas desde que voltou a Morro Branco não conseguiu a companhia de nenhum dos rapazes pelos quais se apaixonou. É mais uma espécie de ônus com o qual precisa arcar, outra conta atrelada ao fato de travestir-se, de gostar de homens. Percebeu tudo isso logo cedo, em casa. "Você sabe, gay não tem infância."

Assim, preenche seus dias naquele balneário que surge de vez em quando em novela, cuidando da pousada e participando dos campeonatos de vôlei. Faz parte da seleção da cidade vizinha, Cascavel. Treina todos os dias. Mas, apesar das curvas, dos peitos, da voz, joga no time masculino. Não tentou a seleção feminina. Teve medo de não ser aceita por elas. Foi mais fácil, apesar das curvas, dos peitos, da voz, competir entre os homens.

Outra maneira de aplacar os dias sem a atenção de um amor romântico foi intensificar sua presença no antigo lar. Com a autoestima calcada em dinheiro e silicone, Jéssica voltou fortalecida para encarar o pai que não a encarava. Começou a frequentar, todos os dias e às vezes várias vezes ao dia, a cozinha da mãe. Sua atitude inspirou os outros filhos. Hoje, todos se reúnem diariamente às 16h para um café. É quando Dedéia, 71, separa várias xícaras Duralex marrom dourado e as distribui entre filhos, filhas, genros, noras e netos.

Jéssica e Valéria, ainda em nome do pai, vestem-se sem alarido: calças, bonés, cabelos presos. Nada que se relacione com aquilo que será usado à noite, as roupas justas e curtas, batom, brincos compridos. A falta de exuberância também diminui o contraste entre os outros irmãos que vão chegando: Rosália, Celma, Cleudia, Júnior, Dovaldo e João. Todos sentam-se à mesa , alguém chega com um saco cheio de pão, um pedaço de queijo, 300 gramas de presunto. Sentam-se à mesa grande da cozinha e comentam o dia, a praia, os turistas, os estádios que estão sendo reformados, os próximos jogos de vôlei, o início do campeonato europeu, a contratação de Neymar, a televisão de plasma que está na promoção, a promissora entrada de um sobrinho no time do Internacional, de Porto Alegre. Nunca conversam sobre quando o irmão mais velho agrediu tantas vezes as irmãs travestis, sobre quando o pai puxou uma faca para ferir Valéria, sobre o tempo em que ela tinha que pagar uma espécie de aluguel para morar na própria casa. Os assuntos dolorosos são calados, afinal trata-se de uma confraternização diária ("Nosso Natal é todo dia", diz Jéssica). Naquela festa cotidiana, bebem duas garrafas de café já adoçado, comem todos os pães, todo queijo, acaba-se o presunto. Seu João apenas passa, toma um gole, sai. Desvia o olhar. Usa o cordão de ouro com a âncora. Sente saudade do barco, das lagostas, dos peixes, das arraias. Tem certeza de quantas filhas tem. Agora passa parte do tempo em casa, construindo pequenas jangadas. Mas agora apenas elas podem flutuar.