Quando foi chamado para escrever A vida como ela é..., Nelson Rodrigues tinha uma tarefa específica: realizar crônicas a partir de fatos ocorridos no cotidiano, textos baseados em notícias publicadas pelo jornal Ultima hora. Em menos de três dias, desistiu. A realidade compartilhada com os outros, a realidade como comentada nos diários, lhe pareceu meio sem graça, plana, chata mesmo. Começou a inventar o seu real, as suas próprias histórias, todas cheias de adultérios e canalhas e inocentes e suicidas. O sucesso foi estrondoso: ninguém se incomodava se aquela coluna era ou não baseada em notícias do dia a dia, se eram verdadeiras ou não. Era assim, inventando, que Nelson mais se aproximava dos fatos cotidianos, era através do imaginário que ele melhor analisava o real. Este caderno criado para marcar o centenário do autor, que nasceu em 23 de agosto de 1912, faz o caminho inverso da perspectiva rodriguiana: traz cinco histórias que parecem ter sido pinçadas de obras ficcionais, mas que aconteceram no plano da realidade. Aqui, não foi preciso recorrer à imaginação na criação dos acontecimentos: a própria vida é a autora desses relatos que possuem, cada um a seu modo, a capacidade de nos impressionar, seja por seu horror ou por sua raridade, também pela beleza de mostrar nosso poder de regeneração. O que nos moveu nessa pequena homenagem ao gênio exuberante de um dos maiores criadores do País foi perceber que a vida, sem nossa licença, consegue muitas vezes superar a ficção, inclusive aquela que se propõe a trazer o próprio real, como as famosas crônicas que formam o A vida como ela é....
Entre estas histórias, está a do próprio Nelson, cuja “realidade era ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel”, como bem sintetizou Ruy Castro, seu maior biógrafo. Foi uma existência encerrada aos 68 anos, tempo no qual o jornalista e dramaturgo viu um irmão ser assassinado, outro morto em um desabamento, viu a filha Daniela nascer cega para o mundo, o pai morrer de desgosto, um filho ser torturado pelo regime militar que tanto apoiava. Também experimentou uma magra e não cintilante pobreza, assim como uma fama pouco remunerada. As décadas dramáticas enfrentadas por Nelson, assim como as outras histórias trazidas neste especial, nos levam a assumir: a vida muitas vezes ultrapassa o imaginário, o A vida como ela é...”, o absurdo da criação. A vida é um bicho feroz que traz uma enormidade de acontecimentos desconcertantes ao nosso dia a dia, bicho sem freio que altera continuamente nossa noção do que é certo e errado, do que acreditamos ser normal. A vida, enfim, é Nelson.
Neste caderno, além do cotidiano atribulado e desafiador do próprio autor (recontado no texto Anti-Nelson Rodrigues, conhecemos mais sobre a história de Severina Álbum de família, a mulher que engravidou 12 vezes do próprio pai e que, décadas após ser vítima contínua de sua brutalidade, decidiu matá-lo. Presa durante um ano, ela voltou para casa, na zona rural de Caruaru, depois de um julgamento que emocionou o Estado (agosto de 2011). Hoje, enfrenta outro drama: lidar com os filhos-irmãos que a amam como mãe, mas detestam como irmã. Há também o relato de uma tragédia que entristeceu o País em 2010, o noivo que, movido por um sentimento delirante e particular, assassinou a noiva durante a festa de casamento, matou um colega e depois cometeu suicídio (no texto Vestido de noiva). Todos estão vivos na mente e no coração machucado de Prazeres, a mãe de Renata, a moça que brindava uma nova vida poucos minutos antes de Rogério sacar o revólver. É Prazeres que, em frente ao túmulo da filha, fala sobre o horrível acontecimento, o dia pelo avesso que ela nunca vai entender. Foram ainda consultados para recompor aquela que ficou conhecida como “a tragédia de Aldeia”, advogados, delegados e pessoas presentes na comemoração (garçons, seguranças, convidados). Outra fonte fundamental foi o processo criminal onde estão os depoimentos prestados ao Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP/PE). Nele ainda constam, em um saquinho de plástico, as balas que mataram Rogério, Renata e Marcelo.
A vida que subverte a ficção também alcança Valéria, a filha de um pescador no interior do Ceará que é a primeira e única juíza de futebol travesti no Brasil (sua história está na matéria Engraçadinha). É uma existência que surpreenderia o próprio Nelson, que via na homossexualidade uma fraqueza, mesmo uma delinquência, algo bastante comum durante o período no qual o autor criou suas obras. É um relato que traz para este especial um pouco das maiores paixões do dramaturgo, o futebol, igualmente paixão e meio de vida de Valéria. Ela convive com outra irmã, Jéssica, também travesti e adoradora de esportes: é atleta de uma seleção masculina de vôlei. Há, fechando o especial, a mulher que procura calar uma infância dramática da qual fizeram parte uma mãe suicida e um pai que a molestou sexualmente para depois ser assassinado quase à sua frente (no texto A falecida). Quer ainda superar uma família para quem sempre foi invisível. Em vez de um compreensível enclausuramento por conta das violências sofridas, Francisca recorreu a si mesma para ser exemplo daquilo o que não quer na vida: ser uma extensão dos pais que se foram tão violentamente. Seu objetivo maior é manter-se viva por meio da delicadeza que sempre lhe foi negada.