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Fabiana Moraes




Primeiro-ato

Cenário formado por duas grandes fileiras de casas simples, classe média baixa. Fim de tarde. A luz meio vermelha ilumina o pequeno bairro popular da zona norte do Rio de Janeiro. Na rua e nas janelas, estão os tipos que moram ali: mulheres ralham com seus filhos, vendedores passam nas ruas oferecendo frutas, homens vestindo ternos modestos voltam para casa trazendo pães e uma barra de manteiga. Um menino sobrancelhudo de cabeça grande e pernas cabeludas entra em cena. Senta-se à beira da calçada, sob um poste, e começa a ler um jornal. Está acompanhando o folhetim Crime e castigo, de Dostoiévski. Ás vezes o menino suspende a leitura e olha ao redor. Observa a gritaria, os nomes das pessoas (Glorinha, Oswaldo, Dorotéia). Parece impressionado com esse lugar tão diferente daquele onde nasceu (em Recife, o mundo inteiro resumia-se a sua família, ao mar, às frutas de nome engraçado que encontrava na cozinha). Um homem de terno e chapéu se aproxima. Também é sobrancelhudo. É o pai do menino: aquele que trouxe toda a família para a nova cidade. O pai chama o garoto para a casa. Esta já está em cena, à esquerda do palco: sabemos que é o espaço familiar por conta de uma mesa grande na qual estão sentadas onze crianças e uma mulher. O senhor Mário – esse é o nome do homem sobrancelhudo - tosse gravemente e chama os filhos (além de Nelson, o menino da cabeça grande, ele é pai de Milton, Mário Filho, Roberto, Joffre, Maria Clara, Paulinho e Stella). Está com o ar grave. Todos os membros da família estão ali reunidos, inclusive a mãe do menino, Maria Esther. Os nomes de cada um aparecem em placas luminosas colocadas sobre a mesa.

Mário (olhando para todos) – Consegui! emprego, vou trabalhar no Correio da Manhã!
Maria Esther – (colocando a mão no peito)
– Conseguiu? Conseguiu?
Mário (orgulhoso) – É o início de uma nova era, meu amor! Vamos comemorar! Até trouxe ovos para o jantar!

O cenário muda: apagam-se as luzes que iluminavam a rua e acende-se a iluminação mais ao fundo do palco. A plateia vê uma redação, que estava mais recuada. No fundo do palco, vemos o luminoso CORREIO DA MANHÃ. Ouve-se o barulho alto das máquinas de escrever, no ar espalha-se a fumaça dos copinhos de café. O menino da cabeça grande e das pernas cabeludas circula entre as mesas. Observa o pai, que está cercado por vários repórteres. De sua boca nervosa saem alguns nomes e palavras: "Epitácio Pessoa, processo, Artur Bernardes, cadeia, absurdo, Edmundo Bittencourt". Há certa agitação no ar: as vozes vão se alterando e de repente um grupo de homens fardados irrompe o palco. Cercam Mário.

Grupo fardado (falando em uníssono) – Você está preso por injúria. Passará um ano no Quartel dos Barbonos!

O pai sai, escoltado pelo grupo fardado. O menino acompanha a cena de olhos arregalados. As luzes se esmaecem e várias ações começam a acontecer (somente elas recebem um foco específico de luz): Mário entra à esquerda, com uma roupa listrada, de presídio, e sai à direita. No caminho, encontra Maria Esther, que entrou pelo lado contrário. Os dois se olham, tocam no rosto um do outro e seguem até saírem de cena. Os dois retornam, só que agora ela está em adiantado estado de gravidez. Ouvimos o barulho das conversas dos vizinhos, de grades abrindo fechando, um choro de bebê. Finalmente, ouve-se novamente o som das máquinas de escrever. As luzes acendem-se totalmente e revelam novamente a redação, esta um pouco menor que a anterior. No alto, acende-se a placa A MANHÃ – 1925. Mário está no centro do palco, entre as máquinas. Agora usa roupas mais elegantes e fuma um fino cigarro. Dá uma baforada e, contente, grita:

Mário – Comprei um jornal!

Vários homens de camisas brancas e gravatas entram rapidamente em cena e sentam-se à frente das máquinas de escrever. Também entram quatro jovens, todos de fartas sobrancelhas. São filhos de Mário: Milton, Mário Filho, Roberto e Nelson, o menor. O menino não usa mais calças curtas: suas roupas demonstram o avanço da idade. Em meio ao zum-zum-zum da redação, ele atende um telefonema.

Nelson (dirige-se a Milton) – acaba de acontecer um atropelamento em Copacabana! Gente rica!
Milton – E soube que tem outra tragédia por lá, é suicídio de namorados!
Nelson – Suicídio de amantes? Deixa comigo.

O menino corre e sai de cena. As luzes da redação se apagam. Quando acendem novamente, a placa A MANHÃ apaga-se e outra acende-se: CRÍTICA – 1928. A redação está um pouco maior: outros homens entraram em cena, trazendo novas mesas com máquinas de escrever. O menino não se espanta e corre para sua mesa, onde escreve furiosamente. No fundo do palco, vão surgindo os textos que ele datilografa. A plateia acompanha: "BUSCOU A MORTE NAS ONDAS: O IMPRESSIONANTE SUICÍDIO DE UM RAPAZ EM COPACABANA", "O BEIJO DA MORTE", "FLUTUA NAS ÁGUAS O CADÁVER". A luz, mais forte sobre ele, é direcionada para seu irmão, Roberto, que está concentrado, inclinado sobre uma das mesas. Não há máquina de escrever sobre ela. No fundo do palco, tornam-se visíveis algumas ilustrações, todas elas remetendo às tragédias que Nelson relata. A iluminação difusa incide sobre todo o palco, sendo mais forte em Nelson. No momento seguinte, o foco de luz esmaece sobre o rapaz e torna-se mais forte sobre outro repórter, que também está escrevendo. Seu texto surge para a plateia: HÁ UMA GRANDE CURIOSIDADE PÚBLICA EM CONHECER OS MOTIVOS DA SEPARAÇÃO DO CASAL THIBAU JR; TODOS OS DEPOIMENTOS QUE NOS FORAM PRESTADOS SÃO COMPROMETEDORES DA HONRA DA ESCRITORA E MADAME SYLVIA THIBAU SERAPHIM. A luz vai para Roberto. No fundo do palco, a plateia vê o que ele desenha: a imagem de uma mulher esguia, de cabelos curtos e franja em onda. Ela é atendida por um médico, que toca-lhe uma das pernas. A luz torna-se forte sobre toda a redação. Todos trabalham sem parar, mas vez ou outra surge uma conversa.

Roberto – Tenho que me apressar, hoje é aniversário de um ano da minha pequena, Maria Teresa
Nelson – Tua filha tem sorte de fazer aniversário logo depois do Natal, o presente é duplo
Roberto – Tem razão. Diga-me: papai ainda está chateado porque publicamos a matéria do desquite?
A madame Sylvia ligou e pediu para o texto não ser publicado

Neste momento, uma mulher elegante, a mesma Sylvia de cabelos curtos e franja vista no desenho, entra na redação. Dirige-se a Roberto.

Sylvia – Pode me dar dois minutos?
Roberto – É claro, pode falar.

Ela olha para Nelson.

Sylvia – Em particular, por favor.

Nelson levanta-se meio irritado e sai de cena. A mulher está visivelmente nervosa.

Sylvia – Eu não pedi que não publicassem
a matéria?

Saca da pequena bolsa uma arma e atira no peito de Roberto. Ferido, ele segura a arma e cai aos pés da mulher. Alguns repórteres que até então trabalhavam silenciosamente correm até o jovem ensaguentado. Nelson, atraído pelo barulho, volta à cena e corre pelo palco. Abraça o irmão.

Nelson – Roberto! Roberto!

Ele permanece ao lado do irmão, enquanto os outros homens cercam a criminosa, que é agarrada pelos pulsos.

Sylvia – Podem me largar. Eu não faço mais nada. Queria matar o doutor Mário Rodrigues ou o seu filho. Estou satisfeita.

Todos saem de cena. Empurradas pelos repórteres, inclusive por Nelson, as mesas com as máquinas de escrever saem do palco. O nome CRÍTICA se apaga. Outro letreiro se acende. Diz: FUNERAL DE ROBERTO – 1929. Um caixão é trazido para cena pelos mesmos homens, agora vestidos de preto. Entram no palco também várias mulheres, entre elas a esposa de Roberto, que traz no colo sua filha Maria Teresa. Sentado e ladeado por Maria Esther está Mário Rodrigues, que chora. Segura uma edição de Crítica com uma única e enorme foto na capa. Sobre ela, a manchete: BOA NOITE, ROBERTO!

Mário – Essa bala era para mim, eu deveria
ter morrido em teu lugar, filho!

Chora ainda mais. Maria Esther o abraça. Pouco a pouco, o palco vai sendo esvaziado. Saem os amigos, os filhos, o caixão. Apenas Mário e Maria Esther permanecem em um canto do palco. Ele levanta-se e olha para a esposa. Repete:

Mário – Aquela bala era para mim, eu
deveria ter morrido no lugar de nosso filho!

Mário cai e Maria ajoelha-se, desesperada. Sacode o corpo do marido, que não responde. Ela o abraça e começa a chorar. As luzes se apagam. Acende-se apenas o letreiro: FUNERAL DE MÁRIO RODRIGUES, 1930 – UM MÊS APÓS A MORTE DE ROBERTO.

segundo ato

Sala de jantar com alguns objetos luxuosos (vasos, bustos, um quadro de Portinari). Uma grande mesa está ao centro do palco. Sentados, com ar grave, todos de preto, estão os filhos de Mário e Maria Esther. Esta aparece à cabeceira da mesa. O nome de cada membro da família permanece em uma placa com letras luminosas à frente de cada prato: Milton, Mário Filho, Stella, Nelson, Joffre, Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulinho, Helena, Elsinha e Dulce. Os nomes de Roberto e Mário Rodrigues estão acesos, mas as cadeiras estão vazias. As luzes não iluminam todo o palco, apenas a grande mesa. Atrás dela, vemos apenas as sombras de vários homens sentados em frente às suas mesas com máquinas de escrever.

Milton – Não posso acreditar que ela foi absolvida. Ela matou nosso irmão e terminou matando nosso pai de desgosto!
Mário Filho – E depois de toda a campanha, de todas as matérias que publicamos!
Nelson (tossindo um pouco) Essa mulher nos tirou tudo! Tudo! Não pode ficar solta!
Milton – Vamos continuar nossa campanha, mas também precisamos nos preocupar com o que está acontecendo no governo. A tentativa de Golpe é cada vez mais possível, Washington Luís está encurralado e há boatos que ele vá pedir demissão. Getúlio é cada vez mais forte. Nosso apoio ao presidente talvez seja nossa ruína.

As luzes iluminam todo o palco: atrás da mesa, vemos com clareza a redação de CRÍTICA (o nome do jornal acende-se novamente. Ao lado, o ano é 1930). Milton, Mário e Neto levantam-se da mesa, tiram o paletó preto e, de camisas brancas, dirigem-se até a redação. Sentam-se às suas máquinas de escrever. O restante da família, ainda à mesa, apenas observa. Novamente, vemos no fundo do palco as notícias que os irmãos produzem: "A PARCIALIDADE DO JUIZ MAGARINOS TORRES TRANSFORMOU NUMA FARÇA O JULGAMENTO", "TROPAS MINEIRAS VINDAS DE LAVRAS ARREMETTERAM CONTA OS SOLDADOS DA UNIÃO EM MUZAMBINHO MAS FORAM DESTROÇADAS". Ouve-se um estrondo. Um grupo de homens fardados entra em cena e começa a jogar papéis e objetos no chão. Todos os Rodrigues, desnorteados, saem de cena. Os homens continuam a quebrar a redação: retiram as máquinas, destroem objetos. O nome CRÍTICA se apaga e não volta a acender durante a peça. Todo o jornal de Mário Rodrigues é destruído. As luzes vão aos poucos clareando a mesa familiar, que está mais à frente do palco. É a mesma mesa, mas o espaço ao redor é diferente: os objetos caros e luxuosos vistos anteriormente não estão mais no palco. Os paletós e vestidos, outrora impecáveis, estão rotos e desgastados. Os rostos, muito tristes.

Maria Esther – Desculpem, filhos. Mas vamos novamente jantar pão com manteiga.
Milton – Não importa mãe. Vamos arrumar emprego e as coisas vão melhorar.
Mário Filho – Ainda estamos tentando recuperar o cofre roubado no empastelamento do jornal. Não sobrou nada, levaram tudo, tudo.
Maria Esther – Ele nunca irá aparecer. E é por isso que eu ainda economizo na manteiga. E é por isso que estou vendendo quase todos os nossos objetos: o piano, os quadros. Escutem: a partir de amanhã o leite ficará apenas para Elsinha e Dulcinha. Maria Clara, Stella e Helena, vocês vão deitar mais cedo. Dormindo, não sentem fome. E vocês, rapazes, precisam arrumar trabalho. Usem as roupas de Roberto, estão mais novas.
Mário Filho – Amanhã vou no Globo conversar com Roberto Marinho. Ele prometeu que vai tentar arrumar um lugar para Milton, Nelson e Joffre também.

Sentado mais ao lado, Nelson volta a tossir, primeiro devagar, depois cada vez mais forte. O corpo sacode e ele leva as mãos à boca. Quando as retira, vê sangue. Toda a família para de conversar. Maria Esther leva uma mão ao peito e com a outra toca em Milton, o mais velho, que está ao seu lado.

Maria Esther – A fome está acabando com todos nós. Nelson, meu filho, você está tuberculoso.

terceiro ato

Grande casa de madeira. Leve neblina sai do alto e dos lados do palco. Alguns homens caminham mais ao fundo usando casacos, cachecóis e toucas de frio. O luminoso agora exibe SANATORINHO POPULAR. Sentado e cercado por alguns rapazes está Nelson, quase irreconhecível com os cabelos mais cheios e a barba por fazer. Ele deve parecer ainda mais magro do que antes e o rosto apresenta-se inchado, denotando o resultado de um procedimento médico que retirou todos os dentes de sua boca, prática comum em pacientes com suspeita de tuberculose naquele 1935. Ele conversa com outro interno.

Homem 1 – Conseguiu terminar? Nelson – A peça? Ainda não. Não é difícil, mas ler e escrever tantas cartas para minha família o Rio tem me tomado todo o tempo.
Homem 2 –Há quanto tempo você está aqui?
Nelson – Três meses. No primeiro eu não senti saudade, no segundo senti tédio, agora estou até gostando.
Homem 1 – Gostar daqui? Está louco?
Nelson – Ora, que outro momento eu teria para ouvir tantas histórias? E meu único trabalho é escrever, não tenho que sair correndo para cuidar de suicidas. Apenas os que estão confinados aqui em Campos do Jordão.
Homem 2 – Sobre o que está escrevendo?
Nelson – Sobre nós mesmos, ora essa.

Súbito, os homens de casaco e cachecol vão saindo de cena, voltando vestidos de blusas brancas, suspensórios e trazendo as máquinas de escrever. Logo todo o cenário torna-se uma redação. Um dos homens vem e ajuda Nelson a tirar a peça de figurino que lhe cobre a blusa branca arregaçada e os suspensórios. Seus cabelos são penteados para trás. O nome SANATORINHO apaga-se e acende-se O GLOBO – 1935. Nelson senta-se à frente das filas de máquinas e começa a escrever. Ao seu lado, há uma mesa vazia, sem máquina de escrever. Entra em cena uma jovem de cabelos escuros e roupas recatadas. Nelson para de datilografar e volta-se para ela.

Nelson (sorriso encantador) – quem és tu?
Elza (seca, sem olhar para o rapaz) – a nova secretária do Dr. Roberto
Nelson – E qual tua graça?
Elza (olhando finalmente para Nelson, irônica) – Olha, sei de tua fama. Já me alertaram, te conheço. Comigo, só casando.

O telefone toca e alguém chama por Nelson. Ele atende feliz, olhando para Elza, e de repente sua expressão muda. Fica cabisbaixo. Desliga o telefone.

Elza – O que houve? Estás lívido!
Nelson (quase chorando) – É a morte branca... Eu passei para Joffre. Por minha causa, Joffre está tuberculoso. É minha culpa!

Elza levanta-se e abraça Nelson. As luzes se apagam, inclusive o letreiro de O GLOBO. Vemos a entrada de outras pessoas em cena: os repórteres, que colocaram casacos pretos, e a família Rodrigues. Milton e Mário Filho trazem um caixão. Acende-se o luminoso: FUNERAL DE JOFFRE – 1936. Em meio ao choro das irmãs e de Maria Esther, ouvimos a voz de Nelson, que continua abraçado a Elza:

Nelson – Passei a morte branca para meu irmão, fui eu, fui eu, é minha culpa!

As luzes esmaecem. Os repórteres e a família Rodrigues saem do palco, levando aquele que é o terceiro caixão visto na peça. Restam apenas Nelson e Elza. Maria Esther e Mário Filho retornam ao palco: ajudam os dois a tirarem os casacos de trabalho. Maria ajuda Elza a colocar um véu de noiva, enquanto Mário Filho ajuda Nelson a vestir um paletó com flor na lapela. Afastam-se um pouco e dizem, juntos.

Maria Esther e Mario – Eu vos declaro marido e mulher.

Nelson, que olhava para Elza com amor, volta a tossir. As luzes se apagam e escutamos apenas a voz feminina da recém-casada: Tua tuberculose está aí. Terás que voltar ao sanatorinho, meu amor.

quarto ato

Casas simples, iguais às do primeiro ato. É o bairro de Engenho Novo, Zona Norte carioca. O ambiente mostra uma sala de estar com uma vitrola, uma mesa escura com um jarro repleto de flores brancas. Elza cuida da casa caprichosamente: limpa os móveis, varre o chão. Está grávida. Nelson, suado e com cara de cansando, entra em cena. Quando vê Elza, levanta as mãos e sorri.

Nelson – Acho que vai dar certo. Vai dar certo!

Corre em direção à mulher e tropeça em uma vassoura.

Elza – Cuidado, meu filho. Não enxergas bem desde que sofreste aquela hemorragia, não esquece, presta atenção.
Nelson – Ora, eu estou ótimo.
Elza – O doutor Paulo disse que perdeste quase metade da visão, é ótimo? Nelson – Não exagere, amor. Foi apenas uma parte, uns 30%, não é nada. Mas não é sobre minha quase cegueira que quero falar, filha. Consegui deixar a peça com Mário de Andrade, ele vai ler e recomendar para os amigos!
Elza – Espero que consigas. Estás escrevendo esse texto com tanto cuidado que às vezes esqueces que vais ser pai.
Nelson – Não diga isso, meu amor. Joffre é nossa nova jóia

Nelson senta-se à mesa onde está uma máquina de escrever. Elza sai de cena enquanto ele tecla rapidamente. Ela volta, sem a barriga, segurando um bebê nos braços. Nelson levanta-se sorrindo e abraça os dois.

Nelson – Vamos, vamos! Estamos atrasados. O Teatro Carlos Gomes fica longe!

Os dois saem de cena e o luminoso acende. Nele se lê: Estreia de A MULHER SEM PECADO, DEZEMBRO DE 1942. O palco fica vazio, com apenas o luminoso atraindo a atenção do espectador. Escutamos palmas meio fracas. No fundo de cena feito tela, notícias voltam a surgir: "Uma pura e simples coleção de horrores"; "A peça é formidável!" ; "Leviana e espirituosa". As palmas cessam. Nelson, Elza e Joffre voltam à cena. Ele está cabisbaixo e irritado.

Nelson – Não entenderam nada, nada! Estão acostumados a essas bobagens da Cinelândia! Mas eu vou escrever outra peça, e não me importo se novamente não entenderem nada. Preguiçosos!

Volta e senta-se à máquina. Elza sai e volta com Joffre, agora um pouco maior, com cerca de um ano. Ele grita.

Nelson – Terminei! Podes ler e ver se há erros?
Elza – Tudo bem. Segura o Joffre.

Ela começa a ler o texto enquanto Nelson segura, ansioso, a criança. Ela para, com cara de confusa. Olha o marido.

Elza – Mas que estranho. Esse texto não faz o menor sentido. Nelson, andou bebendo? Você não vê que isso é estranho para uma peça?

Ele ri, pega o texto e sai de cena, falando alto.

Nelson – Vou mostrar ao Manuel Bandeira! Ele vai entender, vai entender! Me espere cheirosa para o jantar!

Elza sai pelo outro lado levando Joffre. No fundo do palco, surge o texto: NELSON RODRIGUES É POETA. TALVEZ NÃO FAÇA NEM POSSA FAZER VERSOS. EU SEI FAZÊ-LOS. O QUE ME DANA É NÃO TER COMO ELE ESSE DOM DIVINO DE DAR VIDA ÀS CRIATURAS DA MINHA IMAGINAÇÃO. VESTIDO DE NOIVA, EM OUTRO MEIO, CONSAGRARIA UM AUTOR. QUE SERÁ AQUI? SE FOR BEM ACEITA, CONSAGRARÁ... O PÚBLICO. Nelson entra em cena trazendo uma cadeira. Senta-se de costas para o palco, observando o texto. Três mulheres entram em cena: são Alaíde, Glória e Madame Clessy, personagens de Vestido de noiva. Sobre cada uma acende-se um luminoso trazendo os respectivos nomes.

Alaíde – Sua peça acontece em três tempos diferentes, como vai ser no palco? Como vou estar de noiva em uma cena e segundos depois estar com outra roupa? Isso é coisa para cinema!
Glória – É peça para ser lida e não para ser vista! Sei não...
Madame Clessy – Ora essa, quanta bobagem. Sua peça será espetacular, Nelson. Você vai entrar para a história.

As três dão um passo atrás e somem na escuridão do fundo do palco. Seus nomes se apagam e surge o luminoso: VESTIDO DE NOIVA – ESTREIA 28 DE DEZEMBRO DE 1943 – TEATRO MUNICIPAL. Um barulho enorme toma conta do ambiente: aplausos, uivos, assovios. Nelson continua de costas para o palco. Levanta-se e faz uma reverência em direção ao luminoso. Depois, vira-se para o público segurando uma pequena placa onde se lê: MAIS APLAUSOS, POR FAVOR. A tela no fundo do palco é tomada pela palavra GÊNIO!. Nelson, sorriso largo, agradece à plateia e as luzes se apagam.

quinto ato

Acende-se o luminoso: DIÁRIOS ASSOCIADOS, 1944. A redação vista anteriormente recebeu mais homens, algumas poucas mulheres e mais máquinas. Nelson chega com uma caixa, olha o novo ambiente de trabalho e senta-se à uma mesa posta ao centro. Começa a escrever e levanta-se duas vezes, em um curto espaço de tempo, para pegar um café (mesinha à esquerda do palco). Na terceira vez que vai até a garrafa térmica, um jovem o aborda. É Freddy Chateaubriand.

Freddy – Primeiro dia? Animado?
Nelson – Sim, sim, entusiasmadíssimo! E como vai O Jornal?
Freddy – Já tivemos dias melhores. Vendemos apenas três mil exemplares por dia. Acho que não vai demorar para fecharmos as portas.
Nelson – Terrível, terrível!
Freddy – Minha última tentativa será comprar um folhetim francês.
As pessoas ainda se animam com essas histórias absurdas.
Nelson – Comprar? Ora, posso fazê-lo.
Freddy – Você?
Nelson – Claro!
Freddy – Não sei. Teatro é uma coisa, folhetim é outra. Façamos o seguinte: escreva seis capítulos e entregue ao Leão Gondim. Se ele aprovar, publicaremos

Nelson corre de volta à máquina. Um dos repórteres vem até ele e põe uma peruca ruiva, meio chanel, em sua cabeça. Acende-se o luminoso: SUZANA FLAG. Ele volta a escrever, um cigarro na boca. Tira rapidamente seis páginas. Entrega a um dos repórteres, que sai de cena pela direita. Nelson tira a peruca e continua a escrever. Levanta-se e vai buscar outro café. Freddy vai entrando e o encontra próximo a mesinha. Abre os braços, a expressão feliz.

Freddy – Sensacional!
Ontem vendemos quase 30 mil exemplares!
Meu destino é pecar é genial!
As pessoas adoram esse monte de adúlteros que você inventa!
Viva Suzana Flag! Viva Nelson!
Tenho uma boa notícia: vamos lançar todos os capítulos em um único livro!
Nelson – Excelente, excelente.
Estou mesmo precisando.
As dívidas não param de chegar.
Elza está preocupadíssima
Freddy (sem escutar Nelson) –
Ah, sim, pode começar a pensar em outro folhetim.
O tio Assis está animadíssimo!

Nelson ouve. Começa a tossir. A tosse vai se agravando e ele leva um lenço às mãos. Encosta na boca e quando olha há sangue no tecido.

Freddy – Tua tuberculose está de volta
Nelson – Sei.
Mas apesar de tanto sucesso, não tenho um tostão para me internar.
E Elza está grávida de novo.
Aliás, é um negócio espetacular, está grávida há quase dez meses!
Freddy – Não se preocupe. Voltarás para o Sanatorinho e eu pagarei teu tratamento, Nelson.
As luzes se apagam.

sexto ato

Surge na tela ao fundo do palco um texto de jornal. O título: TRAGÉDIA OU FARSA? Abaixo, lê-se: "chula" "primária", "grosseira", "miséria vocabular", "um equívoco como tragédia". As luzes vão acendendo e vemos a sala da casa de Nelson e Elza. Um garoto, Joffre, brinca no chão. Um berço está ao lado da cama do casal, à esquerda do palco. Os dois estão sentados meio de costas para a plateia, lendo o texto. Começam uma conversa, virando-se um pouco mais para a plateia.

Nelson (irritado) – Mas não é possível!
Não é possível!
O Álvaro Lins está completamente equivocado!
Não entendeu nada, nada!
Elza – Acalme-se, meu amor.
Assim você vai acordar Nelsinho.
E você ainda está se recuperando da doença, fique calmo, não comece a tossir.
Nelson – Estão loucos!
Como podem dizer isso?
Como Álvaro pode colaborar assim com a censura, com essa censura ridícula imposta pelo Dutra?
Eu elogiando o incesto?
Álbum de família é uma peça bíblica!
Esse Álvaro não entenderia nem Édipo rei numa condensação do Reader's digest! Vou fazer de tudo para liberar a peça e ainda escreverei outra!

Volta-se para sua máquina de escrever. O que ele datilografa vai surgindo também na tela/fundo do palco. ISMAEL: você me esperava, Virgínia. VIRGÍNIA (com espanto): esperava você, sempre. só você chega, só você parte. o mundo está reduzido a nós dois - eu e você. agora que teu filho morreu. ISMAEL: mas não foi isso o que você quis?

Elza, que estava lendo, vira-se para Nelson.

Elza – Mais um assassinato?
Escreverás mais incestos?
E o negro com nome bíblico?
Casado com uma loura que mata os filhos?
A censura nunca te deixará em paz.
Nelson – Anjo negro é uma peça necessária!
Chega de mostrar no palco o negro como o moleque gaiato!
Meu personagem tem dignidade dramática!

A campainha toca. Elza levanta-se e vai atender. É um homem branco, apenas o rosto pintado de negro, que entrega um documento. É próprio personagem Ismael. Elza lê, põe uma mão no coração e olha o marido.

Elza – Nelson, tua peça foi censurada.

Nelson levanta-se, vai até o berço e embala Nelsinho. Volta à mesa, acende um cigarro.

Nelson – Vou fazer de tudo para liberar a peça e ainda escreverei outra!

Começa a escrever e novamente suas palavras podem ser lidas no fundo do palco: D. EDUARDA: Deus fez tua vontade! traí meu marido! desce e vem chamar tua mãe de prostituta! MOEMA - prostituta! A campainha toca. Elza levanta-se e vai atender. É uma mulher com roupas antigas e muito pálida. É a própria D. Eduarda. Entrega um documento.

Elza – Meu amor.
Álbum de família foi censurada.
Mas te acalma, te acalma:
Diz aqui que Anjo negro poderá finalmente ser encenada.
Nelson (resignado, triste) – com Vestido de noiva, eu conheci o sucesso.
Com as peças seguintes,
perdi-o para sempre.
O meu teatro é desagradável, mas não importa: continuarei escrevendo sobre pessoas normais.

As luzes se apagam.

sétimo ato

Penumbra. É possível ver duas pessoas se movimentando no cenário: sai o berço de Nelsinho, entra uma poltrona, um espelho comprido, sai a máquina de escrever e sobre a mesa é colocado um vaso com rosas vermelhas. Uma mulher baixinha, de chapéu coquete, senta-se e começa a ler uma revista. A campainha toca. Ela levanta, chega até o lado direito do palco e abre uma porta imaginária. Seu nome é Nonoca. Ela se joga nos braços de Nelson.

Nonoca – Que coisa, meu amor, te espero há mais de uma hora!
Nelson – Nonoca, meu anjo, perdão.
Encontrei com o Samuel Wainer no Leblon, talvez finalmente arranje um emprego.
Há quase um ano estou sem nada, você sabe
Nonoca – Pelo menos houve tempo para pensar nas peças
Nelson – Se todas seguirem o rumo de Dorotéia,
não sei. Tanto trabalho para vê-la no palco por apenas 13 dias. Treze dias! E você estava estupenda, estupenda! Mas a verdade é que estou falido
Nonoca (abraçando e cobrindo Nelson de beijos)
– Foi o maior presente que já recebi, meu amor

Alguém bate violentamente à porta imaginária (som gravado). É Elza, que traz duas crianças: Joffre, que está com oito anos, e Nelsinho, com quatro.

Elza – Nelson! Nelson! Abre esta porta!
Te vi entrar aí! Sei de tudo, abre já esta porta!

Nonoca corre e se esconde atrás da poltrona. Nelson permanece parado, atônito.

Elza – Abre já esta porta!

Nelson obedece a esposa. Ela adentra a sala, olha ao redor (passa os olhos por Nonoca, mas é como se ela estivesse invisível) e começa a falar.

Elza – Eu sei que ela está aí. Eu sei que pagas por este apartamento para receber esta mulher!!
O que estás fazendo? Um homem doente, com filhos, desempregado! É para isso que cuido de ti? !
É para isso que te dei dois filhos? Sabes que Joffre pode estar tuberculoso como o pai? Como o tio morto? Quero que voltes para casa agora!

Nelson passa à frente de Elza e dirige-se até a porta. Ela o segue com as crianças. Todos saem de cena. As luzes tornam a deixar o palco na penumbra. Vão entrando várias pessoas em cena: retiram objetos da sala e trazem mesas com máquinas de escrever. São os repórteres, que sentam-se e começam a trabalhar. O luminoso acende novamente: ULTIMA HORA – 1951. Nelson volta e senta-se à mesa. Fuma. É a maior redação vista na peça: mais oito mesas foram levadas ao palco. Agora, a quantidade de mulheres também é maior. Quando passam por Nelson, ele as acompanha com o olhar entre curioso e irônico. Uma delas, muito jovem, o aborda:

Estagiária – Olá, o senhor é novo aqui?
Nelson (com ar risonho) – Novo é uma palavra que há muito não se adequa a mim, minha cara. De todo jeito, há três dias estou trabalhando aqui, não percebeu?
Estagiária – Engraçado, eu tenho impressão de que o conheço
Nelson (entediado) – Se é só impressão, considera-te abençoada, meu anjo

Um homem mais novo, elegante, dirige-se até Nelson e a estagiária se afasta. É Samuel Wainer, dono do jornal.

Samuel – Nelson, preciso falar com você. Teu texto é poético demais para o dia a dia do jornal.
Já não se fazem mais notícias com tantas exclamações, meu caro. Nelson (interrompendo, rindo) – O copy-desk está matando os jornais, Samuel, presta atenção. Samuel – Talvez fosse melhor você escrever uma coluna, não acha? Sobre as notícias que saem no jornal... você comentaria os acontecimentos, do teu jeito. Que tal? Andei pensando: podia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson – Se é sobre as notícias, melhor outra coisa, algo que lembre essa realidade... Pode ser "A vida como ela é...". Com reticências, é claro Samuel – Reticências? Nelson (bem-humorado) – Vai querer copidescar até o título da coluna, Samuel?

O dono do jornal sai sorrindo e Nelson vai para a máquina de escrever. Olha para o jornal, lê uma notícia e começa a escrever. Para no meio. Arranca a página. Fala consigo mesmo.

Nelson – Mas que droga de texto. Aliás, que droga de notícia. Eu posso criar realidades bem melhores do que esta!

Volta a escrever ignorando o jornal do dia e a tela no fundo do palco vai mostrando novamente sua produção. A plateia acompanha: VIERAM OS DOIS CAMINHANDO, LADO A LADO, POR ENTRE IMAGENS DE SANTOS NAS PAREDES. QUANDO CHEGARAM NA RUA, EUZÉBIO DESPEDIU-SE, PELA SEGUNDA VEZ: - PASSAR BEM, PASSAR BEM. PENTEADO DEIXOU QUE ELE SE VIRASSE, E, PELAS COSTAS, DEU-LHE TRÊS TIROS. HOUVE CORRERIAS, ATROPELOS. EUZÉBIO MORREU ALI MESMO, NA CALÇADA. Do meio da redação, Samuel grita:

Samuel – Nelson, Nelson! Tua coluna é um sucesso!
Não tem lotação nesse Rio de Janeiro onde os passageiros não estejam agarrados com o jornal!
E o melhor: o Carlos Lacerda está fulo da vida com teus textos, diz que eles querem acabar com a família brasileira!

Nelson vira-se, sorri e volta novamente para a máquina. Continua a escrever. Ao seu redor, vemos vários de seus irmãos também escrevendo, são todos também funcionários do Ultima Hora: estão Helena, Elsinha, Dulcinha, Maria Clara, Stella, Augustinho e Paulinho. O telefone toca e Maria Clara atende. Chama o irmão.

Nelson – É homem ou mulher?
Maria Clara – Mulher
Nelson – Então estou indo!

Sorridente, ele atende a ligação, mas logo sua expressão vai ficando séria. A luz torna-se mais forte sobre ele e os repórteres continuam batendo a maquina, só que sem tocar nas teclas. No silêncio, ouvimos apenas a voz de Nelson:

Nelson – Já te disse que reconheço apenas
Paulo César. As meninas não são minhas.
Não terás um tostão meu continuando a me perseguir.

Desliga o telefone. Está lívido. Fala para si mesmo, enquanto acende um cigarro:

Nelson – Ai de mim se a Yolanda leva esta três crianças até Elza. Ai de mim que estou falido se estas três crianças agora reclamarem um pai.

oitavo ato

As luzes se apagam. Redação sai de cena (móveis levados pelos repórteres). Volta o assento usado por Nelson durante estreia de Vestido de noiva. Surge o luminoso: SENHORA DOS AFOGADOS – TEATRO MUNICIPAL, RIO DE JANEIRO. ESTREIA: 1954. Nelson está sentado em meio ao palco. À direita e à esquerda, na boca de cena, estão os atores que antes povoavam a redação. Usam roupas elegantes. Ouvimos (mas não vemos) os personagens da peça falar: VIVERÁS COM ELAS... E ELAS DORMIRÃO CONTIGO... E NÃO ESTARÁS SOZINHA NUNCA. SEMPRE COM TUAS MÃOS... QUANDO MORRERES, ELAS SERÃO ENTERRADAS CONTIGO. Silêncio. Nelson olha para os dois lados e levanta-se, esperando a reação após o fim da encenação. De repente, o grupo do lado esquerdo (1) começa a aplaudir, enquanto o grupo do lado direito (2) começa a vaiar. Cria-se uma confusão de vozes.
Grupo 1 – Gênio! Estupendo!
Grupo 2 – Tarado! Tarado! Doente!

Nelson mostra-se surpreso e começa a gritar também.

Nelson – Burros! Zebus!

As vozes do grupo 2 se sobressaem, enquanto o grupo 1 continua a falar, agora em tom mais baixo. Nelson começa a percorrer o palco enquanto o grupo 2 o segue, ainda chamando-o de tarado. Vários luminosos começam a acender: trazem títulos de peças que Nelson escreveu, assim como seus locais de estreia: Perdoa-me por me traíres, Teatro Municipal, 1957; Viúva, porém honesta, Teatro São Jorge, 1957; Os sete gatinhos, Teatro Carlos Gomes, 1958; Boca de ouro, Teatro Federação de São Paulo, 1960; O Beijo no asfalto, Teatro Ginástico, 1961; Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária, Teatro Maison de La France, 1962. Enquanto isso, ecoam mais alto os gritos de "tarado!", enquanto lá e cá a plateia consegue ouvir, mais baixo, os gritos de "gênio". Nelson vira-se para o grupo 2 e fala:

Nelson – Morbidez?
Sensacionalismo?
Vocês não percebem: a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz.
O personagem é vil para que não o sejamos.
Para salvar a plateia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos, e, em suma, de uma rajada de monstros.

Os dois grupos calam-se e saem do palco andando para trás, ainda observando o autor. Nelson permanece sozinho, de cabeça baixa. As luzes se esmaecem e, na penumbra, a plateia vê entrar em cena, trazidos pelos atores, a mesa, duas cadeiras e um berço. São os móveis da casa de Nelson. Elza entra e senta-se. Nelson continua de cabeça baixa.

Elza – Tens certeza?
Nelson – Não. Tenho.
Elza – Quem é ela?
Nelson – Lúcia.
Elza – Lúcia?
Lúcia Cruz Lima?
Vais me deixar por uma grã-fina?

Nelson finalmente levanta a cabeça, mas não olha para Elza. Ela levanta-se e sai de cena. Com as luzes acesas, vários atores entram trazendo objetos caros, luxuosos: abajures, mesinhas, jarros floridos. Uma mulher jovem, pequena, magra e de cabelos pretos entra em cena. Está grávida. Nelson a abraça. As luzes se esmaecem e eles permanecem abraçados.

Nelson – Teus pais me odeiam. Eu te amo.
Lúcia – Quando nosso filho nascer, entenderão
Nelson – Talvez.
Mas são como todos: para eles, não passo de um tarado
Lúcia (gemendo) – Nelson?
Nelson – Sim, meu anjo?
Lúcia – Leve-me ao hospital.

Nelson sai com Lúcia. Do lado direito do palco, um berço, até então sem iluminação, aparece sob a luz. Lúcia entra e coloca um bebê ali. Nelson chega em seguida. Debruça-se sobre o berço, calado. Vira-se e olha para a mulher.

Nelson – O que eles disseram?
Lúcia (chorando) – Que Daniela sofreu paralisia cerebral.
Que Daniela não conseguirá nunca se movimentar.
Que Daniela jamais poderá enxergar.
Nelson (gritando) – Não pode ser, esse médico é um burro, um burro, isso não é verdade
Lúcia – Eles não podem fazer mais nada.
Eu ofereci um dos meus olhos, queria que operassem ela, colocassem nela, mas não adianta. Não adianta.

Nelson volta-se para o berço. Continua a chorar, debruçado.

Nelson – Minha filha, minha filha, meu anjo, minha flor.
Não merecias isso, não merecias nascer sem tua estrela.

As luzes se apagam e apenas o choro de Nelson é ouvido

nono ato

Barulho de chuva. Ouvem-se alguns trovões. A sala da família Rodrigues domina a cena: na grande mesa, estão sentados Maria Esther, na cabeceira, e seus filhos. Os nomes estão colocados de modo que a plateia saiba quem é quem. O lugar de Mário Filho está ineditamente vazio. Agora, é uma mesa com três pessoas a menos. Um dos irmãos, Paulinho, está de cabeça baixa, os punhos sobre a mesa. Não participa da conversa. O clima é de tristeza.

Maria Esther – Mas por que o mandaram de volta para casa?
Nelson – Não sei, mãe. Mário pediu para fazerem exames, sentia dor, mas o médico disse que não era nada.
Milton – Morreu por causa do erro dos outros, morreu sabendo que ia morrer, sabia que estava enfartando, sabia.
Nelson – Sabia .

O telefone toca e Helena vai atender. Ouve em silêncio. A família conversa entre si, sem dar atenção a ela. Helena volta. Senta-se novamente e fala algo, discretamente, a Nelson. Ele a ouve e baixa a cabeça. Helena levanta-se e dirige-se a Maria Esther:

Helena – Mamãe, está quase na hora do seu remédio e é preciso descansar.
Eu lhe acompanho.
Maria Esther – Não há necessidade.
Eu sei que alguma coisa aconteceu.
Helena (olhando para Nelson e os outros irmãos. Segura da mão da mãe) – Aconteceu.
O prédio de Paulinho desabou por causa da chuva. Ele, Maria Natália, Ana Maria e
Paulo Roberto, a família toda, desapareceram. Dulce, a mãe de Maria
Natália, também estava lá, comemorando o aniversário da filha.
Nelson (colocando a mão no coração) –
Mas como pode? O que é isso?
Helena – Uma pedra deslocou-se do morro e arrastou duas casas e o prédio de nosso irmão.
Nelson (chora) – Papai morre logo depois de Roberto, Paulinho morre logo após Mário, nessa família ninguém pode mais morrer, não pode

Paulinho, que estava quieto, levanta-se e sai de cena. Todos olham para ele. As luzes esmaecem e dois atores trazem um caixão à cena. Colocam-o sobre a mesa. Toda a família se levanta. Olham para o caixão. Maria Esther é abraçada por Dulce e Helena.

Maria Esther – Parece que nunca mais deixarei de usar preto nesta vida.

Ela vai saindo de cena seguida pelos filhos, que levam o caixão. Enquanto o grupo sai, a luz esmaece. Surge a figura de um homem fardado, repleto de medalhas, que entra à direita do palco. O homem tem o rosto meio vincado, a boca desenhada para baixo e o olhar muito sério. É o presidente Garrastazu Médici (no poder entre 1969 e 1974). Nelson surge logo depois, vindo do lado contrário. Ao vê-lo, o rosto do presidente torna-se menos duro. Abre um quase sorriso. Cumprimentam-se.

Médici – Nelson, Nelson, há tempos quero encontrá-lo! Gostaria de agradecer todo o apoio, caro amigo.
Nelson – Não é apoio, caro presidente, apenas não entendo essa esquerda brasileira que brada contra a fome do Nordeste enquanto toma um gigantesco sorvete!
Preocupa-se mais com a Guerra do Vietnã do que com o mendigo do outro lado da rua!
Médici (rindo e dando um tapinha no ombro do colega)
– Gostaria muito de ter sua companhia na próxima semana, vamos comemorar o 10 aniversário do estádio do Morumbi.
Nelson – Eu li. São Paulo versus o Porto.
Médici – Sim, o que lhe parece?
Nelson – Com toda honra, caro presidente.
Os dois saem e Nelson volta com a mesinha ocupada pela máquina de escrever. Outro ator traz uma cadeira. Ele senta-se e começa a escrever. A plateia acompanha: AS ESQUERDAS TIVERAM TUDO: PODER, DINHEIRO, ARMAS. NÃO FIZERAM NADA. MINTO: FIZERAM O CAOS. E OS SOCIALISTAS QUE ANDAM POR AÍ TÊM APENAS A VOCAÇÃO E A NOSTALGIA DO CAOS (24/8/1971). Enquanto ele escreve, um rapaz muito magro e barbado entra em cena. É Nelsinho, O filho caçula, já crescido. Ele observa o que o pai escreve e sorri. Põe a mão no ombro de Nelson, que então nota sua presença.

Nelsinho – Velho. Vou sair de casa. Não posso mais dividir o mesmo espaço com Joffre.
Nelson (atônito) – Nelsinho, o que você está dizendo?
Nelsinho – Vou alugar um apartamento. Vai ser mais difícil ser seu motorista agora.
Nelson (levantando-se) – O que está acontecendo? Isso tem a ver com aqueles seus amigos comunistas? Você ainda continua com isso? Fique longe dessa loucura
Nelsinho – As coisas estão complicadas, pai.
É melhor assim.
Nelson – Filho, guerrilha urbana não é batalha de confete.
Nelsinho – Eu sei. Mas não dá para ficar parado olhando o que os militares estão fazendo com o País. Nunca se torturou tanta gente.
Nelson – Mas isso é um descalabro, não vê?
Imensa bobagem inventada por esses eternos candidatos ao sofrimento. O próprio Médici me garantiu, me deu sua palavra de honra: não há tortura.

Nelsinho ri afetuosamente, abraça o pai e sai à esquerda do palco. Nelson continua de pé olhando o filho se afastar. Um telefone colocado à direita do palco toca e uma jovem vem atender. É Heleninha, secretária de O Globo, nova companheira de Nelson. Ela atende e ouve, silenciosamente. Desliga e vai para perto de Nelson.

Heleninha – Meu amor, era Joffre, seu filho.
Pegaram Nelsinho.
Nelson (põe a mão no coração) – Não vão fazer nada com ele, não vão, o Médici me garantiu, me deu sua palavra de honra: não há tortura.

Nelson permanece com a mão no coração enquanto com a outra segura a mão de Heleninha. Nelsinho e Médici entram em cena, o primeiro à esquerda do palco, o segundo à direita. Chegam à frente um do outro. Olham-se. Médici toca suavemente o rosto de Nelsinho, o peito, os ombros. Todos os locais que o presidente toca ficam sujos de vermelho. Nelsinho e Medici olham para Nelson, que observa, chocado, os dois. Nelsinho e Médici dão as costas um para o outro e saem de cena. Nelson se abraça a Heleninha, e, enquanto escorrega até os pés da mulher, as luzes se apagam. A plateia vê silhuetas entrando em cena: trazem a mesa grande, cadeiras, um jarro com flores. A família Rodrigues senta-se. Os nomes estão postos à frente de cada um. Agora, estão vazios os lugares de Milton, o irmão mais velho de Nelson, e o da matriarca, Maria Esther. A mesa difere-se bastante daquela vista no início da montagem. São sete pessoas a menos (Roberto, Mário Pai, Mário Filho, Joffre, Paulinho, Milton e Maria Esther). Nelson olha as irmãs, que estão olhando para ele, com uma expressão vazia no rosto.

Nelson – Eu falei: quando um Rodrigues morre, leva outro consigo. Milton levou mamãe.
Dulcinha (olha o irmão) – Então precisamos passar um tempo sem morrer.
Nelson (quase ri) – Estou me cuidando, estou me cuidando.
Maria Helena – A hemorragia foi forte,
Nelson, você sabe. Você foi internado várias vezes nos últimos meses e ainda assim continua a fumar. Aquela enfermeira cuidou bem de você?
Nelson – Heleninha não era apenas uma enfermeira, você sabe, não a trate assim.
Dulcinha – Ela é passado. Você fez bem em voltar para Elza. Ela nunca o deixou.
Nelson – Porque o casamento é assim, eterno.
A única coisa que dura para além da morte é o amor.
Maria Helena – Não se dependesse de você.
Nelson – Nelsinho nos uniu de novo.
Maria Helena – E ele, como está?
Nelson – A única promessa que me fizeram é que o deixarão sair da prisão para ver o filho nascer.

Todos da família levantam-se e apenas Nelson permanece em cena, sentado à mesa. Tem a aparência extremamente cansada. A mão continua no peito e ele está cabisbaixo. Nelsinho entra e traz uma máquina de escrever. Coloca em frente ao pai. Sorri para ele, que levanta-se e abraça o filho. Nelsinho sai e, prestes a sair do palco, vira-se. Aplaude o pai e sai de cena. Nelson senta-se de costas para o público e começa a escrever. O seu texto pode ser lido por toda plateia: "Morri com 68 anos. Durante essas quase sete décadas, me apaixonei cerca de 1.097 vezes. Odiei umas 30. Dentre as pessoas e coisas que amei: Elza e os meninos, minhas peças, cigarros ordinários, Lúcia, música barata, criança desdentada, Roberto, Mário e Joffre, o Fluminense, mulher bonita e burra, dramalhão, purê com carne moída, Dostoievski, redações, Yolanda, Nonoca, visitar cemitério, ficar só, ficar acompanhado, ir ao estádio, Daniela, o Otto Lara, a Zona Norte, o humor, a inocência, a exclamação. Dentre as coisas que odiei: luar, chicória, cumprimento, varizes, teatro dos outros, samba, trabalho, Sylvia, psicanalistas, sujeito inteligente, qualquer político. Como veem, detestei pouca coisa frente a tudo que emocionou meu coração. Ele parou sete vezes na madrugada de 21 de dezembro de 1980, um domingo, dia de clássico. Me avisou: estava roto e velho demais. Mas ainda me deu tempo de me apaixonar no fim da vida: minha obsessão foi a liberdade do meu filho. Foi uma felicidade, ali, quieto, no hospital, quando ela chegou para me levar. Estava tão bonita quanto eu me lembrava: cadeiruda, os peitinhos empinados, a linda filha da lavadeira, a menina que eu espiava lá de cima do muro, diziam que era louca, mas não importava. Eu sempre detestei gente normal."