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Fabiana Moraes




"mãe, minhas tripas vão cair. mãe, quem faz isso é bicho."

Quando alguém chegava de fora - para pedir água, para entregar carta, para vender batom de revista – e via as fotos nas paredes da casa de Severina, achava normal aquele amontoado de gente cercado de moldura. Em uma foto tinha um grupo de crianças, usavam farda de escola, eram as meninas e os meninos. Na outra, maior, estavam duas pessoas, bem maiores e bem mais sérias: o pai e a mãe. Sobre as molduras, um crucifixo, uma Nossa Senhora, um Papai Noel de plástico. Aquela parede tranquilizava porque estava tudo ali: os filhos para encher a casa e alegrar os pais; os pais para manter a casa e cuidar dos filhos; Jesus, Maria e Noel para proteger a casa e conceder aos filhos e pais alguma fantasia. Mas quem vinha de fora não sabia que a moça da moldura maior, a mãe, era igual aos meninos e meninas da moldura menor. Era irmã deles.

"a filha deve ser a mulher do pai."

Foi Maria Eudócia, mãe de Severina, que adiantou. Se o marido tinha que se deitar com outra, que essa outra fosse de casa. Se ele já olhava de um jeito diferente para a menina, que fizesse sua vontade. Severino era bruto e todo mundo tinha medo dele. Sentava na calçada, perto da porta, e limpava a espingarda. Um espetáculo pessoal feito para intimidar. Não falava com quase ninguém. Assim, entregar a menina mais velha podia melhorar as coisas: piorar certamente não ia (mas depois que passou o tempo, piorou). Não ia oferecer Rosa, Marinês, Antônia, Rosinete, Marinete, Marilene ou Joana. Eram pequenas demais. Estavam todas dormindo naquilo o que era a cama das mulheres – um monte de casca de fava coberto com estopa – quando Maria Eudócia apareceu. Pegou Severina pelo braço e levou a filha até a cama do marido. Nunca mais a menina, tinha 9 anos, voltaria a dormir ao lado das irmãs.

"Quem é o pai desse menino de severina?"

Otília, irmã de Severino, estranhou quando viu a barriga crescida da sobrinha. Também tinha medo do irmão, mas arrumou coragem ("a palavra me pesava") e perguntou de quem era o menino só aquela vez, a única vez, apesar de saber que Severina engravidaria outras 11 vezes do próprio pai. "Essa barriga é lá de casa mesmo", Severino respondeu. Otília, está sentada no sofá laranja colocado sob as molduras que mostram a normalidade familiar, também estava por perto quando a sobrinha perdeu sete dos 12 filhos gerados. Alguns morreram na barriga, outros após o nascimento. O primeiro veio quando a menina completou 14 anos – foi também a idade da primeira menstruação. O parto inaugurou a maternidade da pequena Vila Itaúna, zona rural de Caruaru. Edevaldo morreu cinco meses depois. Aos 15, Severina voltou para a maternidade e teve Edileuza, que viveria apenas três meses. Os dois filhos seguintes nasceram mortos. Passaram-se alguns meses e Severina, seguia dividindo a cama com o pai, preparava-se para ter outro filho. Foi com a mãe fazer exames e a médica que a atendia não compareceu. No seu lugar, havia um médico. Ele tocou na barriga da jovem, auscultou, fez recomendações. Quando chegaram em casa, Maria Eudócia foi até o marido. Atiçou: "O doutor passou foi tempo mexendo na barriga dessa daí." Severino surrou a filha. Tinha avisado: ele era o único homem que podia tocá-la. Espancada, Severina passou três dias sem conseguir se movimentar. Não ia pra roça, não pegou na enxada. Ficou doente. O bebê havia morrido por causa das pancadas e ela não sabia. Estava com seis meses de gravidez.

"ela só volta pra casa se não tiver se deitado com outro homem."

Severina já tinha colocado mais dois meninos em dois caixões brancos quando, aos 23, finalmente teve um filho que se criou. Chamou-se Antônio Severino. Ela se apegou. Depois veio Antônia (é preciso falar dela mais tarde: gosta de Severina, a mãe, mas odeia Severina, a irmã). Os dois eram pequenos quando Rosa, irmã mais nova que Severina, arrumou um namorado e fugiu com ele. Severino ficou furioso: entendia que, como pai, deveria também ser o primeiro a ter relações sexuais com Rosa. Culpou a mãe, Maria Eudócia e, quando ela implorou para a filha voltar, ele pediu a garantia da virgindade da menina. Maria Eudócia não pôde se comprometer e por isso Severino decidiu: mataria Rosa caso ela retornasse ao lar. Um dia, a garota passou em casa para buscar alguma ajuda, algum dinheiro. Ele a encontrou. Pegou a faca. A mãe tentou defender a filha e logo as duas eram o alvo da fúria do Bruto, o que exigia fidelidade sexual de todas as meninas que gerou. Severina não quis ver a irmã passar pelo o que ela há anos vivia e segurou o pai pelas costas. Rosa e Maria Eudócia saíram correndo e não voltaram. Alugaram uma casa em outro distrito próximo. Até aquele dia, Severina pedia a bênção ao pai. Depois que sua mãe saiu de casa, ele se tornaria somente Severino. Severina estava só: achavam que ela era a única "mulher" do Bruto.

"a faca é pra fazer um serviço que você vê o início, mas não vê o fim."

Outras crianças foram nascendo: José Severino, Antônio e Cícera. A mãe que era filha seguia da roça para casa, da casa para roça, não falava direito com ninguém, só um bom dia, um boa tarde, sempre rápido, que o marido que era pai podia não gostar. Os filhos também não podiam ir para a escola: o lugar deles era na plantação de feijão e mandioca. O pai que era avô não queria nenhum pela rua, principalmente as meninas. Severina continuava a apanhar, às vezes ele usava uma corda, às vezes, um cabo de foice. Fugiu várias vezes. Procurou delegacias e contou o que passava, que era violentada, que era espancada. Um delegado, que já conhecia o Bruto Pai, contemporizou. Disse que ela voltasse para casa, que ele era uma boa pessoa. Havia recebido um bom presente (um bode pronto para o abate) daquele homem trabalhador, daquele simples vendedor de fubá. Severina, o rosto machucado, falou: "o senhor só não prende ele por causa do presente". O delegado, que era da mesma carne de Severino, deu uma bofetada na agricultora. Ela voltou pra casa e continuou a criar os meninos naquele pequeno e decorado inferno onde as únicas pessoas normais estavam congeladas nos retratos da parede. Um dia, viu o pai que era marido passar a mão nos peitos minúsculos de Antônia. A menina tinha 11 anos. Inflamou-se. "Pai tarado da peste. Eu sou filha de Maria, mas eu não sou Maria Besta", disse ela, puxando a filha. No outro dia, Severino chegou com uma faca de 12 polegadas. Ameaçou: se Antônia, a filha que era neta, não fosse dele, Severina, a filha que era esposa, morreria. "E se tu morrer, eu vou ser o dono dela." Nesse dia, a Severina que há quase 30 anos era violentada pelo pai, uma cicatriz no rosto herdada da surra que matou seu bebê, a Severina que várias vezes tentou se matar, decidiu. Arrumou R$ 830 e procurou um inimigo do Bruto (não era difícil arrumar um). Mostrou o dinheiro e pediu:

"sangre ele como se sangra um porco. tarado tem que morrer".

Severino chegou na hora do almoço, tinha passado a manhã fazendo o fubá que vendia na feira. Entrou na cozinha, abriu a geladeira, pegou a garrafa de água. Severina estava escondida bem perto, no pequeno quintal da casa, quando ouviu pela última vez a voz do homem que há tanto tempo a agredia. Fez um som estranho, cortado, abafado, de quem sabia que havia chegado ao fim. O corpo desabou e ela foi até a janela. Viu o pai morto no chão. Viu suja de sangue a mesma peixeira que ele comprou para matá-la se ela não entregasse Antônia. Foram sete facadas. "Desde aquela hora minha vida mudou. Eu estava livre." Era terça-feira, 15 de novembro de 2005. Severina entregou o dinheiro a Edilson Francisco de Amorim e Denisar dos Santos (17 anos de prisão). Antônio, o filho mais velho, estava no quarto ao lado e viu o pai ser assassinado. Viu também a mãe que é irmã pagando o serviço dos matadores. Estava ao lado dela no outro dia, durante o enterro, quando a polícia chegou. Severina saiu do cemitério direto para a delegacia. Dois dias depois, era encaminhada ao presídio de Garanhuns. Foi Antônio quem contou tudo para a avó, Maria Eudócia. Foi Maria Eudócia quem ligou para a polícia dizendo que a filha mandara matar o pai.

"eu não gosto dela e ela não gosta de mim."

Apesar de ter sido violentada e espancada durante 28 anos, apesar de ser, de acordo com a Justiça, alvo de mais de 5 mil crimes, Severina ficou presa durante um ano e sete dias, tempo em que só viu os filhos duas vezes. Era Otília, a irmã de Severino, quem levava as crianças, também cuidava das meninas e dos meninos, filhos de um pai morto e de uma mãe encarcerada. Agora, os irmãos experimentavam uma conflituosa condição: sentiam falta da mãe, queriam de volta a certa normalidade sugerida pelos quadros da parede. Mas odiavam a irmã, que era igual a eles, a irmã que tirou a vida do próprio pai. O sentimento estava concentrado em Antônia, a filha-neta que Severino desejou. Agora, vamos falar dela.

"eu lembro dela feliz."

Quando Antônio falou para Maria Eudócia que vira Severina entregar dinheiro para os assassinos do pai, abriu, para sempre, um vácuo entre ele e a mãe/irmã. Percebeu assim que a viu sair da prisão: não seria mais possível lidar com ela. Para Severina, as cenas de violência que em tese seriam passado após a morte do pai estavam de volta: agora, Antônio ocupava o lugar do Bruto. Com o primogênito, os desentendimentos eram frequentes: um dia, ele tentou ferir a mãe com uma tesoura, em outro, destruiu roupas e objetos que constavam naquela casinha verde. Severina, conhecedora profunda da barbárie, entendeu rapidamente que precisava manter-se longe dela. Foi para isso que mandou acabar a vida do pai. Não retornaria ao murro e à tapa. Alugou uma casa ali por perto e para lá mandou o seu primeiro menino. Até hoje ele mora ali: quando passa em frente ao antigo lar, baixa a cabeça para não falar com a mãe. Ela acha um absurdo, absurdo depois de tudo aquilo, os espancamentos, os estupros, a falta de emprego depois da prisão, a vergonha infeliz de ter que pedir esmola na feira de Santa Cruz para poder alimentar os filhos ("foi o jeito, ninguém dá emprego a quem sai da cadeia"). No mínimo, ele poderia pedir-lhe a bênção. No mínimo, ser mais carinhoso. Ela fala alto, exige o amor, o respeito, mas ele não diz nada. E aí Severina ("um dia ele não vai ter mãe, vai sentir falta") volta para dentro de casa e encontra o olhar irônico, magoado e carente de Antônia. Morreu Severino, saiu Antônio de casa, mas a menina, irônica, magoada e carente, está lá. Há anos não trocam um afago. A mãe/irmã tentou um abraço, a filha/irmã se afastou. Antônia não esconde um certo desprazer ao ouvir Severina falar. Debocha, aponta, vira os olhos, acusa. "Ela não gosta de mim", diz a adolescente da mãe. "Ela não gosta de mim", diz a mãe da filha. A professora chamou Severina para conversar. Estava preocupada. "Antônia anda dizendo aqui que vai colocar veneno na sua comida."

A mágoa maior de Severina é que esses filhos tão custosos de ter, tão custosos de olhar como apenas filhos, jamais entenderam o que é ter uma mãe que também é igual. Uma mãe que não consegue ter uma atitude daquelas que todo mundo espera da mãe, uma mãe que seja mãe, mãe mesmo, e pronto. Maria Eudócia, a mulher que a pariu e a entregou ao pai, não. Ficava com raiva da filha toda vez que ela ia a uma delegacia denunciar Severino. Deixou de olhar na cara dela depois que soube da morte dele, depois que Antônio contou que viu a mãe pagando o assassino. Para Maria, o marido estava acima de tudo, e nunca, nunca, poderia sofrer nada: era Pai. Como Severina podia ter feito aquilo, mandar matar o homem que a gerou? Maria não foi para o enterro do marido, não queria ver a filha, mas mandou a polícia até lá. Disse que fora Severina, a mais velha, uma filha ruim, muito ruim, quem pagara pela morte. Maria Eudócia não cuidou dos netos quando a filha estava na prisão. Continuou em casa, remoendo aquela perda. Otília não condenou Severina pelo assassinato do irmão. Ao contrário: cuidou das coisas, matriculou os meninos na escola, agora estavam livres para estudar, continuou ao lado deles e dela, é mãe como Maria Eudócia não foi. Estava no tribunal quando a mulher que viu engravidar tantas vezes do pai foi julgada. Estava no tribunal e testemunhou a favor de Severina e contra o irmão (no processo, estava escrito que Severina era "perigosa" e não "respeitava a instituição família"). Viu emocionada quando a agricultora foi absolvida em 25 de agosto de 2011, quando finalmente deixou a condição institucional de ré. Agora a experimenta unicamente em um outro plano, o plano-destino no qual foi enquadrada desde que saiu do corpo de Maria Eudócia. Severina não sabe o porquê, mas a mãe sempre a acusou. Lá na casinha verde, em março deste ano, soube que a mãe estava muito doente. Ligou para irmã Rosa e pediu para vê-la. Na cama do hospital, Maria Eudócia respondeu: "Diga que eu não estou com coração preparado para ver ela não". Severina aceitou, mas esperou que qualquer hora a mãe decidisse recebê-la. Menos de dois meses depois, veio a notícia da morte. Severina, que gosta de se arrumar para a aparecer na foto, Severina, que visita o túmulo de Severino no dia dos pais, Severina admitiu: "eu fiquei um pouco assim, arrasada." A mãe foi bruta, foi ruim. Mas Severina queria ter se despedido. Como mãe, sabe como é bom o amor dos filhos. Por isso, lhe dói não ter demonstrado isso na partida de Maria:

"tudo que eu queria era me ajoelhar aos seus pés e pedir a sua benção"