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Fabiana Moraes




Maria José tinha 20 anos e dois filhos pequenos quando resolveu se jogar na frente do trem velho que se dirigia ao litoral. Enquanto ela avançava sobre a máquina, usava amarelo, as crianças esperavam a avó terminar as mamadeiras. A senhora de cabelos curtos era a mãe do homem pelo qual Maria José resolveu ir embora, o homem que nunca estava em casa e há pouco havia deixado de amá-la. Os filhos pequenos, Francisca e Cássio, ela com dois anos, ele com um, estavam adormecendo quando chegaram correndo e gritando e batendo no portão. Disseram que Maria José estava sobre a linha do trem, que estava dividida em duas, agora usando vermelho. A avó se assustou, embora aquilo não fosse exatamente uma novidade: fazia algum tempo que a nora parecia partida. Lembrou do que ela disse antes de sair de casa: "Cuide de Francisca para mim".

Maria José (1965-1985) está aparentemente inteira na foto do santinho que Francisca, agora com 29, guarda consigo. Cuida bem do papel amarelado que em um educado português, aquele geralmente dedicado aos mortos, solicita: "Em vossas orações, lembrai-vos de Maria José dos Anjos". Uma vez beijou a imagem, deixou nela os lábios cor-de-rosa, materializou aquele amor que julgam inato, "amor de filha para mãe". Mas seu amor é construído e não poderia ser diferente. Afinal, como se ama alguém tão pálido e que foi viver tão distante?

A única informação real sobre a suicida que não suportou o desamor lhe transmite certo conforto: "Você parece com ela, era tão bonita". Cresceu ouvindo isso, ficou vaidosa, por ela e pela mãe. Antes de morrer, Maria José decidiu criar apenas a menina e prometeu o garoto a outra mulher, uma tia, irmã do homem que nunca estava em casa e há pouco a havia deixado. Maria não conseguiu suportar a outra família que ele quase formou, a outra filha que ele fez em outra mulher e que nasceu pouco antes da sua menina. Matou-se para esquecer. Assim cresceu Francisca: o pai sempre fora de casa, o irmão em outra família, uma irmã desconhecida, a mãe morta, banhada de vermelho e para sempre dividida em duas. Fez três, quatro, cinco, oito anos e durante todo esse tempo ela aprendeu a nomear os avós de pai e mãe, já que o normal era ter a figura de cada um, já que o normal era ter cada um ao lado do filho. O casarão construído perto das linhas do trem era quase totalmente tomado por homens, oito tios e duas tias. Foi uma delas que casou, deixou o lar e levou Cássio. Assim, o menino também aprendeu a nomear de pai e mãe os tios que o adotaram, já que o normal era ter a figura de cada um, já que o normal era ter cada um ao lado do filho. O pai distante às vezes aparecia. Francisca entendeu que aquela seria a regularidade do amor singular que ele lhe daria: meses fora, algumas semanas perto, uma frase qualquer, talvez um afago na cabeça.

Era alguma coisa, já que naquela casa extremamente masculina, onde as sutilezas não eram cultivadas, ela estava sempre à espera de algo que a fizesse sentir-se querida. Talvez querida não seja exatamente a palavra, Francisca não sabe explicar, talvez quisesse apenas morar com pessoas que parecessem com as outras pessoas, parecer uma menina como as outras meninas, meninas cujas mães não tivessem morrido partidas por um trem. Aquele trem representava toda aquela antissutileza. Por exemplo: na casa, quando fazia algo considerado errado, sua mãe falecida sempre voltava. A avó ameaçava mandar a menina para a outra família, a "família de lá", eram pessoas do outro mundo, e o mundo dos "dos Anjos" devia ser temido. Diziam: eram muito pobres, muito mesmo, não tinham casarão, não viviam perto da praia. Acrescentou outra informação sobre a mãe: além de muito bonita, vinha de um lar de gente sem nada. Compreendeu que algum conforto material era o máximo afago que teria naquela casa masculina, que não seria como as outras meninas, aquelas que, quando chegavam da escola, ouviam: "Filha, como foi na escola hoje? Filha, quer almoçar?". Mas Francisca, diz isso como se fosse casualidade, lembra daquela antissutileza e fala: "Nunca escutei nenhum deles dizer que me amava". Ficou sabendo que a irmã que nascera da outra mulher, a mulher pela qual sua mãe se partiu, mudara-se para outro País. Parecia que estava bem. Imaginou que ela tinha outra e melhor vida. A partir daí a irmã passou a fazer parte, na cabeça de Francisca, de um mundo desejado e não temido.

Se essa irmã desconhecida tinha uma mãe, ela tinha, mesmo que sazonalmente, um pai. Por isso aprendeu a ficar feliz quando o homem que desamou sua mãe partida voltou novamente ao casarão. A avó, como sempre, mostrou-se feliz com mais uma visita do filho que ela pouco criou. Ele veio, com ele uma frase qualquer, talvez o afago na cabeça. Francisca ficava por perto experimentando a certa normalidade que a presença do pai trazia. Um dia, à noite, ele saiu para beber, conversar, aquelas coisas que os homens da casa gostavam tanto de fazer. Ela foi dormir. Lembra quando acordou, sentiu a mão sobre o corpo, o short sendo puxado, e o hálito (eternizado em sua memória) que acompanhava a frase: "sou eu, não grite". Tinha nove anos e viu o pai, que naquele momento não via a filha. Francisca foi ficando nua, nua e muda, nua, muda e congelada, enquanto ele tirava a roupa e tocava seu corpo sem peitos, sem pelos, o corpo que enfrentava mais uma antissutileza.

Alguém abriu a porta e viu a menina e o pai, ambos nus. Avançou sobre os dois, tirou Francisca de lá, levou para outro quarto. Ela não sabe muito bem o que aconteceu, nem nunca vai saber. Dormiu. Quando levantou no outro dia, caminhou até a cozinha e a maioria da família estava ali, conversavam alto, conversavam espantados, só pararam quando ela chegou. Entre aquelas pessoas estava a tia que tornara-se a mãe de Cássio (seu irmão teve mais sorte, lá na casa que ele morava perguntava-se "como foi na escola?"). Decidiram que Francisca iria ficar com ela até que aquele pai que desamou sua mãe, que desamou sua filha, as duas agora estavam partidas, fosse embora.

Aquele episódio teve uma coisa boa: cuidaram um pouco mais da menina, viajou nas férias, ficou perto do irmão, era um contato aproximado da vida que queria. As aulas começaram, voltou ao casarão. Pouco tempo depois sua avó de novo anunciou: "seu pai está chegando". Naquele momento, já desaprendera a ficar feliz com a visita. Ele veio com o afago que simulava amor. Parecia que o "não grite" não havia acontecido, todos conversavam normalmente, masculinos, ela passava entre eles e ia brincar em frente ao muro alto do casarão. Uma vez, o pai chegou acompanhado por uma mulher. Estava grávida. Demoraram lá no casarão. Francisca lembra quando ela pariu: tinha dez anos e Juliana, o bebê, veio para ser mais uma naquela casa, mais uma criança que, de longe, parecia integrar uma família ideal. Avô, avó, tios, todos ficaram contentes com a ampliação familiar. Tudo entrou em um certo ritmo e certa organização de papéis – havia uma mãe, um pai, uma menina, um neném. Aí julho chegou. Francisca tinha onze anos quando o pai que a partiu em mil atravessou o portão. "Vamos na barraca comigo." Era algo que ainda os aproximava depois daquele "não grite". Ele a chamava e ela ia até aquele balcão meio precário com ele, ganhava qualquer doce, ele tomava uma cerveja. Naquele dia, não quis ir. Continuou a brincar. Aí ouviu, pouco tempo depois, um, dois, três tiros. Aí todo mundo começou a correr, não para fugir das balas, mas para saber a quem elas se dirigiram, de quem era o corpo, agora espetáculo, que estava estendido no chão. Francisca foi junto, correr fazia parte da brincadeira, chegou até a barraca. Seu pai estava caído e usava o mesmo tom de vermelho que sua mãe vestira há nove anos atrás. Estava partido. Olhou para ele mas não o viu: caiu no chão, desmaiou. Pelo menos era tranquilo aquele lugar.

SURGE UM DOS ANJOS

Quando Francisca acordou, tudo estava submerso em choro e drama, percebeu que o casarão nunca abrigaria a normalidade que ela ansiava, a normalidade que ela realmente acreditava existir. Ali seria sempre assim, uma lógica própria, uma economia de afetos, uma rede organizada da qual ela se desencaixava. A necessidade da sutileza, do amor, da mãe, do "como foi na escola hoje?", eram suas. A mãe de Juliana levou a menina, só seis meses de idade, para longe do casarão. Em pouco tempo voltou. Não deu conta da criança, preferiu deixá-la aos cuidados da lógica própria daquele lar. Se ele já abrigava uma menina sem mãe e pai, poderia abrigar outra. Francisca passou a cuidar da irmã pequena, a ser a expressão de mãe mais próxima que ela conheceria: dava banho, dava almoço, levava para a escola. Exercitava ela própria o modelo que desejara para si. Foram as duas crescendo amparadas por uma frágil rede de proteção. Apesar disso, não se tornaram próximas, amigas, nada daquilo que o nosso ingênuo senso de normalidade poderia esperar. Escreveram histórias distintas. Enquanto Francisca buscou anteparos que a resguardavam daquela vida que mal a acomodou, Juliana se inseriu bem naquele ambiente, naquela lógica, naquele pressuposto. O mundo das irmãs era compartilhado, mas cada uma interpretou à sua maneira o ambiente sem heróis ou belas histórias para contar. O tempo passou. Francisca fez catorze anos e arrumou um emprego. Fez dezoito, arrumou o pouco que tinha e anunciou: estava saindo de casa. Deixou Juliana para continuar a ser cuidada pelos avós. A menina tinha dez anos quando passou a ser a única garota do casarão a não ter a companhia do pai e da mãe. Sobre a saída de Francisca, um dos tios comentou: "Mudar para quê? Ser puta? Não dou um mês e você vai querer voltar".

Não voltou. Alugou um apartamento, arranjou outros empregos, vendeu roupas, impressoras, apartamentos. Passou a ser aquela pessoa da família que aparece de vez em quando, a pessoa que, ao se afastar, parece conquistar mais simpatia daqueles que deixou longe, como se apenas a distância ela tivesse sido finalmente percebida como alguém que valia a pena. Seu aparente sucesso material, seu distanciamento da lógica própria do casarão, seu inovador não às pequenas barbáries emocionais a transformaram em exemplo. Seu irmão também havia crescido, e, apesar de ter passado a vida em uma casa onde diziam "como foi seu dia?", começava a dar sinais de desamor próprio, de desamor aos outros. Era um exemplo que ensinava a Francisca: a normalidade nem sempre era bem-vinda. Cássio frequentou boas escolas, recebeu atenção apropriada, os afagos apropriados. Costumava frequentar estádios, gostava de futebol, o homem que o adotou, também. Fizeram bons amigos. Um deles, André, tornou-se mais próximo, saíam para beber, conversar. Um dia, André, que era tão importante e ninguém ainda sabia, começou a contar sua história pessoal. Que sua família foi maior, que uma tragédia aconteceu entre eles, que, quando era mais jovem, sua irmã havia se jogado em frente a um trem velho que dirigia-se ao litoral. Que sua irmã ficou desesperada quando soube que o marido tinha outra família. Que sua irmã tinha 20 anos, que usava amarelo, que morreu dividida em duas. Que tinha dois filhos e que nunca teve a oportunidade de vê-los, nem sabia como chegar a eles. Que era um dos Anjos.

Os tios-pais de Cássio primeiro emudeceram e não falaram para André que o menino que criavam era o filho de sua irmã suicida. Mas entenderam que não seria justo mantê-lo afastado dos sobrinhos, das divinas provas da rápida passagem de Maria José pela vida. Marcaram um encontro e contaram tudo. Para Cássio, que tinha em casa a figura do pai, o novo parente continuou sendo um amigo. Para Francisca, não houve opção: em pouco tempo André se transformou naquele herói que sempre deveria estar a seu lado, aquele que deveria ter a levado à escola, aquele que nunca deitaria nu ao seu lado, que nunca tiraria sua roupa e pediria "não grite".

Tornaram-se quase inseparáveis. Quase porque ele tinha sua própria família, sua vida, sua casa e sua lógica. Ela foi bem recebida ali, mas até certo ponto. O surgimento inesperado da filha daquela suicida causou algum espanto: havia um certo conforto, uma certa beleza, em não saber onde estavam os filhos daquela mulher nem amarela, nem vermelha, mas já desbotada. O aparecimento de Francisca trouxe o trem, os trilhos e toda uma história que parecia ter acontecido com outros à tona. Ela, a despeito do leve incômodo alheio, estava feliz e encontrava André, contava sobre como era difícil manter-se, contava dos amores frustrados, do casamento fracassado. Chamava-o de pai. Ele a apoiava, aconselhava, contava sobre suas alegrias e mesquinharias e frustrações também. Chamava-a de filha.

Enquanto Francisca e André se conheciam, enquanto se assombravam com a própria história, Juliana ia crescendo no casarão que a irmã mais velha deixou, ia aos poucos sendo moldada pelo avesso da sutileza. Em uma das visitas que fez ao antigo lar, Francisca percebeu que a menina absorveu a lógica específica, a lógica do trem. Decidiu que sua irmã não poderia engessar ali: deveriam morar juntas. Talvez desse tempo de reverter aquele modo de olhar a vida, talvez Juliana se acostumasse com alguma delicadeza. Levou a irmã para viver com ela no apartamento alugado. Com os dias, foi ficando claro que os antigos cuidados, o levar para a escola, o banhar, o dar o almoço, nada disso foi registrado pela menina. Não havia conversa, entendimento, carinho. Francisca percebeu que, trazendo a irmã para perto de si, trazia novamente aquele casarão masculino e desenfreado para seu cotidiano. Mas chegou tarde: o trem já havia passado. A irmã voltou para o casarão e ela voltou a ficar só na vida que escolheu para si. Antes de ir, Juliana contou a Francisca que estava tentando localizar a mãe que há quase 15 anos havia ido embora. A mãe que a largou na antissutileza do casarão. Achou-a na internet e só aí conheceu seu rosto. Falaram ao telefone e Juliana pôde conhecer sua voz. Prometeu: viria a Recife conhecer, de verdade, a sua filha. Pouco tempo depois, Juliana engravidou. Tinha dezesseis anos, deixou de estudar. Francisca ficou sabendo que o bebê era de um rapaz que morava nas imediações: antes de o filho nascer, ele foi preso. Menos de dois anos depois, Juliana engravidava novamente, de outro rapaz. Ele não estava perto quando o menino nasceu. Foi encarcerado no mesmo presídio onde o pai do primeiro ainda estava.

A filha da falecida Maria José acompanhou tudo aquilo de longe, ficou preocupada, mas sua vida também ia aos solavancos. Tentara um novo casamento, mas ele acabou tão rápido quanto começou. Viu-se completamente sem dinheiro, repleta de contas a pagar. Mas tinha André. A relação de proximidade dos dois tornou-se mais forte quando ela foi morar perto, na casa ao lado, a casa que ele conseguiu para ela. Ali era bem tratada por todos, mas, como no casarão que conhecia tão bem, começava a perceber que tornava-se de certa maneira invisível para todos aqueles que não eram André. Não se importou: tinha um pai. Estava em péssimas condições financeiras, estava só, mas tinha um pai. E seu histórico, àquela altura, impedia que ela sentisse certos tipos de dores. Este foi sem dúvida um dos maiores bens que levou após partir-se, ainda criança, ao meio.

Quando as coisas melhoraram, quando arranjou outro emprego, saiu da casa que ele custeava, seguiu em frente sentido-se confortável. Apesar de Juliana, da distância, das tentativas frustradas de se organizar financeiramente, estava feliz: sabia que podia contar consigo, sabia que podia contar com aquele que era um carinho e um herói. Até que um dia ligou e ele não atendeu. Até que ligou de novo e ele não falou. Até que o procurou e não encontrou. Mandou e-mail e ele não respondeu. Uma vez, outra, outra. Imaginou que poderia não ter agido corretamente com ele, que talvez tivesse falado algo que não foi apropriado, talvez tivesse cometido algum ato que inspirasse sua decepção ou desconfiança. Imaginou que sua presença contínua pudesse ter causado algum curto-circuito na família que ele construiu. Que tivesse se aproximado demais, solicitado demais, precisado demais. Talvez não estivesse acostumada a ter um pai. Talvez – será? – tivesse lidado, com ele, com a antissutileza com a qual sempre fora tratada.

Quis falar, pedir desculpas. Mandou outro e-mail e ele não respondeu. Uma vez, outra, outra. Nada aconteceu. Até que André, um dos Anjos, como ela, finalmente surgiu na caixa postal. Ele falava: "Eu tenho saudade, eu gosto de você, mas não quero mais contato. Vai ser difícil confiar de novo. É melhor assim." Foi assim, sem tiro, sem trem e sem trilho, que ele desapareceu. Faz quase seis anos e ela, fez aniversário mês passado, partiu-se novamente em mil.