Canteiro de sonhos

Pouco importa a hora do dia, a temperatura ou a posição do sol. Na Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, Região Metropolitana do Recife, dia e noite não são, necessariamente, expedientes de trabalho e descanso. São turnos. Mudam os funcionários e a luz solar cede espaço para a iluminação artificial. De longe, no mirante, veem-se centenas de figuras pequenas vestindo azul da cabeça aos pés. De perto, no entanto, os olhos enxergam gente grandiosa e os ouvidos escutam ótimas histórias. Donos de memórias incríveis, são os heróis da Arena. Aqueles que têm trabalhado para tornar o sonho da Copa em Pernambuco uma realidade.


Imagine o barulho das pás contra a terra, do motor dos tratores, do som da perfuratriz. Visualize trabalhadores sob um sol árduo. O suor escorre pelo rosto, por dentro da farda. Os músculos se contraem. Esse é o balé da Arena. Os rostos que a Arrecifes apresenta nesta edição talvez não sejam vistos vibrando nas arquibancadas durante o Mundial.E se seus gritos não puderem fazer eco com os demais torcedores, de casa, orgulhosos, eles estarão pensando: "Tá vendo aquele prédio ali, moço?/ ajudei a levantar", como na música de Zé Geraldo.


ESCRETE DE OURO
Marli Maria de Santana tem 41 anos. Foi a primeira mulher a exercer a função de encarregada de turma. Vestiu a camisa com orgulho. "Lá no campo eu tiro onda. Mando numa turma de 29 homens. De batom, boto moral naquela macharada preconceituosa todinha." Trouxe dois filhos para o mundo. Solteira, conta com a ajuda da mãe para criar a primogênita de 16 anos e com o suor do rosto para cuidar do mais novo. Caçula que, por sinal, enche a boca pra contar aos colegas qual o trabalho dela. "Minha mãe é moral." É a frase do pequeno de 10 anos que sonha em ser jogador de futebol.


A mulher-orgulho chega cedo na obra. Às sete da matina, já está no campo. Nas oito horas diárias de trabalho, percorre os vários setores do canteiro, cobra eficácia e mostra serviço. Já foi montadora e, hoje, é também operadora de grua. Em outubro, trocará, novamente, o capacete. Será encarregada de montagem. Marli não tem nem um pingo de medo de trabalho pesado, de sol quente ou suor. "Venho aqui para marcar gol de placa. Todos os dias." No campo ou fora dele.


A operária chega em casa perto das 19h. Tem roupa pra lavar, comida pra fazer. "Sinto cansaço não. Dá tempo pra tudo. A gente consegue." Marli tem certeza de que conseguirá assistir a pelo menos um jogo no estádio que ajudou a levantar. "Quero muito vir. Vou trazer meu filho, minha filha, eles contam com isso."


E enquanto o filho de Marli sonha em visitar o trabalho da mãe, os herdeiros do encarregado de serviço Lenildo José, 46, já estão lá. "Vim primeiro e depois os dois começaram a trabalhar aqui também", conta o patriarca, que desde os 15 anos, ajuda a pôr prédios de pé.


Os rebentos, que labutam sob o olhar vigilante do pai-supervisor, revelam talentos além da força braçal. O mais velho, José Lenildo, 22, "é bom de bola. Queria ser jogador", conta o pai. O caçula, José Carlos, 20, "perna de pau", não faz uma embaixadinha. Manda melhor no campo artístico. Conhecido como MC Carlinhos, faz seus gols cantando. Passa os recados em versos.


A família Silva mora lá mesmo em São Lourenço da Mata. Eles pretendem assistir à próxima Copa do Mundo de casa, na companhia da matriarca, D. Josefa Francisca, 46. "Todo mundo junto em casa, comemorando. A gente vai fazer a festa com uma cervejinha na mão", diz José Carlos, o mais novo. Opa! Na frente do chefe, rapaz? "Não, não. Aqui no trabalho é na rédea curta, mas em casa tem isso não. A postura é outra."


O primogênito, mais apaixonado por futebol, deixa escapar a esperança de ver um jogo de lá, da arquibancada – pertinho de onde esta entrevista aconteceu. "Se houver uma oportunidade, eu queria vir." Eles não sabem se vai dar, mas, enquanto isso, ensaiam os gritos de gol nas arquibancadas do Estádio José do Rêgo Maciel, o Arrudão. Mas se conseguirem se unir ao coro de vozes em dias de jogo na Arena Pernambuco, pode até ser que o caçula saia com um rap. Por enquanto, o recado é sobre a obra. O rap, caro leitor, é o da Produção e diz assim: "Dia e noite, noite e dia/ Olha, de noite, noite e dia/ A produção é grande, ninguém para e nem esfria." Mesmo em tom de brincadeira, José Carlos narra o ritmo da obra.


O trabalho na Arena não para mesmo. Foi difícil, mas depois de alguns minutos tentando, achamos Dedé. Apaixonado pelo Santinha, Adriano Mangueira, 47, ganhou o apelido porque assim resolveu chamar os colegas da construção. "Todo mundo pra mim é Dedé. Faço assim e não corro o risco de errar o nome do pessoal. Num é melhor?", questiona. Técnico em topografia, ele, apesar de estar com a forma física avantajada, não deixa de bater uma bolinha com os amigos nos dias de folga. "Sou gordinho, né? Só fico parado na banheira. E se me mandam voltar pra defesa, grito: 'manda a Kombi'", conta, rindo.


"Já fui muito bom na pelada. Hoje, só engano, mas sou louco por futebol. Uma vez minha mulher mandou escolher entre ela e o Santinha. Eu disse: 'melhor não pedir isso, não.' Não adianta. Se jogar a seleção brasileira contra o tricolor do Arruda eu fico com o Santa Cruz, claro", diverte-se. Por amor à bola, Adriano possui uma memória vasta em relação a futebol e a jogos marcantes. E quando as brincadeiras e piadas sobre o esporte dão espaço ao papo sério, o operário confessa sentir-se privilegiado com o trabalho em andamento. "Paro e fico pensando que poucos terão a possibilidade de participar de algo tão grandioso quanto a viabilização de jogos de uma Copa do Mundo no nosso Estado. É história para contar até o fim da vida."


Num passeio com Dedé por perto da área onde ficam estacionados os ônibus que levam e trazem os trabalhadores, avista-se algo curioso. É o fusca-bola do técnico de instalações Lourenço de Moraes Filho, 60. O modelo é de 1980, mas a pintura nem sequer tem um ano. "É a mascote da obra. A ideia surgiu a partir da logomarca da Arena", conta. Usando o dialeto "engenharesco", revela que ele mesmo desenhou o "gabarito" da pintura. "A gente começou a fazer na pistola, depois foi na mão mesmo."


É no fusca-bola que Lourenço vai para o complexo todos os dias. Estaciona o possante perto de uma das portarias. Não tem como não ver o veículo e, mesmo que isso aconteça, provavelmente é impossível não escutar o barulho que ele faz. "Ele grita gol, assobia para mulheres bonitas, gargalha dos marido delas, pede passagem e ainda manda os folgados desencostarem do capô." Segundo Lourenço, o som campeão na obra é o que imita o mugido do touro. "Aí é greia. Todo mundo vira chifrudo", diz Lourenço, no bom português do povo.


SONHOS
Impossível tentar adivinhar por onde vagueiam os pensamentos de cada um dos três mil homens e mulheres que se dividem entre os setores da construção. O que fica explícito é a paixão pelo futebol. Quantos sonharam em ser jogadores profissionais? Quantos choraram com vitórias e derrotas dos seus times? Não é possível mensurar. A paixão pelo esporte que motiva toda essa engenharia, no entanto, é sentida a todo o instante, como se pairasse no ar: durante a entrevista, da parte mais alta da construção, um grupo enxerga uma bola de futebol e acena ao ver um colega tentar fazer umas embaixadinhas. Piadinhas tomam conta do ambiente. É a fome de bola do brasileiro mostrando a cara lá no meio do canteiro, que, por acaso, é o centro exato do próximo campo do Estado.


O jogador da vez é o encarregado de hidráulica Washington José, 38. Peladeiro bom de bola, foi o vencedor disparado do concurso de embaixadinhas proposto pela reportagem entre os personagens. Trabalha na obra desde a fundação. Por baixo da farda, a camisa do Sport Club do Recife revela a paixão pelo futebol. Na voz, deixa transparecer a empolgação com a rotina de trabalho. "Acompanhei o crescimento disso aqui dia a dia. No desenvolver da obra estamos vendo o estádio subir, crescer."


Casado, pai de três filhos, o rubro-negro jogou as primeiras partidas com uma chuteira que herdou do pai. Hoje, anos depois, e, claro, com chuteiras novas, sonha em suar a camisa no campo que ajuda a construir. Só que dessa vez de uma forma um pouquinho diferente: "Seria ótimo se houvesse um campeonato interno dos funcionários antes mesmo de colocar o gramado, sabe? Mesmo que seja no chão de terra. É um desejo de todos os operários. Todo mundo é vidrado em futebol".


Enquanto a competição interna habita ainda o campo dos desejos, Washington tenta, ao menos, garantir a entrada para alguns jogos no novo complexo. "Um na Copa das Confederações, se houver, e outro na Copa do Mundo. Pelo menos um de cada campeonato." Todo mês, o porquinho da Copa recebe parte do salário do operário. "Tem muita gente já fazendo isso... Para conseguir ver pelo menos um jogo", revela. A conversa com Washington foi numa sexta-feira. Dia sagrado de pelada para a turma da Arena. O time de elétrica jogaria contra o de hidráulica num campinho na entrada de São Lourenço, o reino pernambucano da Copa do Mundo.

Um dia na Arena

7h
Cinco minutos antes desse horário a sirene toca. Como em toda construção, a ideia é marcar a entrada no serviço. Cinco minutos de dianteira. Quem não tá pronto precisa ficar. É nesse momento que os operários – centenas deles – vão passando, descendo da área que compreende o administrativo, o refeitório e o espaço de convivência para o canteiro. Cumprimentos como: "Bom dia, banguelo", são comuns. Há, ainda, quem siga com o rádio ligado. Ao som de MC Afala e Case ou da banda Magníficos.
7h15 
É nesse horário que acontece, no centro do campo, o treinamento diário de segurança, conhecido como TDS. A reportagem não pode participar, mas consegue escutar, de longe, a voz do interlocutor. "Pessoal, vamos dar bom dia para abrir os pulmões." É a primeira frase. O treinamento, segue, no entanto, com avisos que lembram, por exemplo, a importância do uso do fardamento adequado. A voz que comanda o momento, fecha a reunião dizendo: "Essa é uma obra de risco, mas sem perigo".
7h30 
Os operários começam a se dirigir para os seus setores: montagem, pré-moldados, carpintaria, armação, elétrica ou hidráulica. Em alguns deles, o supervisor direto, antes de começar a labuta, ministra uma oração. Os mais fanáticos por futebol poderiam até ver naquilo algo semelhante ao que os times fazem momentos antes de a bola rolar. Um estímulo à concentração e ao trabalho em equipe. 
8h30 
À essa altura, o trabalho já está a todo vapor. Como nesse horário a circulação de trabalhadores é muito pequena nas áreas comuns, a reportagem foi convidada a fazer um passeio de carro pela Arena. E é de perto que dá para ver - e entender - melhor o funcionamento do canteiro. Enquanto uns operam ou auxiliam equipamentos como guindastes e tratores, outros tomam conta das ferragens. Há, ainda, quem cumpra a missão milenar de cavar. Sob um sol causticante, a cena, quando observada no detalhe, lembra as fazendas de cana de açúcar. Os operários trocam os facões pela pá, as vestes improvisadas pela farda da empresa, o boné pelo capacete. Esquecendo o azul do tecido, no entanto, veem-se homens cobertos da cabeça aos pés. Nucas protegidas, seguem realizando um trabalho braçal aonde as máquinas não conseguem ir. 
9h
Quando a reportagem desce do carro para ter acesso a um mirante, que até aquele dia não havia sido liberado para nenhuma equipe, avista-se o centro do campo, onde está hasteada a bandeira de Pernambuco. E, lá no finalzinho, no lado oposto àquele onde o carro ficou estacionado, uma trave de futebol. Entre os vários metros que separam esses dois pontos, só se vê trabalho. O barulho das máquinas é muito alto. O uso de capacete e protetor auricular é obrigatório.  E apesar de todo barulho, com uma forcinha da imaginação, daquele lugar é possível ter ideia de como será quando os 40% (número que a obra atingiu em abril) chegar a 100%. Fica fácil imaginar o estádio cheio e o coro de vozes que tomará conta do complexo nos dias de jogos. 
11h
O trabalho, que começou cedinho, às 7h, segue ininterrupto até que a primeira turma siga para o refeitório da produção. É dada a largada para a hora do almoço. Do lado de fora, uma fila enorme se organiza. Cerca de dois mil e trezentos funcionários se revezam em horários distintos para comer. O refeitório tem capacidade para 444 pessoas sentadas. Feijão e arroz é o essencial. Todo dia tem. O que varia é a proteína: carne, frango, peixe. O refeitório segue aberto até as 14h. Cada operário tem uma hora de intervalo. Depois de alimentados, é hora de um pouquinho de descanso. E cada um faz como quer. Há quem procure uma sombra para tirar um cochilo ou quem prefira se distrair com os colegas numa partida de totó ou sinuca. Isso sem falar na televisão. O aparelho fica ligado, todo o tempo, na área de convivência. Os programas esportivos são os campeões de audiência. 
14h 
É a hora limite. Os dorminhocos precisam levantar. As disputas nos tabuleiros acabam. É hora de voltar ao canteiro. Desta vez, sob o sol da tarde. A área que compreende o administrativo, o refeitório e o espaço de convivência fica vazia novamente. Todo mundo na Arena Pernambuco tem meta a cumprir. A corrida, por lá, é contra o tempo. 
15h30 
Com o sol mais brando, o passeio pelo complexo fica menos cansativo. A produção segue com força total. O movimento dos guindastes, das gruas, dos tratores e dos caminhões se intensifica. E segue assim até o entardecer. 
17h30 
Apesar de a sirene não ter tocado ainda, alguns operários, nesse horário, já estão se organizando nos ônibus. Com o passar dos minutos, outros aglomeram-se numa fila próximo aos relógios de ponto. E apesar de ter a possibilidade de bater o ponto alguns minutos antes ou depois, a maioria prefere não arriscar. E só o faz quando o ponteiro do relógio marca certinho 18h.
18h 
É o fim do expediente. A hora da debandada geral. As centenas de homens estão voltando para casa. A organização do transporte leva um tempo. Afinal, são mais de 50 veículos (entre ônibus e vans) que fazem a distribuição dos colaboradores de acordo com as regiões onde moram. A saída, de fato, acontece a partir das 18h30. Mas, que fique claro: na Arena, o fim para uns é só o início para outros. Com a saída dessa turma, outra assume o posto. Antes de mais nada, os trabalhadores vão ao refeitório, servem-se de sopa, pães e frutas. Iniciam, então, um expediente que segue madrugada a dentro. 

A mulher - orgulho

A mulher - orgulho

Marli é risada e papo sério. É mãe e operária. Enche a boca pra falar dos filhos, estufa o peito para mostrar seu trabalho. Pega material pesado, opera a grua, coordena uma equipe de 29 homens. Faz isso bem. E de batom."Lá no campo eu tiro onda." Não dá cabimento ao destino, vai lá e faz o seu. Trabalha duro. Na obra, em casa. Oito horas de trabalho diário. Dois turnos na Arena. A terceira batalha é em casa. Lava, passa, cozinha, dá colo aos rebentos. Não tem cansaço, não tem preguiça. Marli quis foi vencer na vida. Colocou dois filhos no mundo. Solteira, criou e educou. Sozinha, cavou seu espaço. Foi pra São Paulo e voltou. A mão, que não está gravada em nenhuma calçada da fama, agora, ajudou a fazer a história da nossa Copa. 

Ficha Técnica:

Marli Maria de Santana, 41
Cargo: Encarregada de turma
Jogadores preferidos: Robinho,
Ronaldo, Pelé
Memórias de Copas do Mundo:
"Lembro muito do penta
campeonato. Eu estava
trabalhando em um
restaurante em Porto de
Galinhas e lembro da alegria
das pessoas. Foi ótimo, mas acho
que essa vai ser ainda melhor".

Os talentosos Josés

Os talentosos Josés

Pai e chefe. Filhos subordinados. Disciplina na obra, diversão em casa. Na casa dos Silva, família que trabalha unida permanece unida. Patriarca orgulhoso, Lenildo José apresenta os talentos da cria. Vão além dos deveres da construção. Fogem do pó e da pá. O mais velho sonhou em ser jogador de futebol. "Não deu certo...são as coisas da vida", explica o pai, que desde os 15 anos conheceu as pás, os ferros e as máquinas da construção civil. O primogênito, que trocou os gramados e a redonda pelo canteiro de obras, por ironia da vida, foi ajudar a levantar um estádio. O filho caçula, por sua vez, nunca paquerou a pelota. Deixou ela de lado. Sonha mesmo é com os microfones. Com os palcos. Com o funk. Quer ser MC, o MC Carlinhos. E enquanto os grandes shows não chegam, cria letras pros colegas. Faz música para a Arena. Três Josés apaixonados. Pela vida, pela bola, pela música. Sob o olhar de D. Josefa, matriarca da família, saem de casa todos dias para escrever a história de suas vidas e traçar linhas para que milhares de torcedores escrevam um capítulo da vida nas arquibancadas que ajudaram a erguer. 

Ficha Técnica:

José Carlos, 20
Cargo: ajudante de produção
Jogadores preferidos: Roberto Carlos e Dênis Marques
José Lenildo, 22
Cargo: encarregado de turma
Jogadores preferidos: Rivaldo, Lúcio e Roberto Carlos
Lenildo José, 46
Cargo: encarregado de serviços
Jogadores preferidos: Cafú e Thiago Cardoso
Memórias de Copas do Mundo: "Minha lembrança mais forte da seleção brasileira nem é de Copa do Mundo, mas sim de um jogo das eliminatórias, em 1993, que teve no Arruda contra a Bolívia. O Brasil tava perdendo direto e ganhou aqui de 6x0. Aí disparou".

O gordinho peladeiro

O gordinho peladeiro

Dedé não é nome, mas é identidade. Gordinho no melhor estilo, ele é bem humorado, ri da forma física e faz piada de tudo. Até do seu desempenho na pelada. "Eu corro feito um elefante. Até os postes e a trave correm mais que eu." Ele fica paradinho. Na banheira. Não tem jeito de voltar para a zaga. Ri dos colegas e ainda tira onda: "Tem piores do que eu…" Dedé é Adriano Mangueira. Técnico de topografia experiente, fala emocionado do trabalho na obra. Uma história que pretende contar até o fim da vida. "Um privilégio." Tricolor doente, nem precisa ensaiar gritos de torcida. É torcedor profissional. Não perde os jogos do seu time. Vai aonde o Santa for. E, sem titubear, avisa: se a mulher mandar escolher, vai ficar numa situação difícil.  

Ficha Técnica:

Adriano Mangueira, 47
Cargo: técnico em topografia
Jogador preferido: Ronaldo
Memórias de Copas do Mundo: "Olhe, a seleção de 1982 foi a melhor que eu vi jogar. Mas eu também guardo a lembrança da grande frustração que foi aquela final de 1998 contra a França. Acho que foi uma das maiores da minha vida. Já 1994 e 2002 foi ótimo, né? Eu vi ganhar!"

O pai do fusca-bola

O pai do fusca-bolao

Lourenço quase não cabe no seu carro. O fusca-bola, idealizado por ele mesmo, é pequeno para o tamanho do homem e menor ainda para o orgulho que ele tem do possante. O técnico de instalações parece ter saído de um desenho animado. Com seu carro que - além de tudo - fala, pega o caminho da Arena todos os dias. Estaciona logo na entrada. Não há quem não repare naquela bola gigante. O fusquinha é, praticamente, o mascote da obra. "Ele grita gol, assobia para as mulheres bonitas e ainda gargalha dos maridos delas." Risonho, o sessentão ainda bate bola. Na pelada e no canteiro. "Cada dia a gente marca um gol aqui na obra. É sempre um jogo diferente." Com ele não tem tempo ruim. Nem mau humor. Experiente, ajudou a concretizar outras grandes obras no Estado. Há algum tempo, viajou para a Angola. Deixou sua marca por lá também.

Ficha Técnica:

Lourenço de Moraes Filho, 60
Cargo: técnico de instalações
Jogadores preferidos: Zico, Sócrates e Careca
Memórias de Copas do Mundo: "Para mim, a seleção que mais marcou foi a de 1986. Não ganhou, mas são os nomes que guardo até hoje".

O craque da Arena

O craque da Arena

Pai, marido, operário, torcedor e peladeiro. Washington não se gaba, mas domina a pelota. Foi o campeão do concurso de embaixadinhas que a reportagem propôs. De bota, farda, foi lá e fez. De longe, de muito longe, no alto da construção, os amigos viram a movimentação e acenaram, incentivando. Rubro-negro, herdou do pai sua primeira chuteira e paixão pelo futebol. Como todo pai de família, conta o dinheiro, organiza as finanças. "Mas já comecei o porquinho. Todo mês reservo um pouco para a caixinha da Copa."Quer ver ao menos um jogo no estádio que ajudou a construir. E quer mais. Deseja encontrar os colegas por lá também. Sonha em ver o time da pelada unindo seus gritos ao coro de vozes de torcedores dos quatro cantos do mundo.

Ficha Técnica:

Washington José, 38
Cargo: encarregado de hidráulica
Jogadores preferidos: Romário, Bebeto, Branco
Memórias de Copas do Mundo: "Como tenho 38 anos, já acompanhei umas cinco Copas do Mundo. Mas, para mim, a mais emocionante foi a de 1994. Foi o período de nascimento da minha filha e o primeiro título que vi da seleção. Não tem mais time como aquele. Os jogadores entravam no campo por amor à camisa e não por dinheiro como muitos fazem hoje".

O otimismo tímido de José

O otimismo tímido de José

Sr. José tem um sorriso tímido. Quietinho que só ele, colocou seis filhos no mundo. Quatro deles trabalharam na Arena. Hoje, dois ainda estão por lá. Todos rubro-negros. Foi peladeiro a vida toda. Jogou no gol e no ataque. "Num é que eu era bom não,sabe? Mas eu jogava." Como ele mesmo diz, "brincou bastante", mas a idade chegou e Seu José preferiu poupar essa energia. É natural de Vitória de Santo Antão, mas há muitos anos escolheu São Lourenço como nova morada. Otimista, deposita esperanças na seleção. A aposta é nos "meninos novos", como Neymar, que, segundo ele, ainda tem é muito pra mostrar.

Ficha Técnica:

José Francisco Gomes, 61
Cargo: operador da estação de tratamento d'água
Jogadores preferidos: Pelé, Jairzinho e Neymar
Memórias de Copas do Mundo: "Lembro da Copa de 70. Marcou muito. Aquela final foi muito emocionante. Na época trabalhava no Cabo de Santo Agostinho e assisti lá com todo mundo. Quando a seleção perdeu foi meu Brasil que perdeu, foi muito ruim, foi muito frustrante".

O sorriso de Val

O sorriso de Val

Val fala pausado, até a risada parece mais devagar que o normal. O sorriso não sai do rosto. Fã de futebol, fala com paixão tanto do seu time, o Sport, quanto da seleção brasileira. Ansioso pela próxima Copa do Mundo, tem certeza de que será a melhor. "Por que vou ter orgulho de dizer que participei, que ajudei a trazer isso pra cá." A pelada de Val é todo sábado, sempre às 10h, lá mesmo em São Lourenço. Não tem técnico, nem frescura. O sistema, ele conta, é aquele: "Um por todos e todos por um".

Ficha Técnica:

Elivaldo Paulino dos Santos, 27
Cargo: operador de ETE (estação de tratamento de efluentes)
Jogadores preferidos: Taffarel e Marcelinho Paraíba (Sport)
Memórias de Copas do Mundo: "Recordo dos momentos bons e ruins. Lembro daquela de 1998 quando o Brasil foi eliminado pela França e de quando a gente ganhou para a Alemanha. Foi show de bola. Comemorei na casa dos meus pais, foi uma festança".

Extras