Con­for­to ou re­la­ção de a­fe­to?
Um ano de­po­is,

A­re­na Per­nam­bu­co ainda
di­vi­de tor­ce­do­res

 

Por Thiago Wagner

Basta gostar um pouco mais de futebol para saber que a maioria dos estádios brasileiros não proporciona nenhum grande tipo de conforto para o torcedor. São filas na entrada, cambistas, assentos desconfortáveis e uma acessibilidade sofrível em alguns casos. No Recife não é diferente, seja no Arruda, do Santa Cruz; Ilha do Retiro, do Sport; e nos Aflitos, que era utilizado pelo Náutico até dois anos atrás. A Copa do Mundo prometeu mudar esse cenário com a vinda do modelo arena. O Mundial representou a chegada do tão aguardado conforto, mesmo que à custa da mudança de alguns costumes mais antigos. Não chega a ser uma "gourmetização" do futebol como antes era dito, mas, ainda assim, representa a alteração de velhos hábitos. Ver o jogo na arena é uma experiência diferente da rotineira ida aos antigos estádios. O que exige certa adaptação.

As mudanças de hábitos começam pela ida. Como a arena fica em São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife e a 19 quilômetros do Marco Zero da capital pernambucana, não há como a maioria dos torcedores se deslocar para o estádio em um curto espaço de tempo. É preciso programação, seja indo de metrô ou de carro. A última opção geralmente demanda maior paciência, especialmente em dias de partidas na hora do rush. Para a torcida, ir à Arena Pernambuco de carro nesses horários significa quase sempre ficar preso em engarrafamentos.

Em meio à distância, o time que mais sofre é o Náutico, que tinha como mando de campo o estádio dos Aflitos, Zona Norte do Recife, e que, desde 2013 realiza seus jogos na Arena Pernambuco. Agora mais distante da sua torcida, o clube ainda não encontrou uma alternativa ideal para aumentar a média de público. Já foi tentado até um incentivo à carona entre os alvirrubros. Tudo para ver se a média de 8.310 (em 65 jogos) torcedores mudava um pouco.

"É uma engenharia muito grande para ir. Nos Aflitos, eu ia a pé e de última hora. Nem na fase boa me sinto estimulado. Dia de semana, fica inviável. Acho que fui só para uns cinco jogos do Náutico lá, enquanto, nos Aflitos, eu ia para quase 90% das partidas", diz o advogado Diego Spencer, morador do Espinheiro, bairro vizinho aos Aflitos. O Náutico tem um contrato de 30 anos com a arena.

Na pouca adesão dos alvirrubros à arena pesou também o fato de o time não ter emplacado uma boa sequência de resultados: até pouco tempo, contabilizava mais derrotas do que vitórias. Com isso, não se criou uma identidade da torcida com o novo estádio. Muitos chegaram até a culpar a própria arena pelas derrotas.

A questão é que até o momento o alvirrubro não se sente em casa quando joga em São Lourenço da Mata. Também pela falta de elementos como o lugar marcado com os amigos e a barraquinha do lanche de sempre, por exemplo. Falta uma relação de afeto entre os torcedores do Náutico e o estádio que fica no meio da BR-408, sem muitos atrativos ao seu redor. "Não sinto identidade. Tem muita impessoalidade na arena. Me sentia mais à vontade nos Aflitos", comenta Spencer.

A administração da Arena Pernambuco defende que a mobilidade é uma questão pública e não do consórcio Odebrecht, que gere o estádio. Além disso, há o argumento de que o bom acolhimento do torcedor é uma responsabilidade não só da arena, mas dos clubes e das federações.

"Não depende só da gente, mas também de clubes e federações. O problema é que tem momentos que os clubes estão com pouco fluxo de caixa e não podem fazer uma ação mais específica", observa o responsável de operações da arena, Bruno Amorim.

Ele também chama atenção para o protocolo das federações. "Qualquer ação no gramado temos que avisar com antecedência informando o horário da iniciativa e sem atrapalhar o processo do jogo. Mas estamos abertos para qualquer tipo de acolhimento diferente ao torcedor", destaca Bruno Amorim, que valoriza a parceria com o Náutico, apesar da baixa média de público. "É um grande parceiro e acredito que vai melhorar agora com a fase boa do time".

O diretor de Marketing do Náutico, Fábio Mendes, reconhece que a mudança para a Arena PE foi uma alteração radical no costume do torcedor. No entanto ele pondera ser injusto comparar a média de público do Timbu com a dos outros grandes do Estado. "Sport e Santa Cruz mandam para lá os jogos mais interessantes. Nenhum deles jogou com Serra Talhada às 22h. Mas acredito na continuidade dos bons públicos recentes que estamos tendo", afirma.

Fábio Mendes também culpa o tráfego. "Existia uma cultura que foi quebrada. Muita gente que reside nos Aflitos e que, em dez minutos, ia para o estádio andando, agora prefere não ir. Por outro lado, tem torcedores de regiões como Nazaré da Mata que estão indo mais. Está mudando o perfil do consumidor do jogo do clube", afirma. Ele acredita se tratar de um "processo de adaptação": Talvez culturalmente estejamos saindo do zero. A torcida vai criando alguns hábitos como a carona". E põe fé no futuro: "O público do Náutico tende a melhorar. É a casa do Náutico".

Segurança é um dos atrativos da arena - Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem.

FecharSeis paradas de BRT da Conde da Boa Vista ainda não funcionam - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Mobilidade divide opiniões de alvirrubros e rubro-negros - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

FecharNão existe ainda previsão de finalização do projeto - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Esperança do náutico para melhorar público é a campanha na série B - Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem.

FecharParadas são uma adaptação do projeto inicial do BRT - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Náutico é o único que manda todos os seus jogos na arena - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Fechar>Secid aguarda definição de construtura para continuar as obras - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Santa Cruz é o mais cauteloso em jogar na arena - Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem.

FecharPor enquanto, os BRTs não param na Conde da Boa Vista - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Sport é o recordista de público da arena - Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem.

FecharEnquanto isso, as paradas seguem abandonadas na avenida - Foto: Edmar Melo/JC Imagem.

Mas a relação da arena com a torcida pernambucana não é só cercada de instabilidades. Com o Sport, que não manda todos os seus jogos no estádio, a parceria vem funcionando. Tanto é que o Leão tem o recorde de público: 37.615 torcedores na partida contra o Flamengo, pelo Brasileirão do ano passado.

O principal argumento dos leoninos para aprovar a Arena Pernambuco é o conforto das instalações, mesmo sem os tais elementos normalmente presentes na Ilha do Retiro, como, por exemplo, os bares ao redor da sede rubro-negra. Nem mesmo a recente reclamação do presidente do Sport, João Humberto Martorelli, sobre a mobilidade para o estádio parece afastar os torcedores do Sport, que aproveitam melhor a arena de São Lourenço da Mata do que a própria Ilha.

O Santa Cruz é que não parece ter abraçado bem a ideia da arena, talvez com receio de prejuízo financeiro. Mesmo assim, o Tricolor já mandou suas partidas em São Lourenço com um bom público, como no confronto com o América-RN, que reuniu 34.746 pessoas, no Brasileiro Série B de 2014.

"Tomou-se muito que a arena é do Náutico, mas acho que o governo deveria estimular mais que a gente venha para cá. Deveria (o estádio) ser bem mais utilizado. Espero que a arena dure muito tempo. É um investimento que poderia ser melhor aproveitado", diz o médico e torcedor do Sport Jaciel Soares, 33 anos, que foi para a Arena Pernambuco com toda a família.

O exemplo do Sport é um dos principais argumentos do consórcio que administra a arena para validar uma relação de sucesso com os torcedores pernambucanos. "O nosso diferencial é que a gente trabalha com três pilares: segurança, conforto e tecnologia. Aqui temos câmeras que podem detectar um cambista, por exemplo. Além disso, o torcedor encontra um local limpo e organizado. Percebemos que a gente recebe muitos idosos e pessoas com necessidades especiais de acessibilidade. Nós podemos acolher bem esse tipo de público porque temos lugares especiais e confortáveis", argumenta Bruno Amorim. Ele ressalta que a estratégia é captar não só o público que rotineiramente prestigia os jogos de futebol, mas outras pessoas que não estão tão habituadas a frequentar um estádio. "Todo público é alvo, lógico, mas queremos trazer aquela pessoa que normalmente não vem. Nossa ideia é fazer da partida um programa em família, com um dia inteiro de entretenimento".

Para isso, Amorim destaca que o consórcio busca melhorar para atender bem o torcedor. "Mudamos nosso esquema de compra antecipada para agilizar o acesso da torcida. Sabemos que não vamos atender a todos, mas, sempre que aparece algum ponto, nós tentamos atacá-lo para melhorar", frisa Bruno. Uma dessas melhorias no futuro é a forma de receber o torcedor na área externa. Uma ideia é que, em jogos mais especiais, como finais e decisões, por exemplo, haja a promoção de musicais. "Já trouxemos para alguns jogos específicos. Sempre conversamos com os clubes e deixamos em aberto essa possibilidade".

O gerente de operações ainda argumenta que é permitida a presença de bandas e orquestras no estádio, assim como uma maior vibração da torcida. "Pode tirar camisa e girar, sem problemas. Também pode ficar em pé gritando, contanto que não atrapalhe os outros. Ainda dá para trazer instrumentos musicais, claro que com autorização da polícia". A ideia é se desvincular com o rigor da Fifa na Copa do Mundo, quando eram proibidas as faixas e as bandeiras, por exemplo.

Por outro lado, a restrição aos alimentos, que também existia na Copa, permanece. "Não é permitido é entrar com comida porque temos parceiros comerciais e isso seria um tiro no pé para a gente", ressalta. E o lanche parece ser o ponto negativo entre praticamente todos os torcedores. O preço pelo serviço é o principal questionamento. Ainda assim, as filas para comprar são grandes. "Isso é onde está o problema. É mais complicado comprar aqui. Mas não interfere tanto não", observa o rubro-negro Paulo Francisco, 37 anos.

No entanto, a torcida é quase unânime em afirmar que a arena é mais segura em relação aos outros estádios. O próprio consórcio reconhece isso. "Tem partidas que terminamos intactos com relação a danos. O número de cadeiras quebradas é mínimo", pontua o responsável de operações da arena, Bruno Amorim, confiante em uma relação de sucesso entre o estádio e a torcida pernambucana.

 

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