Um dia de BRT no Re­ci­fe: fun­ci­o­na, mas po­de­ria ser me­lhor

Por Thiago Wagner

A instalação do sistema de BRT na Região Metropolitana do Recife foi a obra de mobilidade da Copa do Mundo que prometia mais mudanças no transporte público da capital pernambucana. O maior argumento era de que o coletivo permitiria um deslocamento mais rápido pela cidade, afinal, teria os corredores exclusivos. Mas, um ano depois do fim do Mundial, essa não é a realidade. Pude constatar isso depois de utilizar o BRT de Camaragibe, na RMR, até a Avenida Guararapes, no Centro do Recife. Uma experiência de mais de uma hora que trouxe ao longo do percurso um misto de otimismo e pessimismo com o transporte público no Estado.

Para começar, só embarquei às 7h55 porque deixei dois BRTs passarem. Motivo? Pura e simples lotação. Um primeiro transtorno que já me atrasou cerca de 20 minutos. E pensar que o cenário se repete em praticamente todos os dias para a população. "Tem dia que deixo para pegar o terceiro ou quarto ônibus", conta o vendedor Edson Barbosa, 25 anos.

Enfim, entro no ônibus e qual a primeira impressão? A de que vou em pé todo o trajeto. Não chego a ficar espremido como em muitas outras lotações - já andei muito tempo de Barro/Macaxeira e sei como é se sentir uma sardinha em lata -, mas incomoda ir em pé um longo percurso. Ainda assim, a sensação é de maior conforto por causa do ar condicionado. Resta ter paciência.

Aliás, paciência é algo necessário para aguentar o trânsito logo que o BRT sai da estação Camaragibe. Como o local ainda não possui faixas exclusivas para BRT, é necessário dividir espaço com os outros veículos. Não é preciso ser gênio para saber que essa fórmula gera engarrafamento, principalmente no horário de pico. Demoramos cerca de 25 minutos para atravessar aproximadamente três quilômetros.

A situação só melhora mesmo quando finalmente chegamos na faixa exclusiva do BRT. De fato, ela funciona, tanto que atravessamos toda a Avenida Caxangá em menos de 20 minutos. O problema é que, em alguns trechos, os carros se metem na via, de maneira ilegal. Ainda assim, é o trecho mais rápido do transporte, principalmente quando olhamos para o lado e observamos que está tudo parado para os outros veículos.

A faixa exclusiva do BRT, porém, acaba na Caxangá, e, aliado a isso, aparecem mais uma vez as retenções. Nos 1,2 quilômetros entre o Museu da Abolição e a Praça do Derby, demoramos os mesmos 20 minutos que gastamos na Caxangá inteira, só para efeito de comparação. A faixa só para o ônibus realmente faz uma falta imensa nessas horas. O trânsito pesado vai até a Avenida Guararapes, onde desembarcamos. No caminho, temos ainda a Avenida Conde da Boa Vista, no Centro. Lá o BRT não para porque não há estações para ele: há somente construções inacabadas sem previsão para serem entregues.

Ao final da viagem, por volta das 9h, a constatação é de que o BRT poderia ser mais efetivo se existissem mais faixas exclusivas. Ainda assim, há quem elogie a relativa rapidez do transporte, principalmente na Avenida Caxangá. O sistema, que já foi apontado como um dos principais legados da Copa do Mundo, funciona em partes, mas poderia ser melhor.