De­sa­pro­pri­a­ções: a der­ro­ta que o mun­do não viu

Por Mariana Dantas

Quando o Brasil foi escolhido, em outubro de 2007, para sediar a Copa do Mundo em 2014, os moradores do Loteamento São Francisco do Timbi, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife, estavam entre os milhões de brasileiros que vibraram com a notícia em frente à televisão. Eles nem imaginavam que aquele evento mudaria o rumo de suas vidas, infelizmente para pior. Passados quase oito anos daquele anúncio, das cerca de 400 famílias da área que tiveram suas casas desapropriadas, nenhuma conseguiu comprar um imóvel igual ou melhor do que aquele em que morava. Um ano após o fim do Mundial, muitos receberam apenas uma parte da indenização. Outros, sequer um centavo.

O sentimento de revolta dos antigos moradores aumenta quando olham para o lugar onde antes existam as suas casas. Quase nada foi feito. O mato cresce em meio ao lamaçal. No local, já deveriam estar construídas - e em funcionamento - quatro pistas de acesso à Arena Pernambuco. Apenas uma via de mão dupla foi feita às pressas poucos meses antes do evento. Os postes de iluminação vivem desligados e faltam placas de sinalização. A obra, denominada de Ramal Externo da Copa, também incluía a ampliação do Terminal de Passageiros do Camaragibe, que até agora não saiu do papel.

“Esse mato é mais uma prova que todo esse sofrimento foi em vão. Impossível não se revoltar”, afirma a comerciante Maria Aparecida Lourenço, 41, que morava no loteamento desde que nasceu. Casada e com dois filhos, hoje paga aluguel, à espera da indenização. O terreno da família abrigava duas residências e dois pontos comerciais, um deles uma lanchonete onde Maria Aparecida trabalhava com o marido. A avaliação da propriedade inteira foi de R$ 290 mil. Como a área estava no nome de parentes já falecidos, precisou ingressar com pedido de inventário na Justiça – a indenização só pode ser paga em nome do atual proprietário. O processo corre na Justiça. “Não temos R$ 15 mil para pagar as taxas judiciais e por isso recorremos à Defensoria Pública”, diz a comerciante.

A lanchonete da família passou a funcionar em um ponto alugado no mesmo loteamento, bem próximo da sua antiga casa. “Passamos a pagar dois aluguéis e o movimento da nossa lanchonete caiu em 50%. É uma situação muito difícil; é por isso que alguns dos nossos vizinhos falecerem de infarto, AVC e depressão. Tristeza mata”, afirma Ednaldo da Silva Ferreira, 55, marido de Maria Aparecida.

Um dos moradores que morreu sem ver a cor do dinheiro foi Romildo José dos Santos, 67, sogro da cabeleireira Paula Oliveira, 38. A família era proprietária há mais de 40 anos de um sítio de cinco hectares, hoje cortado pela via de acesso à Arena. As casas de seu Romildo e de Ana Paula ficavam justamente do lado do terreno que foi desapropriado.

“Quem aguenta ver o seu bem maior, a sua casa, sendo derrubado sem previsão de quando vai receber algum valor?! Esse lugar era a vida do meu sogro, que sempre foi muito alegre e cheio de saúde", afirma Paula. "Homens de terno chegaram aqui, entraram sem permissão para medir no nosso terreno, como se já fossem os donos. Prometeram que até os pés de fruta seriam replantados. E meu sogro viu tudo ser destruído, sem receber a indenização para reconstruir sua casa. Em 26 de julho do ano passado, dois dias antes de uma parte do dinheiro sair, uma porcentagem muito pequena, ele passou mal e morreu”, recorda.

A cabeleireira ainda luta na Justiça para receber o restante da indenização. Com a morte do sogro, o processo complicou ainda mais porque a família precisou dar entrada no pedido de inventário. Segundo Paula, nove vizinhos, a maioria idosos entre 70 e 90 anos, morreram no último ano. “Tenho certeza de que esse sofrimento contribuiu para encurtar a vida dessas pessoas”.

O aposentado Gerônimo Sebastião de Oliveira, de 72 anos, morava com o filho e a esposa desde 1975 no Loteamento São Francisco do Timbi em uma casa de três quartos que fez melhorias ao longo dos anos. Recebeu até agora 80% do valor do imóvel, avaliado pelo Governo em R$ 44 mil. Um ano depois do Mundial, ainda aguarda o restante do dinheiro. “Na época, chamei um perito que avaliou minha residência em R$ 150 mil, três vezes mais”, disse o aposentado, que hoje sofre de depressão. Com o dinheiro, conseguiu comprar uma casa de um cômodo na Vila Santa Maria, comunidade distante da antiga residência.

Pelo menos duas vezes por semana, o aposentado vai ao Fórum de Camaragibe para saber se o dinheiro foi liberado. “Eu não quero culpar a construção da Arena, que até considero um desenvolvimento para o Estado. Quero culpar os governantes irresponsáveis, que não se preocupam com a nação brasileira. Cadê os defensores dos direitos humanos? Cadê a promotoria? Cadê o Ministério Público? Que país é esse? Sem lei. Porque honesto aqui não tem valor”.

Ednaldo da Silva Ferreira, 55 anos
"Alguns vizinhos faleceram, outros adoeceram. Outros o dinheiro não deu para comprar uma casa e vivem pagando aluguel. A luta continua; só espero estar vivo quando receber a indenização."

Nieres Maria da Silva, 38 anos
"Faz 32 anos que eu moro aqui. Tem uma coitada que morava aqui e vivia de ajuda dos vizinhos. Ela não tem como fazer inventário e até hoje não recebeu a indenização: está morando no lixão. Tem gente que não recebeu. Ficam embromando. Na minha forma de pensar, estão querendo vencer o povo pelo cansaço."

Maria Lúcia Ribeiro de Oliveira Silva, 57 anos
"Todo mundo está sofrendo muito. Quem ficou sofre com assaltos e com a lama. Todo mundo tem medo de andar por aqui à noite. Meu cunhado foi desapropriado. Além da casa, tinha duas oficinas e hoje não tem onde trabalhar. Foi tirado a pulso. Disseram que, se ele não saísse, ia ser preso. E até agora não recebeu o dinheiro."

Paulo Sérgio dos Santos, 44 anos
"Meu sentimento é de raiva. Morava aqui há 18 anos. Eram três casas: a minha, a do meu sogro e uma alugada. Hoje é um terreno cheio de lama. A gente recebeu o dinheiro, mas não foi um valor adequado para que pudéssemos comprar outra. Ninguém conseguiu comprar. Os aluguéis estão caríssimos e os imóveis e terrenos, mais ainda."

Gerônimo Sebastião de Oliveira, 72 anos
"Pessoas com 70, 80 e até 90 anos foram jogadas na rua. E o dinheiro que deram foi uma pequena mixaria, que não dá para comprar nem sequer um mocambo. Construí a minha casa, o meu lar, sem saber que no futuro o inimigo vinha destruir."

Ana Paula Oliveira, 35 anos
"Quase todos os dias alguém do Estado aparecia para tirar a gente daqui. Meu sogro explicava que estava construindo uma casinha do outro lado terreno, com empréstimo que tinha feito, porque não tinha para onde ir. Já idoso, botou a mão na massa e passou a morar num casebre. A gente tentou melhorar a situação dele, mas não conseguiu. Ele morreu sem ver a cor do dinheiro."

Já imaginou se fosse a sua casa?

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