Antes de tomar a estrada em busca do presente, Veronica Almeida e Rodrigo Lobo (autor da maioria das imagens desse especial) mergulharam em documentos do passado e nas informações de quem dedica grande parte da vida a doenças negligenciadas. Encontraram nos Anais da Faculdade de Medicina do Recife, em Publicações Avulsas do Instituto Aggeu Magalhães (hoje Fiocruz, em Pernambuco), revistas científicas e principalmente no livro Endemias Brasileiras (1961), de Orlando Parahym, um retrato curioso de problemas que perpassam secas, enchentes, reviravoltas econômicas e sempre esbarram eterna desigualdade social.

"A doença é um grande prejuízo que se impõe à família, à sociedade, ao Estado. Cada óbito representa uma perda inestimável para a coletividade. Cada doente constitui um peso morto na economia nacional. Calcule-se, então, o que não significa para um país como o nosso, em plena fase de crescimento e tendo ainda no seu território grandes áreas subdesenvolvidas, a presença de uma dúzia de endemias a invalidar para o trabalho produtivo milhões de criaturas humanas!", escrevia Parahym, que foi secretário de Saúde do governo de Agamenon Magalhães, estudioso da desnutrição e contemporâneo de Josué de Castro de Nelson Chaves.

Outros também deixaram grande contribuição. Há quase oito décadas, por exemplo, Aluízio Bezerra Coutinho, da Faculdade de Medicina do Recife, via rastros do Shistossoma mansoni nas vísceras de pacientes mortos do Hospital Oswaldo Cruz. Em 1950, Barca Pellon e Isnard Teixeira, do Ministério da Saúde, desenhavam mapa da infestação dos pernambucanos pelos vermes, com a ajuda de Orlando Parahym e Lessa de Andrade.

Durval Lucena, em 1948, descrevia os primeiros casos da doença de Chagas na Zona da Mata. Vital Lira, na década de 60, provou que a febre reumática também existia em Pernambuco. Nos anos 70, o dermatologista Itamar Santos já mostrava a importância de associar ao tratamento convencional da hanseníase medicamentos que estimulassem o sistema imunológico do doente a brigar contra a bactéria.

Somando esse passado, o desenrolar de mais estudos nas décadas seguintes e as informações construídas no presente, como recentes indicadores revelados a partir de 2011 por programas de enfrentamento das doenças negligenciadas do Estado e do Recife, restava olhar a realidade para saber se doenças antigas ainda atingiam pernambucanos e por que moléstias já consideradas sob controle faziam vítimas.

Nos meses de maio e junho Veronica e Rodrigo visitaram 15 municípios, conhecendo a realidade do Sertão, Agreste, Mata e Grande Recife, com a colaboração de Marcos Pastic e Hélia Sheppa (fotos). Sem a precisão da ciência, mas com ouvidos e olhos atentos às condições sanitárias e sociais, captaram situações individuais e problemas coletivos, frutos de políticas incompletas, desiguais ou adiadas por décadas. Viram seca, morador da Zona da Mata sem banheiro, postos de saúde sem médico em horário integral, gente que ainda está muito distante do SUS.

Aqui estão histórias que não mais deveriam existir, tamanha a transformação econômica recente e melhoria de indicadores epidemiológicos dos últimos 20 anos, como a queda da mortalidade infantil, a redução da tuberculose e o apregoado fim da transmissão da doença de Chagas. A saída de centenas de pernambucanos da miséria não foi capaz de exterminar a pobreza. Condição, aliás, que não se mede apenas em reais gastos por dia ou na compra de motos e eletroeletrônicos, mas, sobretudo, no acesso à água potável, coleta de esgoto, sistema único e eficaz de saúde, com assistência perto de casa, vigilância permanente às doenças, educação, moradia, previdência e assistência social.