Eles realizaram o sonho de abrir o próprio negócio


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Desenhos caprichados de engrenagens automotivas não saem apenas das mãos de alguém que cursou uma faculdade de engenharia ou um técnico de mecânica. Numa pequena indústria localizada no bairro da Cidade Tabajara, em Olinda, no Grande Recife, quem

desenvolve, acompanha a produção e testa as novas peças é um homem que concluiu seu ensino médio com muita dificuldade e através de um supletivo. O dono dessa empresa é Antônio Ulisses, 67 anos, que nasceu em Timbaúba, na Zona da Mata Norte pernambucana, e constituiu família no Recife.

Ele não precisou ir para uma banca escolar para aprender o ofício através do qual criou seus 4 filhos - o mais novo tem 22 anos e, o mais velho, 42. Hoje empreendedor, Ulisses conta que começou a labutar aos 10 anos vendendo de tudo um pouco em feiras livres. Já trabalhou em oficinas mecânicas, foi taxista, serviu ao exército e abriu loja de autopeças. Até que, há cerca de 15 anos, decidiu abrir a empresa que já chegou a ter 30 funcionários, mas que, por causa da crise econômica do País, hoje conta com dez colaboradores.

Aprendi a ser mecânico colocando a mão na massa, não tive curso pra isso. Só concluí os estudos depois dos 20 anos porque fiz supletivo. Eu acho que o sucesso não está ligado à faculdade, tem que ter criatividade, disposição e coragem, até porque o mundo é uma escola”, contou Antônio Ulisses que ainda adverte: “Não adianta ter uma baita inteligência e não saber colocar em prática.”

Um levantamento feito anualmente para monitorar os índices envolvendo empreendedorismo no mundo - Global Entrepreneurship Monitor - mostra que, no Brasil, o modo de pensar de Antônio Ulisses não está errado.

O estudo aponta que os indivíduos com escolaridade entre o primeiro grau incompleto e o nível superior completo são igualmente ativos no que se refere à atividade empreendedora inicial. No entanto, os dados também apontam que para manter o sucesso da empresa é preciso buscar algum tipo de orientação sobre o mundo dos negócios.

Para a gerente da unidade de Educação e Orientação Empresarial do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-PE), Isabel Noblat, embora os dados da pesquisa apontem para um empreendedor menos qualificado, é importante, sim, investir em alguma formação que auxilie a abertura e administração do próprio negócio. “Muitas pessoas têm diploma mas não têm o perfil empreendedor, outros são o oposto. No entanto, ter conhecimento da área que se vai investir é um ponto primordial para quem quer realizar esse sonho do empreendedorismo”, ponderou.

A recomendação da especialista também foi pontuada no relatório nacional sobre empreendedorismo no Brasil. Educação e capacitação dos novos empresários brasileiros foram os pontos mais ressaltados pelos estudiosos do ramo dos negócios. O questionamento envolvia pontuar os fatores limitadores para a criação de novas empresas no País. Em anos anteriores, 2012 e 2013, a qualificação dos novos empresários ficava atrás apenas das interferências causadas pelas políticas governamentais (impostos, burocracia).

DE OLHO NO MERCADO - O empreendedorismo tem sido a carta na manga de muita gente em tempos de alta nas taxas de desemprego. Segundo dados divulgados em outubro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego ficou em 8,7% no período entra janeiro e agosto. Esta é a maior taxa da série histórica, que teve início em 2012. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua).

Atento aos desafios para encontrar um emprego com boa remuneração, o jovem José Henrique Claudinho da Silva, 27 anos, já entrou na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) pensando em abrir seu próprio negócio. Apaixonado por animais, ele cursou medicina veterinária e desde sempre almejava ter uma

clínica para tratar os bichinhos. Sem perder tempo, após conquistar seu diploma, no final de 2012, ele aproveitou o antigo consultório odontológico do pai, reformou o espaço, ampliou e agora é proprietário da clínica e pet shop Recanto dos Bichos, no bairro de Jardim São Paulo, Zona Oeste do Recife.

Hoje, três anos após iniciar a vida de empreendedor, ele atende cerca de 45 animais por mês e tem um faturamento médio mensal de, aproximadamente, R$ 12 mil. Além de Henrique, ainda trabalham no local sua esposa e mais dois funcionários. “O investimento inicial feito para abrir a clínica foi pago em menos de dois anos. Comecei bem devagarzinho e depois o empreendimento deslanchou”, contou ele que já pensa em ampliar a estrutura da clínica ainda nos próximos três anos.

O veterinário acredita que ter uma formação superior na área em que abriu um negócio é importante para nortear suas decisões, como a compra de equipamentos e produtos para seu empreendimento. “Eu acho que tenho o tino de empreendedor, mas tenho certeza que preciso de mais qualificação na área de negócio. São nesses momentos que busco o Sebrae, mas eu pretendo fazer uma faculdade de administração para preencher esse espaço”, avaliou.

O orientador empresarial do Sebrae-PE João Paulo Cunha aprova a busca por novos conhecimentos e diz que “é preciso levar em consideração que os mercados não permanecem estáveis nem imutáveis no tempo, estão sujeitos a mudanças de comportamento dos consumidores, mudanças econômicas, políticas, entre outras variáveis. No mundo dos negócios, o que é verdade hoje, pode não ser amanhã. Por isso, sempre é preciso buscar se qualificar e se atualizar sobre aspectos da gestão da empresa e do mercado em que se atua, procurando identificar tendências, além de se antecipar a elas. O empreendedor que não se atualiza, estará sempre um passo atrás dos seus concorrentes.”

Percentual dos sonhos dos brasileiros

Comprar a casa própria 41,9

Viajar pelo Brasil 32,0

Ter seu próprio negócio 31,4

Comprar um automóvel 26,9

Diploma de ensino superior 21,6

Viajar pelo exterior 18,0

Ter plano de saúde 17,1

Fazer carreira numa empresa 15,8

Casar ou formar uma família 11,5

Comprar um computador 6,3

Em 2014

34,5%

foi a taxa de empreendedores - TTE (iniciais e estabelecidos) da população brasileira entre 18 e 64 anos

86,6%

dos empreendedores identificados não procuraram auxílio de órgãos de apoio. Em 2013, esse percentual foi de 84,6% e, em 2012, foi de 79,6%

10,4%

dos entrevistados citaram o SEBRAE em pesquisa de opinião sobre a lembrança dos órgãos de apoio em destaque

MUDANDO DE RUMO - Histórias de sucesso como a do veterinário Henrique Claudino fazem a taxa de empreendedorismo (entre empresas novas e já estabelecidas) no Brasil crescer anualmente. Em 2014, 34,5% da população com idades entre 18 e 64 anos (45 milhões de pessoas) tinham seu próprio negócio. Em 2013, o índice ficou em 32,3% e, em 2012, estava em 26,9%. Prova disso é que 70% dos empresários brasileiros foram levados a abrirem seus negócios por enxergar a boa oportunidade, e não por necessidade.

Um desses indivíduos que enxergou uma boa oportunidade para empreender foi o economista David Emanuel Batista, 30 anos. Ele concluiu o ensino superior em 2013 e trabalhava como gerente de contas de um banco no Recife quando decidiu largar tudo e mudar de rumo. A convite de um amigo, o jovem empreendedor participou de palestra sobre o mercado de Games e decidiu investir numa área que pouco conhecia. Através da sociedade com outros dois colegas, uma startup foi criada, mas pouco tempo depois foi desfeita por divergência entre os sócios.

Sem desistir, David se uniu com um dos sócios que permaneceu após o fim da empresa anterior para fundar um segundo empreendimento que também veio a ser fechado e acabou dando origem à RD Creative Entreteniment, startup encubada no Instituto de Tecnologia de Pernambuco (Itep), integrado à Secretaria de Ciência e Tecnologia e Inovação de Pernambuco. Criado há três meses, o negócio espera faturar em torno de R$ 150 mil este ano, valor este que já está livre do pagamento dos "funcionários", que são profissionais rotativos contratados de acordo com cada projeto.

Não é só pelo dinheiro, até porque o mercado de investimentos pode ser rentável, inclusive com empresas que pagam bônus de até R$ 100 mil. Hoje eu tenho um sonho nessa área de entretenimento, é muito bom poder vender alegria, diversão. Antes eu ia para um trabalho que era o mesmo que me matar diariamente porque não conseguia fazer o que gostava. Hoje eu e meu sócio passamos a madrugada estudando o mercado de games”, ressaltou David Batista.

Sobre ter “desistido” de seguir a carreira de economista para investir numa carreira que é construída dia a dia, David lamenta ter investido cerca de R$ 34 mil para conquistar o diploma que não satisfez suas ambições, mas ele também elenca os pontos positivos: “Meu diploma hoje serve só para dizer que sou economista, mas hoje na empresa eu trabalho como designer de entretenimento. Até a parte de contabilidade é feita por um contador e isso me frusta muito. Se eu tivesse tido o start de estudar essa área de tecnologia eu teria tido um retorno muito melhor. A parte boa é saber que, sair do bairro pobre e violento que eu cresci com um diploma de ensino superior já é uma conquista”. O empresário nasceu e viveu toda infância no bairro de Maranguape II, um dos mais violentos de Paulista, no Grande Recife.

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