Portas abertas para o mercado de trabalho


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Concluir o ensino médio e seguir para a universidade é, no Brasil, considerado um caminho natural. Em outros países, no entanto, essa ideia é considerada ultrapassada. Na Europa, a educação profissional é valorizada a ponto de 49,9% dos jovens que cursam o ensino médio optarem por essa formação. Estudo realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) aponta que quanto mais desenvolvido o país, maior esse percentual. É o que acontece na Áustria, por exemplo, onde esse número chega a 76,8%, ou da Alemanha, com 51,5%. Entre os brasileiros, tal número ainda está no patamar dos 8%.

Uma das principais justificativas para esse baixo índice está na cultura do país em valorizar apenas formados nos cursos de licenciatura ou bacharelado. Foi por causa desse estereótipo que o autônomo Alessandro César da Costa, 41 anos, procurou o ensino superior há cerca de oito anos. Em 2007 ele achou que deveria dar exemplo às filhas que estavam em idade escolar e começou a estudar letras na Universidade Católica de Pernambuco.

Ele precisou de seis anos para concluir o curso e se tornar professor de português ou espanhol. Chegou a exercer a função como contratado da rede pública estadual de ensino, mas identificou que vinha sendo pouco valorizado. Até que um dia, em conversa com um amigo, teve informações sobre as vantagens de ter um curso técnico. Fez algumas aulas de mecânica e descobriu uma grande demanda por técnicos em refrigeração e climatização. Matriculou-se no processo seletivo do Senai, em Pernambuco, e começou a seguir um novo caminho.

Casei cedo, tive duas filhas, tinha que sustentar minha família. Trabalhei em diversos lugares até que decidi fazer o curso superior. Infelizmente não me senti bem valorizado como professor e busquei o projeto do curso profissionalizante. Hoje eu tenho uma renda 60% maior do que antes e sei que é possível viver, ao invés de sobreviver”, destacou Alessandro da Costa.

Ao ver portas se abrirem no mercado de trabalho, ele garante que mudou sua opinião sobre a necessidade de ter um diploma do ensino superior. Alessandro defende que, ao terminar o ensino médio, o ideal é investir em cursos profissionalizantes. “Não me arrependo de ter buscado o ensino superior. Foi ele que me transformou na pessoa que sou hoje, mas acredito que poderia ter feito diferente. Os jovens precisam entender o que querem fazer, que carreira seguir. Penso que fazer um curso técnico os prepara para o mercado, só depois se deve ir para a faculdade, aprofundar esses conhecimentos. Eu mesmo já orientei minhas filhas a fazerem desta forma.”

Para o sociólogo e pedagogo Uacir Matias, as classes A e B demoraram a entender a pirâmide da cadeia de produção. Para cada engenheiro, por exemplo, existem entre 30 e 40 auxiliares. O problema é que muitos não querem que seus filhos “sujem as mãos” de graxa num curso técnico. “As classes mais baixas entenderam muito mais rápido que o retorno desse investimento é quase imediato”, destaca. Ele ainda alerta que ao ler os anúncios em jornais há muito mais vagas para o ensino médio e técnico do que para um mestre ou doutor.

Avaliações feitas sobre o mercado de trabalho, segundo o Senai, apontam que profissionais que têm o ensino técnico são menos demitidos e que 70% conseguem emprego logo que se formam. Hoje, as cinco áreas mais procuradas são:

Técnico em monitoramento e suporte de computadores

Desenvolvimento de sistemas

Mecânicos de manutenção e instalação de ar condicionado

Técnico de alimentos

Técnico do vestuário

DA INCERTEZA PARA A ÍNDIA - O curso profissionalizante foi responsável por dar um futuro melhor ao jovem José Carlos Souza, 20 anos. O rapaz estudou a vida inteira em colégio público e acreditava que não conseguiria contar uma história feliz após sair da escola. A necessidade de conseguir um emprego para ajudar nas contas de casa o fez buscar oportunidades desde o 1º ano do ensino médio. Com dificuldades de conseguir uma ocupação, ele se dedicou a tentar entrar num curso técnico logo depois de concluir a educação básica.

Mesmo com tantas vantagens de entrar num curso superior, muitas vezes, para as pessoas que como eu são de baixa renda, é melhor o curso profissionalizante. Eu sabia que se me esforçasse para passar no vestibular demoraria para entrar num estágio e conseguir ajudar minha mãe. Já no curso técnico você consegue uma colocação no mercado logo quando entra, ou até antes de acabar o primeiro período”, pontuou José Carlos.

O fato é que assim que começou, em 2012, o curso de técnico em redes de computadores no Senai Areias, na Zona Oeste do Recife, José Carlos entrou em um estágio que lhe pagava, na época, um salário mínimo. Cerca de 18 meses depois, quando concluiu a profissionalização, começou a fazer parte de um programa do Senai - Olimpíada do Conhecimento - que também lhe rendia um pequeno pagamento. Foi neste momento que a multinacional Thoughtworks o convidou para fazer parte da equipe, oferecendo algo em torno de R$ 3 mil.

“Já faz mais ou menos um ano que estou na empresa, um lugar que oferece um crescimento muito rápido, tanto que assim que entrei fui fazer um treinamento na Índia, onde pude desenvolver meus conhecimentos”, contou José Carlos que hoje atua como consultor e desenvolvedor de plataformas, criando softwares, sites e aplicativos.

Segundo o jovem, ao olhar para trás, ele vê que entre os poucos amigos que conseguiram dar o próximo passo após o ensino médio, os que alcançaram uma melhor colocação no mercado de trabalho foram aqueles que seguiram as oportunidades da área técnica. “Os que preferiram fazer curso superior ainda não concluíram a faculdade e estão trabalhando em áreas que não têm qualquer relação com sua área de estudo”. José Carlos é ainda mais pragmático: “Não penso em fazer curso superior, por enquanto. Só farei um dia, mais pra frente, porque para realizar o sonho de ser professor tenho que ter o diploma do ensino superior. Na minha opinião, hoje os diplomas só servem para mostrar para pessoas ‘mesquinhas’ que você sabe fazer determinada coisa.”

SUPERIOR E TÉCNICO JUNTOS - De olho nas boas oportunidades do ensino técnico, mas consciente da importância do diploma do ensino superior para a sociedade, o jovem Guilherme Brandão Pinto, 25 anos, decidiu não perder tempo. Ele cursa ao mesmo tempo as duas modalidades, sendo a superior na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde estuda estatística, e o técnico no Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), onde se dedica ao curso de eletrotécnica.

No ensino técnico é tudo voltado para a prática. Já no curso superior é tudo muito voltado para teoria. Acho que a diferença básica é essa. Em questão de qualidade [de emprego] eu acho que o ensino superior vai me trazer melhores resultados. Já o ensino técnico vai me garantir quantidade (de vagas), porém com salários menores”, opinou a rapaz.

Como as áreas que estuda não são correlatas, em algum momento o jovem terá que escolher que carreira seguir. Guilherme, no entanto, garante que não terá preconceito se precisar optar seguir os caminhos ofertados por meio da profissionalização. “Acredito que as pessoas subestimam os cursos técnicos assim como os cursos tecnológicos. Muitos pensam que só porque você fez o superior, passou mais tempo estudando, vai saber mais. Mas o técnico está mais focado na prática’, explicou.

Guilherme ainda complementa: “O diploma do curso técnico vai servir pra currículo, abrir as portas. O da universidade é mais para a vaidade. Eu vejo que no Brasil tem muita cultura da universidade, as pessoas não conseguem ver o superior como oportunidade mas sim como obrigação.”

RESISTÊNCIA - Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao Ibope mostra que, na avaliação da população, os cursos técnicos e profissionalizantes são um caminho rápido para conseguir um emprego e ter um bom salário. Mesmo assim, ainda é baixo o número de pessoas que busca a educação profissional no Brasil.

Conforme o estudo, apenas um em cada quatro brasileiros já frequentou ou frequenta algum curso de educação profissional. As principais razões para que 75% da população nunca tenha feito cursos de formação profissional são falta de tempo para estudar (40%), de recursos para pagar (26%) e de interesse (22%).

O sociólogo Uacir Matias, que atuou por cerca de 20 anos como diretor do Senai em Pernambuco, alerta que é preciso acabar com os preconceitos e aceitar que o ensino técnico passou a competir com o ensino superior. “Há diversos engenheiros, por exemplo, já formados, que voltam para os bancos do ensino técnico porque os laboratórios desses cursos são, sem dúvida, mais atualizados do que os das universidades”, afirma.

Ele, que também é especialista em formação profissional e recursos humanos, orienta que o caminho que o indivíduo seguirá é delicado e deve ser analisado a partir de muitas possibilidades, afinal, o investimento feito na educação, mesmo que através de bolsas integrais, gera custos. Além disso, a decepção após anos de dedicação acaba causando um sentimento de frustração, de tempo perdido e prejuízo financeiro. “Quando os jovens não encontram vagas em algumas áreas pensam logo que perderam 4 ou 5 anos numa faculdade, ou num outro curso, investiram em material didático, transporte e outros fatores. Essa frustração tem um impacto, inclusive, na economia, porque é um gasto sem retorno.”

PRONATEC É OPÇÃO - Em 2011, início do primeiro mandato de Dilma, o governo federal anunciou a criação do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) que garante, de forma gratuita, acesso a cursos profissionalizantes. As aulas são ministradas em instituições das redes federal e estadual, além das distritais e municipais de educação profissional e tecnológica.

Também são ofertantes as instituições do Sistema S, como Senai, o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Em 2013, as instituições privadas, devidamente habilitadas pelo Ministério da Educação, também passaram a fazer parte do programa.

Desde que foi criado

8,4 milhões de matrículas em cerca de 4 mil municípios

Mais de 50% são mulheres, 67,55% negros e 67,27% jovens entre 15 e 29 anos

O Nordeste é a 2ª região com mais matrículas no programa

Esse tipo de incentivo federal foi responsável, inclusive, para o aumento no número de matrículas na educação profissional. Os cursos técnicos de nível médio são também conhecidos como de longa duração e têm entre 800 e 1,4 mil horas (até dois anos).

Além disso, o caminho do curso técnico pode sofrer um duro golpe. Entre as propostas feitas pelo Governo Federal para o Orçamento 2016 da União está uma redução que varia entre 20% e 30% nos repasses ao Sistema S. Logo após o anúncio, Josias Albuquerque, presidente do Sistema Fecomércio/Senac/Sesc em Pernambuco, disse em nota oficial que o corte ameaçará as metas desses serviços para o próximo ano. Medidas como fechamento de vagas e demissão de colaboradores não são descartadas.

*embora o MEC garanta que esse número irá crescer até o final deste ano.

QUALIDADE “TÉCNICA” - Assim como aconteceu entre as faculdades privadas, houve um aumento no número de instituições após os incentivos federais. Atento a isso, este ano o governo federal estabeleceu que, a partir do primeiro semestre de 2016, apenas instituições de ensino nas quais pelo menos 85% dos bolsistas concluem os cursos receberão integralmente os recursos oferecidos por meio do Pronatec.

De acordo com a determinação do MEC, o valor repassado às unidades estará vinculado ao Índice Institucional de Conclusão (IC). O novo indicador apontará a relação entre os concluintes em cada semestre e o total de matriculados nas respectivas turmas. Apenas as unidades de ensino com IC igual ou superior a 85% garantirão o repasse integral dos recursos do Pronatec.

As instituições que não atingirem o índice de conclusão poderão compensar o abandono dos estudantes com a oferta de horas-aulas gratuitas em outros cursos ou devolvendo os recursos correspondentes ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

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