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Especial: Desafio Metropolitano

Uma metrópole sob pressão

O Grande Recife cresce puxado por três eixos de desenvolvimento e compartilha nas cidades os mesmos problemas, acentuados pelo desenvolvimento

Giovanni Sandes

O trânsito de Ipojuca afeta o trabalhador de Paulista. O esgoto da orla do Recife polui Jaboatão dos Guararapes. Assim é a vida nas metrópoles, de problemas compartilhados. Mas, no Grande Recife, novos polos econômicos trazem um momento especial de transformação urbana que exige pensamento integrado. Na reta final das eleições, o JC traz, até o próximo domingo, o especial Desafio Metropolitano, uma série de reportagens em duas versões complementares. Nesta versão online, a série traz entrevistas em vídeo, depoimentos em áudio sobre diferentes perspectivas e temas que são aprofundados na edição impressa do Jornal do Commercio. Nas duas versões, a cobrança de técnicos, especialistas e da população é a mesma: os futuros eleitos precisam entender que o maior legado é guiar o bom crescimento das cidades

O desenvolvimento que embala a economia do Grande Recife estrangula o trânsito, escancara a ausência de saneamento e expõe vários outros problemas urbanos. Os gargalos são acentuados por novos polos econômicos, que começaram a mudar as forças na ocupação do Grande Recife. Isso exige planejamento e visão de longo prazo das prefeituras. As cidades precisam dialogar umas com as outras e com o Estado, hoje único protagonista dos projetos metropolitanos. O momento é de traduzir o salto econômico em melhoria de vida para milhões de pessoas.

Tania Bacelar, doutora em economia pública, planejamento e organização do espaço, e Sérgio Buarque, economista e mestre em sociologia, alertam para esse debate, que passou completamente em branco nas eleições. A questão não é contrapor ou alinhar prefeituras e Estado, mas ter cidades com voz, com capacidade de debater assuntos comuns dentro e fora de seus territórios. Os municípios crescem na marra, na sexta maior metrópole do País, com 3,74 milhões de habitantes.

É fundamental entender que as cidades não são estáticas. Até os anos 1970, sequer existia o conceito metropolitano. A discussão hoje é sobre a expansão das “cidades metropolitanas”, onde não cabe o pensamento antigo de municípios isolados. O Grande Recife começou a crescer muito ao sul, com Suape, mas os novos polos econômicos trouxeram outras pressões, a Oeste, com a BR-232 e as obras viárias da Copa 2014, e ao norte, para Goiana, a reboque de novas grandes fábricas, a maior delas a da Fiat.

Os serviços de saúde e educação têm problemas generalizados, nas cidades, mas os municípios falham na etapa anterior, a mais básica: o controle e a construção de sua parte física. As prefeituras são engolidas por emergências porque sequer planejam, uma falha grave em uma situação que intensifica o sentido de metrópole do Grande Recife: as ações da prefeitura da capital têm ainda mais impacto na vida do morador de Olinda ou Camaragibe, por exemplo (assista o vídeo ao lado).

A Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas (Condepe/Fidem) prevê uma pressão ainda maior no sul, oeste e norte, onde a expansão do Grande Recife começa a ultrapassar a fronteira metropolitana e desembarca em Goiana. A cidade da Zona da Mata influenciará de tal forma o Grande Recife que no planejamento já é considerada extensão da área metropolitana, por técnicos como o diretor-presidente da Condepe/Fidem, Maurílio Lima.

É por isso que as cidades devem celebrar o crescimento, mas acordar para o lado ruim, que traz impactos como desordem, favelas e poluição. Presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-PE), José Mário Cavalcanti reclama da falta do conceito metropolitano nos prefeitos. “Temos prejuízos sérios com isso: recursos mal empregados, soluções não adequadas e uma qualidade de vida terrível para a população”, afirma Cavalcanti.