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Especial: Desafio Metropolitano

Uma cidade sem diálogo

A capital, espelho da região metropolitana, precisa ouvir a população, redescobrir o planejamento desde o básico e assumir a liderança no debate metropolitano

Giovanni Sandes

O Recife foi privatizado pelas pessoas, uma perda de controle por seguidas prefeituras. Casas foram construídas sobre as raras calçadas da cidade. Carros param em qualquer lugar, a qualquer hora. Ruas e calçadas são apropriadas por lava-jatos, bares, restaurantes e ambulantes. Flanelinhas e até empresas agora demarcam o território com o uso de cavaletes e cones. Sem falar no lixo empilhado em qualquer lugar. A segunda reportagem da série Desafio Metropolitano traz, no JC Online, a omissão do poder público na “privatização do Recife”. Na versão impressa, leia sobre a falta de diálogo no Recife e o exemplo de como a discussão mudou cidades, em locais como Paris e Medelín.

As paradas em fila dupla, no trânsito, de pais que vão deixar os filhos no colégio, acontecem todos os dias, assim como os caminhões parados com sinal de alerta acionados em locais e horários de tráfego intenso de veículos. O lixo é jogado em qualquer lugar, de pequenas garrafas a pilhas sobre calçadas.

Laurentino Gomes, autor do livro 1808, o sociólogo Gilberto Freyre e diversos outros autores registram a precariedade na relação entre a população do Recife e a cidade há muito tempo, ainda no fim do período colonial e no início da República: dejetos humanos eram atirados nas ruas do alto de sobrados recifenses e nos rios que circundam a cidade.

Concessões de água e esgoto, as primeiras da cidade, foram criadas para conter a expansão urbana, mas não deram conta do recado. Um século à frente, no auge dos problemas, foi convocado o engenheiro higienista Saturnino de Brito, na primeira década dos anos 1900, para traçar um plano de saneamento integrado da capital, com pavimentação de ruas, coleta de esgoto, fornecimento de água, habitação e coleta de lixo.

Naquele período, o Recife precisava ser remodelado para dar cara nova à cidade, porta de entrada dos europeus e vitrine da República do Brasil, conta o doutor em arquitetura e mestre em história Maurício Rocha de Carvalho, professor da Universidade Federal de Pernambuco.

Depois de Saturnino, o novo grande salto no planejamento da capital veio em 1943, com o arquiteto urbanista João Florence de Ulhôa Cintra. Aquele foi o último grande plano urbano da cidade, o mesmo que criou a estrutura de radiais da capital – um desenvolvimento pensado em linhas a partir do centro do Recife.

O início de um novo século chegou e as pessoas outra vez avançam sobre o espaço coletivo, como você pode conferir nas entrevistas em vídeo, ao lado. “A cidade foi privatizada e a prefeitura do Recife não faz o que é de sua exclusiva responsabilidade”, reclama o consultor Francisco Cunha, membro do Observatório do Recife. É um dos trechos do depoimento em áudio que o especial traz hoje.

A cidade, como há cem anos e, mais no passado, há 200 anos, virou uma zona de conflito, um espaço agressivo em cada esquina.

“Agressão traz agressão. Educar as pessoas é uma questão central”, afirma o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-PE), Roberto Montezuma. Ele diz que em Medelín, na Colômbia, a antiga capital do narcotráfico conseguiu unir as pessoas em torno de obras aparentemente simples.

“Em Medelín, a prefeitura fez a melhor escola para a pior favela. Colocou lá a melhor biblioteca, com espaço de dança, manifestações artísticas. Envolveu todos no debate sobre calçada, trânsito, a cidade. Tudo isso dá uma ideia de pertencimento. Engaja as pessoas”, afirma Montezuma.