O casamento de Patrícia

Uma casa no primeiro andar no bairro de Jardim Liberdade, em Caruaru, Agreste de Pernambuco, é onde vivem Patrícia Mendes, 29 anos, e o marido, Sivonaldo Teodoro da Silva, 34. Todo dia, os dois sobem e descem a escada que separa o lar deles da casa da mãe de Patrícia, que mora no térreo, para seguir a rotina de trabalho.

Ela possui dois empregos: pela manhã, é professora de braile na Escola Municipal Duque de Caxias e, à tarde, é telefonista em um supermercado. Ele trabalha no setor de revelação de radiografias em uma UPA 24 horas e, nos fins de semana, viaja pelo interior ou pela capital pernambucana para se apresentar com sua banda, Cegnus, em festas de casamento, formaturas, bailes em geral. Rotina corrida, muitos afazeres, tudo o que qualquer casal do mundo pode enfrentar. Até mesmo com deficiência visual, algo que os dois possuem.

Foto de Patrícia, que sobe uma escadaria

Casados há pouco mais de um ano, os dois se conhecem desde a época da escola. Estudaram juntos, mas o destino fez com que Sivonaldo casasse primeiro com outra mulher, com quem teve dois filhos. Após a separação, ele se aproximou de Patrícia, com quem namorou, noivou e casou em um rápido período de nove meses. Morar juntos era algo natural a se fazer, independentemente da cegueira que ambos possuem. Adaptando uma coisa ali e outra ali, o espaço tem um ar aconchegante.

Os cômodos são bastante organizados, a sala é igual a de uma família de comercial de TV, só que sem o aparelho de TV no centro, algo que não faz falta para o casal que não enxerga. Ouvir notícias e escutar boa música no rádio são suficientes para eles. A vida privada de dois cegos desperta a curiosidade, natural, de quem não os conhece. Nada que Patrícia não tire de letra.

Fazem perguntas do tipo ‘como você faz para cozinhar, para fazer feira?’. Respondo que cozinho através do tato e que, para ir ao supermercado, precisamos da ajuda de alguém para ver a data de validade dos produtos. Somos vistos como um casal, mas às vezes alguns até pensam que somos irmãos. Isso não me incomoda.

Independentemente dos questionamentos alheios, o plano de Patrícia e Sivonaldo é aumentar a família. A chegada do primeiro filho enche a professora de expectativas normais de uma futura mamãe.

Meu sonho, hoje, é ter um filho, que estou me programando para isso. Vai ser igual como é para qualquer mãe de primeira viagem. Tudo será novidade, vou estar descobrindo e aprendendo, mas acho que, por ser cega, não vai ser um um bicho de sete cabeças, não. Vai ser normal.

A cegueira de Patrícia veio pela genética. Natural da cidade de Garanhuns, Agreste de Pernambuco, ela e o irmão nasceram com um problema que outros primos também apresentavam.

Minha mãe procurou um médico e ele disse que provavelmente meu caso era hereditário, porque uma tia do meu pai tinha quatro filhos cegos.

Quando passou a frequentar a escola, Patrícia tomou gosto pelos estudos e aprendeu a ler e escrever em braile. Os colegas de turma foram fundamentais para que ela pudesse aprender, pois ditavam o conteúdo da aula para Patrícia escrever tudo em braile e estudar. Terminou o ensino fundamental, o ensino médio e decidiu cursar pedagogia. Na faculdade, a grande quantidade de apostilas dificultava que a jovem escrevesse tudo manualmente, fazendo com que dependesse de alguém para gravar o conteúdo em fitas cassetes.

Foi difícil. Porque nem sempre eu tinha alguém disponível. Teve uma época que pedi ajuda da coordenação e não consegui porque disseram que não era obrigação dos professores digitar material para eu estudar e mandar para o meu e-mail para eu ler com acessibilidade. Mas, graças a Deus, consegui colegas que me ajudaram muito, chegavam mais cedo na faculdade. Teve uma bibliotecária também que me ajudou bastante, ela gravava minhas apostilas, também me deu uma força muito grande.

O esforço que fez para adquirir conhecimento valeu demais para Patrícia, tanto que ela resolveu retribuir a educação que recebeu através do ensino de crianças com deficiência. Hoje, ela é professora brailista na Escola Municipal Duque de Caxias, em Caruaru. Ensina crianças que, assim como ela, passaram a descobrir um mundo muito maior do que o da ausência da visão.

A educação está evoluindo, mas ainda tem muita coisa para evoluir também. Elas merecem melhor condição de acessibilidade.

Números da educação inclusiva em Pernambuco

31207 Total de alunos com deficiência (dependências Federal, Estadual, Municipal e Privada)

245 Total de alunos cegos

89 Alunos cegos que estudam no Grande Recife (rede estadual)

Fonte: Censo Escolar 2014

Acessibilidade para educar

Foto de Lauricéia Ferraz. Ela usa um microfone.
Lauricéia Tomaz, chefe da Divisão de Educação Especial da Secretaria de Educação do Recife

Temos, hoje, 3.600 alunos com deficiência na rede municipal de ensino do Recife. Eles estão distribuídos nas salas regulares de todas as 309 unidades de ensino, tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental e na Educação de Jovens e Adultos (EJA). No contraturno, eles desenvolvem trabalhos direcionados com 254 professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que são os docentes com pós-graduação em Educação Especial. Os alunos contam ainda com 98 salas de recursos multifuncionais, que são espaços com equipamentos pedagógicos específicos para o desenvolvimento desses estudantes

Lauricéia Tomaz, chefe da Divisão de Educação Especial da Secretaria de Educação do Recife

Hoje, a gente não trabalha com segmentação, toda escola tem que estar apta e todo professor nosso tem que estar preparado para receber, senão você está violando o direito do aluno com deficiência caso o separe dos demais. Por isso, a formação com os professores com sala regulares é fundamental. Temos, em todo o Estado, 500 salas de recursos multifuncionais. Se o aluno estuda numa escola e sente necessidade de um recurso especializado, ou ele vai pro Centro de Atendimento Educacional Especializado do Recife (Caar), no bairro de Casa Amarela, ou a escola entra em contato com a Secretaria de Educação, com a Gerência de Políticas Educacionais de Educação Inclusiva, Direitos Humanos e Cidadania (GEIDH), que está apta a dar esse atendimento a qualquer estudante da rede pública de ensino.

Vera Braga, gerente de Políticas Educacionais de Educação Inclusiva, Direitos Humanos e Cidadania da rede estadual de ensino de Pernambuco
Frequência de leitura de livros em braile, independente do suporte: por Escolaridade e Faixa Etária

4579 Base: Sabe ler e escrever (2015)

0 Todos os dias ou quase todos os dias

1 Todos os dias ou quase todos os dias

1 Pelo menos 1 vez por semana

3 Pelo menos 1 vez por mês

94 Não lê

Fonte: Instituto Pró-Livro/Retratos da leitura no Brasil 2015

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Expediente

26 de setembro de 2016

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